
Rugby sofre com a falta de incentivo no Estado
Apesar de ganhar recente popularidade, a modalidade afasta atletas devido aos altos custos e à falta de recursos
O cenário ainda era novo para os praticantes de rugby quando o primeiro clube do Estado foi criado. De nome indígena, o Charrua Rugby Clube surgiu em meados de 2000, em Porto Alegre, por um grupo de amigos liderados por Nilson Taminato, ex-jogador do Rio Branco Rugby Clube, e Mauro Croitor. O time, fundado oficialmente no dia 2 de julho de 2001, marcou o início da história do esporte no Rio Grande do Sul.
A partir de então, outros times começaram a surgir. Até mesmo ex-integrantes do Charrua ajudaram na criação dos novos clubes gaúchos.
“Como no Estado não havia cenário para o desenvolvimento da modalidade, o primeiro jogo do Charrua foi disputado em Florianópolis, contra o Desterro”, lembra o presidente da equipe, Filipe Menezes, 32 anos. Enquanto novas equipes não se firmavam, os jogos eram disputados fora do Estado, mas se concentravam na região Sul.
Com o tempo, o Charrua cresceu e, hoje, conta com aproximadamente 100 atletas em atividade em diferentes categorias. Os treinos ocorrem nas terças e quintas-feiras, no período vespertino-noturno, na Redenção, em Porto Alegre; e aos sábados, na sede, na Sociedade Hípica Porto-Alegrense.
“Estamos falando de atletas amadores, ou seja, de pessoas que priorizam a rotina familiar e profissional. Então, a nossa preparação depende das possibilidades e da individualidade de cada um. O encaixe das obrigações como esportista, como treinos físicos e técnicos, é uma peleia diária”, destaca Menezes.
O atleta acredita que o rugby é um esporte inclusivo e que a principal característica dos atletas é o caráter. Por meio do esporte, afirma, são desenvolvidos valores como liderança, responsabilidade, honestidade e proatividade.

Crescimento do esporte
Menezes conheceu o rugby em 2010, na cidade de Pelotas, quando já tinha mais de 20 anos, como a maioria dos colegas. Só mais tarde que as novas gerações receberam incentivo para treinar. “Estamos plantando sementes para o futuro”, enfatiza.
Desde 2000, o nível de jogo do clube aumentou. O que antes era apenas uma prática recreativa, hoje demanda preparo técnico e físico para garantir o alto rendimento, além de cada vez mais capacitação e responsabilidade na gestão das entidades.
No entanto, poucos conseguem viver do esporte amador. A maioria vive para ele. Há casos isolados no Estado, com atletas contratados pela Federação Gaúcha de Rugby ou de times que se sustentam através de leis de incentivo, mas isso ainda não é uma realidade.
“Acredito que, num curto-médio prazo, mesmo não fugindo da base calcada no voluntariado, seja possível uma associação como o Charrua se tornar tão relevante para a comunidade que consiga retribuir financeiramente o tempo daqueles que tanto se dedicam ao clube”, espera Menezes.

Rugby para elas
A evolução do esporte no Estado possibilitou a criação de equipes femininas, ainda em um cenário de luta por incentivo. Hoje o Rio Grande do Sul possui cerca de 10 times femininos, mas somente cinco em condições financeiras e táticas para participar de competições.
Entre eles está a categoria feminina do Centauros Rugby Clube, de Estrela. Com 12 atletas no elenco, os treinos ocorrem nas terças-feiras, às 21h30, no campo da rua Ceará, em Lajeado.

“O cenário ainda continua o mesmo para as mulheres, então fica difícil manter um campeonato de alto nível”, lamenta a capitã do time, Jéssica Cristina Horn, de 28 anos. Hoje, o Centauros participa apenas do campeonato gaúcho de rugby sevens, mas já participou da Liga Sul (campeonato que reúne equipes do PR, SC e RS), assim como de etapas do Super Sevens, o campeonato nacional.
O rugby nacional é dividido em duas categorias: rugby union e rugby sevens. As equipes femininas disputam o rugby sevens, que corresponde à modalidade olímpica em que jogam sete contra sete, devido às dificuldades de se conseguir novas atletas.
“A nossa rotina de preparação prevê treinos em alta intensidade, tanto na parte física quanto técnica. O estilo de treinamento se difere do masculino apenas porque jogamos modalidades diferentes, mas a exigência é a mesma”, garante Jéssica.
De acordo com ela, uma atleta de rugby precisa ser completa, ou seja, utilizar a força e ter agilidade ao mesmo tempo. A peça chave do esporte é o raciocínio lógico.

Amor pelo esporte
Jéssica entrou em campo pela primeira vez em 2012, com o surgimento do time Feminino do Centauros. “Sempre gostei muito de esportes de contato e intensidade, e como o rugby é muito diferente de qualquer outro esporte, principalmente pelo que nos ensina culturalmente, a paixão foi imediata”, garante.
A atleta observa que o rugby feminino rio-grandense está em queda, onde diversos times lutam para ainda se manter treinando. Entre os motivos que Jéssica acredita contribuírem para esse cenário, está a falta de incentivo da Federação, custos altos dos campeonatos no Estado e falta de apoio das empresas locais.
Ainda que o clube esteja bem preparado para ajudar em parte dos custos, nem sempre as atletas podem contar com isso. O rugby é um esporte caro e as premiações geralmente não são feitas em dinheiro.
“Estamos sempre pagando para jogar, e como existem poucos clubes no Estado, temos que gastar com viagem para ir até o clube mais próximo, mesmo em amistosos”, conta Jéssica.

Charrua feminino
Outro clube que se destaca no RS pela categoria feminina é o Charrua Rugby Clube, com cerca de 14 meninas. Os treinos ocorrem nas terças e quintas-feiras das 20h30 às 22h30 na pista de atletismo da Redenção e aos sábados às 10h na Sociedade Hípica Porto-alegrense.

O time das meninas é o único da categoria representando o Estado no campeonato nacional. A próxima etapa ocorre nos dias 16 e 17 de novembro, em São Paulo. Em âmbito nacional, o Charrua participa tanto com o time feminino no Super Sevens, como o masculino no Super 13, os campeonatos da primeira divisão brasileira de cada categoria. No estadual, além dos adultos, os juvenis também representam o clube nas competições.
“Por sermos atletas amadoras, nossa preparação vai de acordo com a realidade de cada uma. Nós treinamos rugby e fazemos treino físico três vezes na semana. Quem pode ainda faz academia por fora”, destaca a atleta do clube Mariana Quevedo Araújo, 21 anos.
O clube é mantido por meio do pagamento de mensalidade dos sócios e algumas políticas financeiras que ajudam a manter os espaços e os materiais para os treinos.

De família
Mariana adquiriu gosto pelo esporte em 2011, com o incentivo do irmão mais novo que jogava no Charrua. “Comecei a jogar aos 13 anos e, desde então, não parei. Participei de campeonatos juvenis, campeonato gaúcho e Super Sevens, mas cada vez que entro em campo aprendo alguma coisa nova. No rugby você está sempre em desenvolvimento”, garante. Hoje, ela é capitã do time na categoria, ao lado da colega Bárbara Leal, e conta com o auxílio do treinador Guilherme Marques.
O campeonato gaúcho feminino de rugby é a principal competição que ajuda a desenvolver as equipes femininas do Estado. “Acredito que ainda falta interesse dos clubes em querer elevar o nível do rugby feminino no Estado”, destaca Mariana.
O rugby ainda é um esporte amador no Brasil e, por isso, as despesas das viagens são pagas pelas atletas. O clube banca as inscrições nos campeonatos, mas as meninas procuram formas alternativas para abastecer o “caixinha” que ajuda a pagar as despesas do time.
Conheça as regras do jogo acessando o site da Federação Gaúcha de Rugby.

