Um Cirão nem tão da massa

Em uma viagem de trem entre Porto Alegre e São Leopoldo, Ciro Gomes, pré-candidato à presidência pelo PDT, testa a popularidade e o discurso

Anderson Guerreiro
Aug 25, 2017 · 6 min read

Ciro se escorou em um pilar, já na plataforma da estação Mercado da Trensurb, para aguardar o trem. “Quem é este aí?”, indagou uma mulher ao ver uma aglomeração em volta daquele homem. Ele deu uma rápida olhada no celular até que um trem da nova frota, com destino à estação Sapucaia, estacionou para embarque. “Este trem não podemos pegar, não vai até São Leopoldo”, gritou um apoiador que o acompanhava. “Mas vamos neste porque tem ar, por causa do Ciro”, reivindicou outra militante. A temperatura beirava os 30 graus em Porto Alegre. Eles entram no último vagão.

O movimento era o normal para o final de tarde na estação Mercado, a mais movimentada de Porto Alegre, na quinta-feira (24). No meio de milhares de pessoas que usam o trem todos os dias, às 17h56 adentraram na estação pelo menos duas dezenas de militantes do PDT acompanhando seu pré-candidato à presidência da República: Ciro Gomes. Cumprindo uma série de compromissos na capital gaúcha, ele decidira usar o trem para se deslocar entre Porto Alegre e São Leopoldo. Essa viagem, de cerca de uma hora, era, por óbvio, imprevisível, como o próprio Ciro é.

Ciro Gomes, 59 anos, nasceu em Pindamonhangaba, no interior de São Paulo, mas foi no Ceará que ele e a família fizeram vida política. Ele tem viajado pelo Brasil, passando principalmente por universidades, para debater a conjuntura atual do país e, claro, se colocar como alternativa viável nas eleições de 2018 — segundo ele próprio, fugindo da polarização entre PT e PSDB.

Viável ou não, ele tem recebido reivindicações. Sua chegada na estação, mais cedo, foi logo interrompida por membros do Sindicato dos Metroviários, que lhe entregaram uma carta com demandas da categoria. Com um lenço, Ciro secava o suor que corria no rosto e deixava molhada a camisa azul-claro que usava com o terno escuro e a gravata cor de vinho.

Foto: Anderson Guerreiro/Beta Redação

Já com um cartão em mãos, Ciro passou a catraca do trem e se dirigiu à plataforma. Uma funcionária da Trensurb pediu uma foto. Foi gentilmente atendida. Pedetistas com bandeiras de bambu e adesivos com os dizeres “Fora Temer, Fora Sartori” se aglomeravam ao seu redor. Camisetas com “Brizola Vive” e a caricatura do fundador do PDT também eram comuns. Nenhum quadro de grande expressão estadual do PDT o acompanhava. Também não havia qualquer aparato de segurança visível.

Dentro do vagão, rapidamente Ciro Gomes se postou próximo a uma das portas e, de pé, agarrou-se em um dos ferros de apoio da composição. O lugar vago que havia em frente ficou para Manoel Dias, 79 anos, um antigo quadro do PDT e ex-ministro do Trabalho do governo Dilma. Militantes que faziam junto a viagem demonstravam uma grande preocupação com o bem-estar de Ciro em um trem lotado no horário de pico. “Quer tirar o casaco? Eu seguro”, disse a ele uma integrante da Juventude Socialista do PDT (JSPDT).

Ciro pouco falava. O semblante era de cansaço. Sua agenda fora extensa em Porto Alegre durante o dia, com entrevistas à imprensa, caminhada no Centro e ato no Teatro Dante Barone, na Assembleia Legislativa. Mais adiante ele contaria que naquela quinta acordara às 4h.

Ciro gosta de falar. Mais do que isso, de responder questionamentos, de ser instigado a mostrar que consegue expor tecnicamente sobre vários assuntos. Por cerca de 40 minutos, falamos sobre pontos como suas recentes — e fortes — críticas a Lula e ao PT. “Como é que nós podemos falar que foi golpe se o Lula tá lá confraternizando com o Renan Calheiros e apoiando o Eunício para a presidência do Senado? Ninguém, só porque é petista, tá autorizado a fazer merda à vontade e mandar a gente explicar.” Ele fazia referência à forte campanha contra o impeachment de Dilma Rousseff feita por ele e pelo PDT.

O deputado estadual Gilmar Sossella, do PDT, também fazia questionamentos a Ciro Gomes. Outras perguntas vinham de jovens que usavam adesivos da Juventude Socialista. Ciro não era interpelado pelas pessoas. Mas também parecia não fazer questão naquele momento. A interação ocorria mais à vontade com quem era sabidamente seu apoiador — bem diferente do Cirão da Massa, apelido que lhe dá uma página bem-humorada de apoio que tem quase 160 mil curtidas no Facebook. Sua viagem de trem, de Porto Alegre a São Leopoldo, mostrou que talvez ele não seja tão da massa assim. Ciro parecia um político sem apelo popular no trem. Poucos o olhavam. Os celulares e o sono pós-trabalho predominavam entre os passageiros.

A quem quisesse ouvir, Ciro Gomes afirmava conhecer bem a situação econômica do Rio Grande do Sul e que considerava ineficazes as medidas tomadas até aqui pelo governador José Ivo Sartori (PMDB). Criticou fortemente, inclusive, a extinção de fundações, aprovada em dezembro de 2016 pelos deputados estaduais. “É um erro brutal”, enfatizou. Sossella, que olhava com atenção, e outros deputados do PDT votaram a favor das extinções, entre elas da Fundação de Economia e Estatística (FEE), ressaltada por Ciro como extremamente importante para o desenvolvimento do Estado.

Foto: Anderson Guerreiro/Beta Redação

“Eu vou ganhar a eleição não porque eu sou bom de números ou de debate. Eu vou ganhar a eleição — e eu sinto isso hoje — porque o Brasil está procurando uma alternativa”, disse quando perguntado sobre sua facilidade em discursar, que poderia fazê-lo crescer nos debates. Ao mesmo tempo, quando fala de economia, números, cifras, dívidas e pagamentos, seu discurso se distancia do cidadão comum.

A biografia de Ciro Gomes é a arma mais usada por ele. Deputado estadual no Ceará aos 25 anos, prefeito de Fortaleza aos 31, governador do Estado aos 33 e ministro da Fazenda no final do governo Itamar Franco, aos 36. Ele se gaba de dizer que nunca respondeu a nenhum inquérito, “nem para ser inocentado”. Ao mesmo tempo em que prega uma forte renovação da política nacional e se coloca como uma terceira via possível, exalta os 38 anos de vida pública.

“Toma, te seca um pouco, mas vai ficar com cheiro de bebê”, disse uma militante pedetista ao lhe alcançar um lenço umedecido. O suor no rosto continuava, apesar do ar condicionado do trem.

Na estação Sapucaia, fez a baldeação necessária para que se chegasse à Unisinos, onde ele falaria no começo da noite. Nos três minutos de espera pelo outro trem — este, sem ar condicionado — , ele leu algumas manchetes no aplicativo de notícias do UOL em seu iPhone branco de capa preta. Uma rápida conversa com um estudante da universidade e dois pedidos de foto na estação de desembarque foram os maiores contatos de Ciro Gomes com os cidadãos durante a viagem.

Enquanto o trem se aproximava do desembarque, apoiadores se questionavam sobre a forma de levar Ciro da estação Unisinos até o campus da universidade. “Tem o ônibus, de graça”, lembrou alguém, referindo-se ao Circular, que faz o trajeto regularmente — e sempre lotado nesse horário. Seria mais uma oportunidade de Ciro se misturar ao povo, e quem sabe conseguir maior interação. Mas às 18h57, quando Ciro desceu do trem e subiu as escadas rolantes estragadas da estação Unisinos, um carro particular já o aguardava. A militância tomou o ônibus. Fim da viagem. E, a julgar por ela, Ciro Gomes talvez ainda não esteja tão próximo da massa quanto precisaria.

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Anderson Guerreiro

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journalist | porto alegre, rs

Beta Redação

A Beta Redação integra diferentes atividades acadêmicas do curso de Jornalismo da Unisinos em laboratórios práticos, divididos em cinco editorias. Sob a orientação de professores, os estudantes produzem e publicam aqui conteúdos jornalísticos de diversos gêneros.

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