Relação diplomática entre Brasil e Argentina pode ser abalada
Derrota de Mauricio Macri nas eleições argentinas trouxe descontentamento para Jair Bolsonaro e incertezas sobre o futuro dos laços entre os dois países

No dia 27 de outubro, o peronista Alberto Fernández foi eleito o novo presidente da Argentina em primeiro turno, com 48% dos votos, derrotando Mauricio Macri, que disputava a reeleição. O resultado da disputa trouxe insatisfação para o presidente Jair Bolsonaro (PSL), que afirmou em coletiva de imprensa no Oriente Médio, onde estava em visita oficial na época, que “os argentinos escolheram mal” e que não iria cumprimentar Fernández. Além disso, Bolsonaro também não comparecerá à posse do presidente argentino, marcada para o dia 10 de dezembro, e vai enviar em seu lugar o ministro da Cidadania, Osmar Terra. Essa será a primeira vez desde 2003 que o chefe de Estado brasileiro não se faz presente na posse do presidente argentino.
A insatisfação de Bolsonaro com o resultado da disputa se dá pela proximidade que Fernández tem com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em julho, o peronista visitou Lula na Superintendência da Polícia Federal do Paraná, em Curitiba, onde o petista se encontra preso. Além disso, o dia do resultado da eleição argentina também foi o aniversário de 74 anos de Lula, e Fernández postou em seu Twitter uma foto fazendo um L com a mão, gesto de apoio ao ex-presidente. Junto com a foto, o peronista escreveu:
“Também hoje faz aniversário meu amigo @LulaOficial, um homem extraordinário que está injustamente preso há um ano e meio. Parabéns pra você, querido Lula. Espero vê-lo logo.”

Desalinhamento histórico e atritos no horizonte
A professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing do Rio Grande do Sul (ESPM Sul), Ana Regina Simão, afirma que, antes de esperarmos um conflito diplomático entre os dois países, devemos nos perguntar o quanto Bolsonaro estava discursando apenas para seus seguidores ao se posicionar contra Fernández.
“Desde sua campanha eleitoral, vemos o presidente Bolsonaro frequentemente priorizando o que seus eleitores querem ouvir ao se manifestar sobre um determinado assunto. Temos que ter isso em mente agora e questionar o quanto de seu pronunciamento a respeito da eleição de Fernández foi, de fato, para dar a entender que o Brasil e a Argentina podem vir a ter problemas um com o outro e o quanto foi um discurso para seu público”, explica.
Ana também conta que, apesar de haver uma longa relação diplomática entre o Brasil e a Argentina, a rivalidade sempre se fez presente. Porém, a professora afirma que a atitude de Bolsonaro de não cumprimentar Fernández por sua eleição e de não comparecer a sua posse é, de fato, um ato de descortesia que pode, sim, criar um abalo nos laços entre os dois países. Redator das publicações do Instituto Humanitas da Unisinos (IHU), formado em Relações Internacionais e mestrando em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Wagner de Azevedo concorda com a visão da doutora e acredita que seja possível que surja uma instabilidade no interesse regional.
“Desde a redemocratização dos dois países, tivemos governos alinhados: José Sarney com Raúl Alfonsín, Fernando Collor de Mello, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso com Carlos Menem, Lula e Dilma Rousseff com Cristina Kirchner. É difícil prever o nível de descompasso que teremos agora, mas é evidente a diferença paradigmática”, afirma Azevedo.
O advogado e mestrando em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Vinícius Figueiredo de Souza traz uma perspectiva diferente da de Azevedo. Segundo ele, Fernández é veterano na política e já atuou em governos de diversas nuances ideológicas. “Então, essa falta de clareza em um posicionamento político radical pode contribuir para que não haja polarizações com o governo brasileiro. Entretanto, dependendo da temperatura política — através de declarações, medidas protecionistas e ações — , Fernández poderá responder em tom mais agressivo e proporcional às provocações de Bolsonaro”, projeta o advogado.

Laços econômicos devem permanecer
Apesar da possibilidade de atritos entre os dois presidentes, não é esperado um completo rompimento das relações diplomáticas entre o Brasil e a Argentina em função de seu forte laço econômico. Ambos os países se encontram em um momento de economia fraca e são economicamente dependentes um do outro. A Argentina é o terceiro maior parceiro comercial do Brasil e o principal destino das exportações brasileiras de manufaturas.
Porém, a professora Ana Regina não descarta a possibilidade de haver um esfriamento dessa relação econômica entre os dois países. “Embora os governantes saibam que são economicamente dependentes um do outro e que romper por completo os laços seria muito prejudicial para ambos, podemos esperar um abalo nos nossos laços econômicos caso as provocações de Bolsonaro sejam respondidas à altura por Fernández e o atrito ideológico se intensifique. Governos alinhados politicamente tendem a trabalhar melhor”, afirma.
Já Azevedo possui uma perspectiva diferente para o rumo que a relação econômica entre o Brasil e a Argentina pode tomar. O analista do IHU Wagner de Azevedo acredita que uma forte polarização política entre os países levaria nações como Estados Unidos e China a ganhar poder de barganha.
“Aposto não em consequências diretas, como diminuição de importação e exportação, mas que outras potências tenham mais força de negociação, e certamente não farão esforços para arrefecer algum atrito. É mais fácil para as grandes potências fornecer ajuda para um país que esteja rivalizando com outro. Isso sem perder as relações com ambos, pois os dois são dependentes dessa relação assimétrica”, disserta o mestrando.
E o que esperar no Uruguai?
Além de criticar a eleição de Alberto Fernández, Bolsonaro também comentou sobre suas expectativas para o resultado das eleições presidenciais do Uruguai em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo no dia 29 de outubro. O segundo turno do pleito uruguaio acontecerá no dia 24 de novembro, onde o governista Daniel Martínez vai disputar a presidência contra o oposicionista Luis Lacalle Pou.
O presidente brasileiro disse que torce pela “eleição de alguém mais ligado ao nosso time”, referindo-se a Luis Lacalle Pou, que integra o Partido Nacional, de centro-direita. O comentário de Bolsonaro foi alvo de críticas do próprio Pou, que rejeitou seu apoio e disse ao jornal uruguaio El Observador que acha que “não é bom que os políticos, e nesse caso governantes, opinem sobre o que pode acontecer em outro país”.
A professora Ana Regina acredita que essa predileção de Bolsonaro pode ser motivo para esperar uma atitude semelhante à que ele teve na eleição argentina caso Daniel Martínez saia vitorioso na disputa uruguaia. “Além disso, o Brasil ficaria gradativamente em um estado de isolamento político”, acredita.
Por outro lado, se Pou for eleito, o advogado Vinícius Souza imagina que o Brasil estreitaria seus laços com o Uruguai. Porém, seria pela falta de referência de modelo econômico a ser seguido na América Latina.
“A direita no Chile, de Sebastián Piñera, respira por aparelhos. A direita de Macri na Argentina sofreu uma derrota expressiva nas urnas. Ambos governos marcados por políticas econômicas liberais e de forte austeridade. Governos parecidos com o brasileiro em aspectos econômicos. De alguma maneira, a derrota desses modelos gera efeitos no discurso do presidente Bolsonaro, pois como ele continuará defendo que ‘vai seguir o modelo econômico de Macri’?”, questiona o advogado.
Azevedo também acredita que uma vitória de Pou no pleito uruguaio acarretaria em uma aproximação entre os dois países. Porém, seria um estreitamento apenas diplomático, que não acarretaria em grandes mudanças nas relações econômicas entre os países.
“O Uruguai e o Brasil têm um comércio estável. Um precisa do petróleo, e o outro, da agropecuária. O Uruguai não mudará a postura diante do Brasil, independentemente de quem vença as eleições. É um país pequeno e agroexportador”, finaliza.

