TelessaúdeRS agiliza consultas do Sistema Único de Saúde
Programa tem como objetivo auxiliar nos atendimentos primários à comunidade
O projeto TelessaúdeRS é voltado aos profissionais da atenção primária ou básica de saúde (médicos, enfermeiros, odontólogos, técnicos de enfermagem, técnicos e auxiliares em saúde bucal, agentes comunitários de saúde), com TeleConsultoria, Teleducação e TeleDiagnóstico. O objetivo é qualificar o atendimento à comunidade e aumentar a resolutividade dos diagnósticos nos postos de saúde e Unidades Básicas de Saúde.
Sendo um projeto de pesquisa, o programa TelessaúdeRS foi criado pelo Núcleo de Telessaúde da Universidade Federal do Rio Grande do Sul — UFRGS e está vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia da Faculdade de Medicina da mesma universidade.

É mantido por meio de financiamento do Ministério da Saúde e da Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul. A política de Telessaúde no país ainda não possuiu um financiamento permanente, sendo os convênios discutidos a cada novo contrato.
Karina Pampanelli, 41, trabalha como médica de família em Campo Bom e faz parte dos profissionais do SUS que utilizam o Telessaúde em suas consultas. Logo que foi apresentada ao programa, em meados de 2014, realizou um treinamento, mas não tinha costume de usá-lo. Porém, após um período, o uso do programa começou a ser mais exigido para a regulação dos encaminhamentos de pacientes para outros médicos.
Atualmente, Karina contata o Núcleo com frequência, sempre que precisa discutir um caso ou agilizar uma consulta. “Eu, particularmente, entro em contato com o Telessaúde apenas por telefone, porque acho mais prático. Todas as vezes que precisei utilizar, recebi um bom retorno. Nunca aconteceu de não ter alguém para me atender e, quando preciso de um especialista que não pode atender no momento, eles sempre retornam logo que conseguem”, relata.
Na TeleConsultoria o profissional pode, por meio da plataforma do Telessaúde, escrever sua dúvida e enviá-la em um formato semelhante ao e-mail, recebendo resposta da equipe do projeto em até 72 horas. Essa é a forma mais antiga de consultoria realizada pelo Telessaúde e é disponível apenas no Rio Grande do Sul.
Em âmbito nacional, existe um número 0800 em que a ligação pode ser feita também do aparelho celular dos profissionais, com atendimento de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h30. Também existe a possibilidade de solicitar a TeleConsultoria por meio de vídeo, via Skype.
Segundo o médico e responsável pela regulamentação e TeleConsultoria, Rudi Roman, a equipe do Telessaúde é formada 50% por médicos de família, com experiência em atenção básica suficiente para resolver a maioria dos problemas apresentados. Cerca de 80% dos casos conseguem ser resolvidos sem suporte do especialista. “Problemas atípicos e que precisam de atendimento especializado recebem atenção de especialistas que compõem os outros 50% da equipe, que não ficam aqui em tempo integral, mas o suficiente para a resolutividade dos casos mais complexos”, explica.
Além da TeleConsultoria clínica, em que a iniciativa é do profissional que sentiu dificuldades no diagnóstico, existe a TeleConsultoria estimulada que surgiu em 2014 em uma parceria com a Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul. Ela faz parte do RegulaSUS, desenvolvido com o intuito de diminuir o tempo de espera para consulta especializada, priorizar o atendimento em casos mais graves e resolver, com o auxílio dos profissionais do Telessaúde, boa parte dos problemas de saúde da população no município em que residem. Para isso, os casos são analisados e as filas revistas.
Para entender melhor o procedimento, disponibilizamos um áudio do médico de família e comunidade, Rudi Roman. Confira abaixo:
No Rio Grande do Sul, 90 mil pacientes do interior do Estado estão esperando para consultar com um especialista na capital. Dois em cada três casos que saem dessas filas e voltam para o atendimento básico, com o auxílio dos profissionais do Telessaúde, são solucionados.
Na maioria das especialidades clínicas houve redução de 60% nas filas. Em especialidades como pneumologia, o projeto conseguiu reduzir o número de pacientes aguardando por consulta de 3 mil para 500. Segundo a médica Karina, a diminuição do tempo de espera para consultas é uma das principais vantagens que o Telessaúde proporciona para a saúde pública. “Antes havia filas enormes para consultas com especialistas, filas que (a espera) durava mais de cinco anos. Hoje, o fato do médico poder discutir o melhor procedimento diretamente com o especialista, faz com saibamos melhor para onde devemos encaminhar cada tipo de caso, o que acaba diminuindo as filas. Não acabaram, mas certamente diminuíram”, ressalta Karina.

O Telessaúde trabalha com quatro especialidades de TeleDiagnóstico. Um deles é o RespiraNet, que atua no TeleDiagnóstico em pneumologia, que facilita o acesso ao exame de espirometria, um aparelho para medir o volume do ar inspirado e expirado pelos pulmões. Há oito espirômetros espalhados pelo Estado. Os médicos solicitam o exame e, após a realização, a equipe do Telessaúde analisa e encaminha o laudo em até quinze dias ao profissional que realizou o atendimento primário.
Anteriormente ao RespiraNet, o Estado realizava 200 espirometrias por ano e, agora, são realizadas 600 por mês. Segundo o responsável pela regulamentação e TeleConsultoria do Telessaúde, Rudi Roman, o exame é de suma importância no Rio Grande do Sul, que possui índices elevados de doença pulmonar e consumo de tabaco.
Também existe o TeleOftalmo, que foi implantado em agosto de 2017. É um equipamento disponibilizado em oito consultórios, dois em Porto Alegre e seis em demais regiões do Estado. O exame é feito pelo equipamento controlado a distância pelo especialista do Telessaúde, que interage em tempo real por áudio e vídeo com o paciente, além do auxílio dos profissionais do posto de saúde.
As outras duas especialidades do TeleDiagnóstico são o DermatoNet e o EstomatoNet, ambos com operação mais simplificada. Esses TeleDiagnósticos também são solicitados pelo médico, porém apenas ocorre a solicitação acompanhada de uma fotografia. Na EstomatoNet são avaliadas lesões bucais e na DermatoNet lesões na pele, com retorno do Telessaúde em até 72 horas.
Em 2007, quando o projeto foi proposto pelo Ministério da Saúde, um dos seus objetivos era propagar cursos, palestras e capacitações a distância. “Regularmente, no Teleducação, ofertamos cursos voltados à realidade da atenção primária no Sistema Básico de Saúde, o que considero uma vantagem, afinal são pensados para a realidade que o profissional vive”, explica Roman.
Segundo Karina, as discussões de casos junto à TeleConsultoria permitem que os profissionais da saúde possam aprender mais. Ela ressalta que eles podem ter mais acesso e um maior contato com áreas das quais antes tinham pouco conhecimento, e assim, conseguem tratar os casos dos pacientes de forma mais efetiva.
Além disto, ela destaca que os protocolos para encaminhamento de consultas disponibilizados no site do Telessaúde fazem com que ela aprenda a perceber os sintomas de forma mais fácil. “Os manuais do site me indicam quando devo encaminhar o caso para um especialista e já auxilia no tratamento que devo passar para o paciente ir realizando antes de chegar ao especialista”, aponta Karina.
Segundo Roman, o TeleDiagnóstico, criticado por alguns grupos médicos, não desumaniza o atendimento, porque ainda ocorre a interação entre os profissionais de saúde e o paciente. “Acho que precisamos estabelecer algumas prioridades e o acesso à saúde ocular é uma delas. A oftalmologia no nosso Estado é algo muito crítico, então a gente precisa pensar na ampliação do acesso. As filas têm mais de 15 mil gaúchos só do interior esperando atendimento em Porto Alegre. Então, se não pensarmos em alternativas, a tendência é que isso piore”, completa o médico.
Do outro lado da linha
Sobre sua experiência com atendimentos utilizando o Telessaúde, Karina comenta que muitas vezes liga e conversa com o médico e com o paciente ao mesmo tempo, para que o especialista saiba tudo a respeito do caso. “Acho que estes procedimentos não desumanizam a consulta, porque o paciente percebe que é apenas um suporte para melhor atendê-lo”, explica.
A paciente Isabel Cristina Acosta, 49, concorda que o atendimento médico acompanhado do Telessaúde não torna o contato médico-paciente desumanizado. Ela procurou a UPA Scharlau, em São Leopoldo, após cair e machucar gravemente a perna. Durante a consulta, depois de examiná-la e fazer algumas perguntas, o médico tirou uma foto da lesão e logo entrou em contato com um colega. “Na hora ele me avisou que estava contatando outro médico que saberia melhor como ajudá-lo a proceder. Ele conversou por telefone com o médico durante alguns minutos, tudo na minha frente mesmo. Foi bem eficiente e tranquilo”, relata.
Karina lembra que os médicos não têm obrigação de falar para o paciente que estão entrando em contato com outro médico, e também não são obrigados a fazê-lo na frente do paciente, podendo entrar em contato com o Telessaúde, inclusive após a consulta. Porém, normalmente os pacientes costumam aprovar o procedimento, por sentirem que estão sendo atendidos com mais atenção, assim como Isabel. “Achei que a consulta e o encaminhamento foram rápidos, acho que muito por conta do médico ter utilizado a TeleConsultoria. Logo após ele desligar o telefone, já me receitou alguns remédios e me encaminhou para outro médico”, conta.
Antes desta experiência com o Telessaúde, apesar de utilizar o SUS, Isabel nunca tinha ouvido falar do programa, mas diz que gostaria de passar por mais atendimentos como este. “Para mim foi ótimo, ocorreu tudo certo. Acho interessante e importante que exista uma plataforma que ajude o médico a dar um atendimento completo”, conclui.
Karina comenta que durante a consulta, o uso do Telessaúde exige do médico que ele tente de tudo pelo paciente. “Eles avaliam o caso e dizem qual a prioridade que ele vai receber, mas enquanto isto, te falam qual tratamento tu já podes começar com o paciente. Dizem tudo o que tens que fazer até o paciente chegar na consulta com o especialista, e isto é muito bom”.
Pontos positivos e negativos
Apesar de achar que a existência do Telessaúde melhora muito o modo como funciona a saúde pública no Brasil, a médica Karina aponta que alguns fatores deveriam ser melhor pensados para garantir um atendimento mais eficiente. Uma destas questões destacadas por ela é a burocracia. “Todo este procedimento para que tu faças tudo que é possível pelo paciente na Rede, apesar de ser ótimo, às vezes torna o processo em si um pouco mais demorado”, aponta a médica.
Para Karina, muitos médicos deixam de usar o Telessaúde pois sabem que irá demandar tempo. Além da consulta ser mais demorada pela necessidade de dados que precisam ser repassados ao Telessaúde quando se faz o contato, o preenchimento completo das requisições também é algo que esgota o tempo do médico.
Outro ponto sugerido, e que seria valioso para os pacientes do SUS, é o horário de atendimento. “Se o horário fosse mais extensivo, fosse além do horário comercial, ajudaria ainda mais. Muitas vezes não conseguimos contatar o Telessaúde durante a consulta, e em muitos destes casos é importante a discussão, mas acabamos não tendo como fazê-la”, confessa Karina.
Em contraponto, a médica afirma que o aprendizado e a agilidade que o Telessaúde conseguem oferecer é de extrema importância. “O programa faz com que os médicos da Rede trabalhem mais, e assim acabam conduzindo as consultas de forma mais correta. Também favorece a equidade, que é um dos princípios do SUS, fazendo com que a pessoa que tem mais necessidade consiga a consulta antes”, finaliza.
Serviço:
TeleConsultoria: pelo telefone 0800–644–6543 ou por meio da plataforma plataformatelessaude.ufrgs.br para auxílio em diagnósticos;
TeleDiagnóstico: elaboração de laudos a distância;
Teleducação: disponibilização de cursos, palestras e capacitações a distância.

