Primeira cerveja orgânica do Brasil é produzida na Serra Gaúcha

Produto é feito com ingredientes livres de agrotóxicos visando hábitos mais saudáveis

Água e grãos são ingredientes de maior abundância na receita da cerveja (Foto: Victória Lima/Beta Redação)

Produtos orgânicos ganham cada vez mais espaço no mercado brasileiro. Conforme o Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), atualmente, já são 17 mil produtores orgânicos cadastrados. A cerveja também entrou para essa categoria. A primeira fabricante da bebida orgânica certificada do Brasil está na Serra Gaúcha, em Picada Café. Com 14 anos de atuação no Estado, a Cooperativa Agropecuária de Produção e Comercialização Vida Natural (Coopernatural) é responsável por essa novidade mais saudável.

Feita com água, malte, grãos, lúpulo e fermento, a cerveja Stein Haus dispõe de diferentes sabores, que irão variar de acordo com temperos e frutas utilizados nas receitas. Dos ingredientes básicos, apenas o lúpulo — componente que traz o amargor da cerveja — não é orgânico. O cervejeiro Tiago Genehr, 43, explica que não existe produção livre de agrotóxico deste ingrediente no Brasil.

Entenda como é feita a cerveja orgânica (Produção e edição: Victória Lima/Beta Redação)

Uma consumidora assídua da Stein Haus é a jornalista Adriane Bertoglio. Ela conta que a sua cerveja preferida é a Blonde Ale. “Como consumidora, priorizo os orgânicos, e no caso da cerveja, mantenho a mesma prática”, orgulha-se.

De acordo com o MAPA, produto agroecológico é aquele “obtido em um sistema orgânico de produção agropecuária ou oriundo de processo extrativista sustentável e não prejudicial ao ecossistema local”. O órgão só certifica uma produção como orgânica quando gerada em um solo sem contato com fertilizantes sintéticos ou pesticidas por, no mínimo, três anos.

Se atender exigências de produção requeridas pelo MAPA, o produto é aprovado e recebe o selo de certificação, que válida a comercialização em todo o Brasil. A Coopernatural passou por esse processo, que já era conhecido por causa da sua produção de outros orgânicos certificados. A partir de novembro de 2015 a cerveja começou a ser comercializada.

Esse trabalho realizado pela Coopernatural contribui para o consumo de alimentos naturais e saudáveis. Ao mesmo tempo, incentiva o trabalho da agricultura familiar, segmento responsável por toda a produção da cooperativa e por movimentos como o Slow Food.

Já existem diversas pesquisas sobre os riscos dos agrotóxicos, tanto para o meio ambiente quanto para nossa saúde. No entanto, o uso desses insumos só aumenta na produção agrícola brasileira. De 2005 a 2015, o mercado de agrotóxicos cresceu 190%, segundo dados da Anvisa. O Instituto Nacional do Câncer (INCA) estima que os brasileiros consumam cinco galões de veneno por ano através de alimentos cultivados com agrotóxicos.

Na tentativa de reverter esse quadro, grandes instituições dedicam seu trabalho para pautar esses problemas e incentivar o consumo de orgânicos. Uma dessas organizações é a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), fundada em 1971, com o objetivo de discutir sobre alimentação saudável e desenvolvimento sustentável.

Felipe Milanês, biólogo presidente da Agapan, expõe a questão dos fertilizantes sintéticos ou pesticidas como um problema de saúde e de sustentabilidade. Na saúde humana, o impacto é alarmante. Assim como no ecossistema, os agrotóxicos agem de diferentes formas em nosso organismo. Eles atingem partes distintas, que depende do tipo de veneno. Milanês explica que alguns são neurotóxicos, ou seja, causam disfunção cerebral. Esses podem gerar, ainda, mutações genéticas em fetos, quando em contato com grávidas. “Assustadoramente, uma característica em comum desses insumos, é o fato de serem cancerígenos”, afirma o biólogo.

Há, ainda, estudos que demonstram a relação entre o manuseio de agrotóxicos por agricultores e a taxa de suicídios na comunidade agrícola. Uma pesquisa recente da Secretaria de Estado de Saúde (SES), demonstrou que a cidade de Sinop, em Mato Grosso, possui uma taxa de suicídio 100% maior que na capital, com números registrado entre 2010 e 2018. Essa incidência está relacionada pela grande produção de grãos Sinop, que é pólo do agronegócio. No entanto, o problema não é novidade. Em 1996, a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa gaúcha indicou que 80% dos casos de suicídio ocorridos em Venâncio Aires eram de agricultores. Venâncio é a maior produtora de tabaco do Rio Grande do Sul até hoje.

Por terem ação gradual, é difícil relacionar o consumo de agrotóxicos com problemas de saúde. Suas aplicações nos alimentos são mínimas e, portanto, demonstram consequências a longo prazo. “Se não fossem pouquíssimos, eles matavam na hora”, esclarece Milanês.

Mercado dos venenos

Na natureza, o solo e os pequenos animais são os mais prejudicados. Milanês explica que a produção com agrotóxicos mata microorganismos responsáveis pela fertilidade do solo e da saúde das plantas, além de exterminar insetos importantes, como abelhas, joaninhas e pássaros. Um impacto dessa magnitude gera desequilíbrio no ecossistema, afetando indiretamente o bom funcionamento do organismo humano à medida que prejudica a respiração, além de ser uma ameaça para a produção de mel, por exemplo.

Para o presidente da Agapan, o excessivo uso de agrotóxicos é sustentado pela falta de informação e pela forte influência de multinacionais responsáveis pela produção destes venenos. Ele ainda defende que essa prática gera maiores gastos em saúde pública. “A produção de orgânico é a libertação da população e do produto”, conclui.

Com a promessa de produção em grande escala e produtos maiores, muitos agricultores acreditam que é necessária a utilização de pesticidas e fertilizantes sintéticos para garantir um bom resultado na colheita. Porém, pesquisas do Conselho Brasileiro da Produção Orgânica e Sustentável (ORGANIS), de 2017, revelaram que produtores de orgânicos possuem rendimento 33% maior que produtores convencionais.

Produção que só aumenta

Apesar de ser produzida no Rio Grande do Sul, a demanda maior da cerveja orgânica é fora do Estado. Conforme o presidente da Coopernatural e idealizador da cerveja, Ricardo Fritsch, 48, a região Sudeste é a maior consumidora do produto. A distribuição é feita para varejos e atacados, podendo ser solicitada via e-mail.

Segundo o presidente, a maior dificuldade para iniciar a produção e, mais tarde, a certificação da cerveja orgânica, foi garantir o fornecimento da cevada sem agrotóxicos. Com a falta de demanda, nenhum produtor se interessava em cultivar o ingrediente. “Dentro do grupo, nós já tínhamos produtores de grãos e um deles se disponibilizou a produzir a cevada. Foi o que permitiu o início da produção da cerveja”, conta.

Stein Haus não é a única produção da Coopernatural, atualmente formada por 32 sócios. Além da cerveja, são comercializadas mais de 200 produtos, entre eles, geleias, feijão, arroz, linhaça, pipoca, grão de bico, fubá, farinha de milho, canjica, açúcar mascavo, melado, sucos integrais e chás. Todos são orgânicos e frutos do trabalho da agricultura familiar.

Produtos orgânicos da Coopernatural prontos para serem comercializados (Foto: Victória Lima/Beta Redação)

A variedade de produção e alcance nacional de vendas possibilita um crescimento contínuo da cooperativa, inclusive a inserção de novos produtos no mercado. Um exemplo disso é o refrigerante orgânico, que já está em teste para possível fabricação e comercialização. Para Fritsch, é importante seguir inovando, pois “um produto alavanca o outro”, afirma.

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