Quando a fama vai às urnas

Celebridades apostam na afeição do público para conquistar votos, mas a receita não é garantida, segundo especialista

Tamires Trescastro
Nov 8 · 4 min read

O rosto que você vê na televisão, a voz que embala as festas e os almoços de domingo ou a pessoa que você viu em um reality show. A familiaridade com tais aspectos pode, de repente, ser modificada para uma relação de poder. Não é de hoje que famosos tentam ou, de fato, entram para a política. Às vezes ficam tanto tempo que até esquecemos de seu passado em outras áreas ou têm candidaturas que se perdem com o passar dos anos e ficam esquecidas na memória.

Com um grande número de personalidades tomando proximidade da carreira política, a Beta Redação conversou com o marqueteiro político Zeca Honorato para tentar compreender as relações que se formam entre público e famosos.

Conexões já existentes

Geralmente, famosos possuem certa afeição daqueles que os acompanham. Pela quantidade de vezes que os veem e pelo tanto que conhecem de suas vidas, as pessoas acabam sentindo como se houvesse uma relação amigável entre as duas partes. Para o marqueteiro Zeca Honorato, esta relação ajuda, sim, em uma candidatura, porém não é o suficiente. “Uma pessoa só consegue ser eleita quando ela cria uma rede de influência, e essa rede só existe quando se tem uma causa e se levanta uma bandeira”, explica.

Por mais que a figura pública seja influente na área em que atua e tenha o carisma da população por suas ações em programas de TV, por exemplo, isso não potencializaria uma eleição. Zeca afirma que tem diferença entre ser o preferido do público em relação à sua profissão e à sua representação em uma causa política.

“Se pegar as eleições passadas, incluindo jogadores de futebol, comunicadores e pessoas das mídias digitais, vai ver que a maioria não se elegeu. Mas, como um ou outro foi eleito, as pessoas acabam achando que todos que firmaram candidaturas se elegeram, o que não é verdade”, analisa o marqueteiro.

Partindo da ideia de que para se conquistar o público em eleições é necessário ter uma bandeira e ideias bem posicionadas, Zeca cita como exemplo o senador Lasier Martins (Podemos /RS) que, enquanto comunicador, abordava assuntos políticos e, principalmente, voltados para a ética. “É óbvio que quando ele concorreu essa causa da ética, essa bandeira, estava implícita na sua candidatura, e quando ele concorreu essa causa tinha força”, conclui.

Luciano Huck e o assistencialismo no entretenimento

Caso se candidate, Luciano Huck terá que abandonar a Rede Globo. (Foto: Reprodução/Globo)

Há 19 anos, Luciano Huck comanda o programa Caldeirão do Huck. Em todo esse tempo, está inserido em comunidades em vulnerabilidade social realizando quadros assistenciais. Como exemplo, temos o Lar Doce Lar, que renova as casas dos inscritos, e Um Por Todos e Todos Por Um, que incentiva essas comunidades a realizarem mutirões em prol de uma pessoa.

Em matéria divulgada pelo The Intercept, o cientista social e jornalista João Filho expõe que Luciano lucrou, por um longo período, com a “miséria das pessoas” e que, agora, estaria modificando sua forma de fazer o programa para que a assistência total fosse substituída pelo incentivo ao público. Nas palavras de João, “deixou de dar o peixe para ensinar o pobre a pescar” e, com isso, construiu uma boa imagem com aqueles que o assistem.

Por conta dessa atuação ao longo dos anos, de acordo com a ideia defendida pelo marqueteiro Zeca, Huck teria potência em sua possível candidatura para a presidência em 2022, pois sua proximidade com os espectadores vai além do entretenimento.

Redes sociais e política

Em uma pesquisa realizada pela Google em julho de 2018 e divulgada em fevereiro deste ano no relatório Creators Connect: O Poder dos YouTubers, os resultados mostram que o poder de influência em formar opiniões é, em sua maioria, vindo de influenciadores do YouTube, ultrapassando até mesmo celebridades e jornalistas.

YouTubers ficam em terceiro lugar como mais influentes na formação de opiniões. (Gráfico: Creators Connect/Divulgação)

De tal forma, militantes das redes sociais teriam a seu favor o uso do YouTube por se tratar de uma plataforma com um grande número de acessos e de assiduidade do público com o criador de conteúdo. Além disso, como cita o marqueteiro Zeca, existe um forte posicionamento dos YouTubers nas causas que acreditam, o que gera identificação em quem está assistindo.

Beta Redação

A Beta Redação integra diferentes atividades acadêmicas do curso de Jornalismo da Unisinos em laboratórios práticos, divididos em cinco editorias. Sob a orientação de professores, os estudantes produzem e publicam aqui conteúdos jornalísticos de diversos gêneros.

Tamires Trescastro

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