Sabedoria oriental, dança e amizade representam o Japão no RS

Festival em Porto Alegre proporciona uma imersão na cultura japonesa

Tambores de Okinawa . (Foto: Aniele Cerutti/ Beta Redação)

Havia um príncipe, o nome dele era Mokuen, e ele possuía o dom de uma visão transcendental. Certo dia, sua mãe faleceu e, ciente de que ela era uma pessoa bondosa, ficou curioso para saber em que plano astral se encontrava. Mokuen utilizou o seu poder para vê-la, mas sua mãe estava em um estágio entre os Gaki (demônios famintos) e não conseguia comer nada, pois tudo o que colocava na boca queimava.

Mokuen resolveu pedir ajuda a Buda, que o aconselhou a fazer uma festa e reunir todos os monges das redondezas e prendê-los por um dia. Dessa forma, poderia contar com a sabedoria dos mesmos para contatar sua falecida mãe. Os monges compareceram e lá beberam e comeram durante o encontro. No final da tarde, Mokuen os consultou para verificar em qual plano astral sua mãe estava. Descobriu que ela estava em um patamar mais elevado, onde repousava tranquila. Mokuen ficou muito contente pelo que viu e começou a dançar de alegria. Os monges, admirados com o entusiasmo do príncipe, resolveram acompanhá-lo em uma dança de roda. Depois, Mokuen contou aos monges toda a história. E assim surgiu a dança Bon Odori, para celebrar a amizade e a felicidade!

A lenda é contada pelo diretor do Grupo Hikari, Luiz Kuromto, que narra, em um domingo de inverno durante o 7º Festival do Japão RS, o surgimento de uma das danças folclóricas mais tradicionais do Japão. “Existem outros conceitos sobre a dança, como a celebração de uma boa colheita, mas contei a do estilo budista”, ressalta Kuromto. Outras danças japonesas mais conhecidas são: kabuki buyo, kamigata-mai, ryukyu buyo, shishi-mai e sarugaku.

Grupo Hikari convida o público para dançar e espantar o frio. (Foto: Aniele Cerutti/ Beta Redação)

O Grupo Hikari foi criado há 15 anos, no Paraná, para resgatar o Bon Odori, que estava em decadência nas associações japonesas. “A dança caiu em desuso porque o pessoal antigo já não tinha mais condições de frequentar as associações e os jovens não tiveram esse incentivo para continuar. Então, formamos o grupo exatamente para restabelecer, ressuscitar esse tipo de dança”, ressalta Kuromto.

Ventava quando o Grupo Hikari subiu no palco do 7º Festival do Japão no RS, no domingo (19/08), assim como havia feito no dia anterior. Mas, diferentemente do sábado, quando se apresentaram depois da cerimônia de abertura, desta vez os dançarinos encerrariam a edição. Os pássaros vermelhos feitos de origami pairavam em cima do público e, naquele momento, o Bon Odori celebrava a amizade entre povos e descendentes de imigrantes de diferentes partes do mundo. “Cada um tem que ter seu espaço, seja de origem japonesa, negra, italiana, para divulgar sua cultura. O Brasil é este grande misto”, afirma o militar Bruno Flores, que acompanhou e registrou as apresentações em seu celular.

Segundo Kuromto, um festival sem dança e sem a apresentação dos antepassados pode até ter um atrativo econômico, mas a celebração é sem nenhum atrativo cultural. “O que vale é trazer a cultura oriental escrita, origami e demonstrar assim o que é a japonesa”, reforça.

Entre yukata coloridos e fantasias de animes, o 7º Festival do Japão RS comemorou os 110 anos da imigração japonesa na Academia de Policia Militar de Porto Alegre, com cerimônia do chá, shamisen (instrumento musical de cordas), música popular, origamis (arte em papel), sumiê e shodô (arte em tintas) e tambores. “Acho interessante no sentindo que raramente alguém vai procurar ativamente por algum conhecimento sobre aquela cultura, por isso é muito mais fácil para as pessoas que não tem esse acesso, mesmo tendo na internet, conhecerem um pouco mais sobre a cultura japonesa, por o país ser multicultural”, relata Cybele Melo, veterinária que assistia a apresentação do Kamishibai (teatro de papel) da Cia Caravana de Santa Catarina.

Apresentações no palco variam entre danças, lutas, música, teatro. (Foto: Aniele Cerutti/ Beta Redação)

Harmonia e equilíbrio

Sentimentos que elevam a alma e acalmam o espírito. A delicadeza das flores encanta a todos que as veem, mas são poucos os que conseguem encontrar significações além da beleza. Na sala G da Academia de Policia, as exposições dos arranjos de Ikebana atraíram curiosos e admiradores. “Os arranjos me transmitem um sentimento de alegria e de paz interior. Me transmitem a tranquilidade da cultura japonesa”, salienta a promotora de vendas, Vanessa Martins.

Os arranjos de Ikebana, originários da Índia, assim como o Bon Odori, tornam-se parte da cultura do Budismo, uma de suas religiões. “Ikebana não é simplesmente fazer um arranjo e sim sentir o momento de paz e alegria para que possa transmitir às outras pessoas o calor humano”, afirma a sensei de Ikebana, Tiguiko Koshiomizu.

A exposição de Ikebana contou com arranjos de cinco artísticas diferentes. Foto: (Aniele Cerutti/ Beta Redação)

Tiguiko Koshiomizu começou a praticar Ikebana há 40 anos. Após criar os filhos, ele sentiu que a técnica preenche e completa a sua vida. “Quando se começa a fazer o Ikebana, você começa a enxergar a beleza da natureza, do universo. Às vezes nesse corre-corre, nem percebemos que temos flores no jardim, até na rua você encontra uma plantinha e nem percebe, mas quando se começa a fazer o Ikebana, essas coisas começam a surgir na sua vida, tornando-a mais alegre com mais paz”, reforça.

Na demonstração em que a sensei cria um arranjo, é ressaltado que Ikebana é uma arte adotada com caminho e que cada posição — galho, seixo e flores — têm um significado que representam a vida. “Temos que aproveitar o momento enquanto fazemos o Ikebana, pois através dele transmitimos os nossos sentimentos, o amor e a alegria”, ressalta a sensei Koshiomizu ao final da demonstração.

Demonstração de Ikebana. Foto: (Aniele Cerutti/ Beta Redação)

A sensei explica que o primeiro passo para criar um arranjo Ikebana é analisar o local onde será colocado, o material a ser utilizado e o vaso, a fim de gerar harmonia entre os três. Depois, basta sentar, ficar tranquila, respirar fundo e tentar transmitir os seus bons sentimentos ao arranjo, seja de amor, paz e alegria. “Então, logicamente, esse sentimento será transmitido às outras pessoas e vão observar o teu arranjo, isso é o mais importante no Ikebana”, completa Tiguiko.

Apresentação de dança com tambores

Confira mais imagens do evento:

Foto: (Aniele Cerutti/ Beta Redação)
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