Uma vida dedicada ao Internacional

José Segala, um dos líderes da Camisa 12, frequenta jogos do Colorado há mais de 50 anos

Cassiano Cardoso
Sep 4, 2018 · 8 min read
Apaixonado pelo Inter, Segala mora no bairro Mathias Velho, em Canoas (Foto: Cassiano Cardoso/Beta Redação)

Em meio às pisadas em poças d’água, ouvia-se gritos e um barulho de batidas. As rãs definitivamente estavam por ali também, devido aos coaxos audíveis ao redor da quadra de futsal. Porém, o tempo chuvoso não impedia os cerca de 30 meninos entre 9 e 14 anos de treinar sob a tutela de José Segala, 64. É numa área ocupada ainda nos anos 70, em Canoas, no bairro Mathias Velho, que ele comanda, desde 2004, uma das primeiras escolinhas do tradicional projeto Genoma Colorado, do Sport Club Internacional.

“O meu (time) mirim é demais. Estamos começando setembro e ainda não perdemos nenhum jogo este ano aqui na região”, aponta, com muito bom humor, contando que “puxa” muito os atletas nos treinos físicos. Na úmida quadra coberta, cedida pela prefeitura à comunidade, Segala é dono do apito e, a cada lance de um franzino jogador, brada com orgulho: “esse guri é muito bom de bola”. Segundo ele, o mirrado Wesley, 9, “joga com os maiores” e ainda assim consegue se destacar. “Tu tem que ver o que joga esse guri no campo. Muita classe”, exclama.

Geralmente, as atividades ocorrem num campo próximo, do Rio Pardo FC — time amador do bairro, popularmente conhecido como Campinho da Ponte Preta. Entretanto, quando o clima está ruim, os treinos ocorrem na quadra. Para participar do projeto, basta comparecer às aulas todos os sábados, a partir das 9h. “Tenho o contato de todos os pais e quem tira nota vermelha no boletim eu não libero para jogar. Pode se espernear, mas eu não deixo”, explica. Na medida em que as qualidades vão se desenvolvendo, vai treinando em outros horários e recebendo lugar no time.

Além da escolinha, Segala vive de Inter há 51 anos. O amor começou muito cedo. O primeiro jogo foi contra o Brasil de Pelotas, nos Eucaliptos, em 1967, numa vitória por 3 a 1. “Sempre fui muito pobre, filho de mãe solteira. Tinha seis irmãos . Ali, no estádio, criei uma relação forte com o clube e me apaixonei”, explica. Desde então, foram mais de 500 viagens acompanhando o time em suas maiores conquistas e derrotas.

No final dos anos 80, a paixão o levou à torcida organizada de Vicente Rao, histórico rei momo de Porto Alegre e fundador da torcida Camisa 12, onde é um dos líderes e mais conhecidos integrantes. “A torcida organizada dá oportunidade a quem não tem como ir aos jogos frequentar o Beira-Rio, sentindo o clube de perto. Nada disso se paga”, conta Segala. “Teve tempos em que a gente saía daqui de Canoas com aqueles bandeirões do Inter atravessados nos ônibus porque não tinha espaço do lado de dentro”.

Torcedor e jogador

Pelo clube amador Peñarol, disputou desde 1971 os campeonatos amadores de Canoas. Era um dos destaques do time, vencendo alguns clássicos “Pe-Pê” contra o Perquim, outro time conhecido na região. Mais de trinta anos depois, já aos 50, acabou fazendo o gol da vitória num clássico e quase morreu na comemoração.

José Segala jogou na várzea de Canoas (Foto: Cassiano Cardoso/Beta Redação)

“Bati a bola lá na gaveta. Do outro lado. Golaço, no último minuto. Os caras subiram em cima de mim e ninguém percebia que estavam me sufocando”, fala, aos risos. Após o quase assassinato em campo, Segala sentiu o peito arder e teve que ir ao hospital, onde descobriu que tinha problemas cardíacos. O primeiro infarto o afastou definitivamente dos gramados.

Não por muito tempo, na verdade. Há dois anos, Segala vem jogando pela equipe Master do Internacional, nos CTs do Parque Gigante. “O prestígio que tenho e minha história dentro do Inter fizeram com que conhecesse grandes feras. Que honra para um torcedor jogar junto com Iarley, Pinga, Bolívar, Ortiz, Vinícius, entre outros. Ao fim dos jogos, sempre rola uma conversa boa nos jantares que fazemos no bistrô do Parque Gigante”, conta Segala com o brilho nos olhos de quem divide espaço em campo com ídolos que viu jogar em 50 anos de Inter.

O pior jogo

“Uma das maiores derrotas para mim, na história, foi contra o Olímpia”, relembra. Era semifinal da Copa Libertadores de 1989. Primeiro jogo no Paraguai, 1 a 0 para o Inter. Gol marcado por Luis Fernando. “Ô meu. Nós viemos fazendo festa. Levamos 15 ônibus ao Defensores del Chaco, soltando foguete com todo mundo pendurado nas janelas e muita festa”, relembra com entusiasmo.

Porém, a partida de volta em Porto Alegre foi desastrosa. Com o Beira-Rio lotado, uma semana depois, o Internacional seguiu sua sina de não conseguir ser campeão da Libertadores, perdendo por 3 a 2 e, nos pênaltis, caindo por 5 a 3, em cobrança perdida por Leomir.

“Até hoje eu tenho aquilo engasgado de perder em casa com mais de 70 mil pessoas no estádio. Quando foi para os pênaltis, eu não consegui assistir mais. Eu sabia que Leomir iria errar. Ele nunca tinha acertado um pênalti na vida”, esbravejou.

Paixão demais faz mal

Imagine uma partida em que tudo acontece. Foi assim no clássico Inter e Corinthians, em 2010. Uma partida histórica entre dois clubes que se intitulam “do povo”. Já houve disputa de Campeonato Brasileiro, como em 1976 e 2005, e até de Copa do Brasil, em 2009. “Minha família sempre teve problemas de coração. E aquele infarto jogando na várzea indicava algo também”, lembra.

Naquele jogo, o Inter abriu o placar com Tinga. O Corinthians empatou e Alecsandro ampliou para o colorado. Aos 45 minutos, Nei impediu um gol do adversário com a mão e o juiz marcou pênalti. Bruno César converteu e deixou tudo igual. Porém, como todo o grande clássico nacional, Andrezinho, num golaço de falta, no último lance da partida, explodiu o Beira-Rio e o coração de Segala.

“Quando eu vi, estava na ambulância com um monte de gente na minha volta. Tinha mais gente preocupada comigo do que com o gol do Inter”, brinca.

As mãos de quem já se agarrou em muitos alambrados Brasil afora (Foto: Cassiano Cardoso/Beta Redação)

Azares fora de casa

O Inter precisava de apenas um empate contra o São Caetano, fora de casa, para ir à Libertadores da América. “Levamos mais de 10 ônibus para lá. Era nossa classificação à Libertadores depois de muito tempo”, exalta-se. Naquele jogo, o então diretor administrativo, Giovanni Luigi, o chamou para vender itens do clube na entrada do estádio. “Tinha chinelo, boné, chaveiro e garrafas térmicas. Vendemos de tudo naquele dia. Choveu gente”, afirma. O dinheiro entrou, mas o gol não saiu.

O Internacional perdeu por 5 a 0, deixando escapar a vaga para a Libertadores e sofrendo uma das maiores derrotas da história em campeonatos brasileiros para um clube com pouco mais de dez anos de história à época.

Rebobinando ainda mais a fita, Segala lembrou de 1996. A apenas uma vitória contra o rebaixado Bragantino fora de casa, com a Bragança Paulista lotada de colorados, para classificar à Libertadores, o Internacional caiu mais uma vez. Perdeu por 1 a 0. Mas, o pior estaria por vir no retorno. “Eu estava dando entrevista para o Reche e o meu pessoal da 12 me chamou, de repente. ‘O motorista perdeu todos os dedos’”, explanou. A porta abriu, trancou e, ao destravar, fechou com tudo na mão dele.

“Cheguei lá, os dedos estavam pretos dentro de um saquinho. Acharam que era assim para salvar, tinha que colocar no gelo aquilo. Aí eu enrolei uma camiseta na mão dele e fomos para o hospital. Fiquei com ele até se recuperar”.

Na escolinha

Ao redor da quadra, duas moças ajudam com os sanduíches e oferecem água para a gurizada. Ambas são mães de alunos de Segala. Mãe do Rafael e do Rodrigo, ambos com 10 anos, Márcia Gonçalves, 44, considera o trabalho dele importante para a comunidade. “Ele faz bastante treinamento. Puxa muito os guris. Tudo pelas crianças. Cobra eles na escola”, conta a mãe.

Com os alunos da escolinha (Foto: Cassiano Cardoso/Beta Redação)

“Faz dois anos que eles entraram. A gente tenta ajudar com um molho de cachorro-quente ou alguma outra coisa. O importante é apoiar”, diz. Para ela, o papel do Segala é importante socialmente para tirar as crianças da rua. “Muitos deles ali poderiam estar na esquina de casa se envolvendo com sabe-se-lá quem, né? Aqui eles praticam esporte e focam em alguma coisa que gostam”, destaca.

Ao fim de cada treinamento, Segala elege o melhor entre todos e dá um troféu, que na semana seguinte é repassado para outro aluno. Saindo de quadra, só ouvia-se “como eu fui, Segala?”, “que nota tirei hoje?”. Mesmo com o melhor em quadra, Segala é exigente.

No QG

Após conquistar o mundo com Fernandão, a América com D’Alessandro e o Brasil inteiro com Falcão, é para uma pequena casa de fundos que ele descansa após as noites cansativas de vitórias, empates e derrotas. Com apenas três peças (sala/cozinha, quarto, banheiro) cheia de porta-retratos e fotos com figuras importantes historicamente para o Internacional, é ali que encontra sua paz acompanhando de seus dois cães, o Véio e o Lula. Este segundo não em homenagem ao histórico ponta-esquerda colorado, mas sim ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Não demorou no quarto para buscar a caixa com centenas de fotos dos anos 70, 80, 90 e 2000. Pela Camisa 12, pelo Inter. Por tudo. Uma faixa enorme “Se jogasses no céu, eu morreria pra te ver” foi trazida para a rua. Esta tem outra história. “Um amigo meu, Cláudio Novais, fez a faixa. Eu acabei não podendo ir ao jogo contra o Junior Barranquilla e ele levou a faixa para Colômbia pela primeira vez. Foi o maior sucesso”, lembra.

Segala tem um amplo acervo de fotos históricas guardadas em casa. Foto: Cassiano Cardoso/Beta Redação

Unidos pelo Inter

Existem amizades que o esporte une. Existem amizades que o esporte desfaz. No caso de José Segala e o corretor de imóveis Claudio Novais, 52, o Inter foi o elo que os uniu e nunca mais se desfez. “É praticamente um irmão que eu tenho. Nos conhecemos naquela mesma Copa Sulamericana e, de lá pra cá, viramos grandes amigos. Estamos sempre juntos nos jogos”, detalha o corretor.

“Em dia de jogo, no mínimo seis horas antes ele já está no Beira-Rio. Fica nervoso. Ele não pode se estressar desse jeito”, aponta Novais.

“A vida dele toda é baseada no Inter. Já vi ele terminar namoros por causa do Inter. Já vi momentos importantes não serem tão importantes. Tudo gira em torno do Internacional. E ele gosta disso. Do que ele sente”, completa o amigo.

Beta Redação

A Beta Redação integra diferentes atividades acadêmicas do curso de Jornalismo da Unisinos em laboratórios práticos, divididos em cinco editorias. Sob a orientação de professores, os estudantes produzem e publicam aqui conteúdos jornalísticos de diversos gêneros.

Cassiano Cardoso

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Beta Redação

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