A minha faculdade federal tem um excelente currículo médico, permitam a modéstia. Logo no primeiro ano de curso, quando ainda não sabemos nos apresentar para os pacientes direito e muito menos de Medicina, nós somos reunidos com os outros cursos da Universidade, fazemos um grupo de 6 ou 7 alunos, multidisciplinar, e nos vinculamos a uma UBS (Unidade Básica de Saúde). Esta é a nossa disciplina do PET saúde, em que temos 6 meses para elaborarmos um projeto junto a UBS para intervenção em saúde pública. Nunca vou me esquecer do meu projeto. Era um posto considerado perfeito e não tinha nada que inventar. Era bonito, paredes pintadas. Tinha grupos de apoio a obesidade, hipertensão, grávidas, crianças, tudo. Tinha dentista, fono, médico, até pediatra. Mas sabe o que não tinha? Participação da comunidade.

Nossa intervenção foi justamente essa: fazer com que a comunidade se importasse com o posto. Um dos principais motivos pelos quais as pessoas não iam a esse posto é porque existe um grande hospital exatamente do lado dele. Então ao invés de procurar o PSF (programa de saúde da família) e vincularem suas famílias em novas fichas, as pessoas que moram na região preferiam baixar logo na Emergência. Por que? Não sei. É mais prático. Dá impressão que o hospital atende mais rápido, eu acho. E não é da cultura do brasileiro, principalmente de classes mais altas, ir ao posto. Postinho, super pejorativo. Frequentemente (e quem já atendeu em emergência sabe disso), o que menos tem em emergência é emergência, então isso não escoa os pacientes.

Enfim, fizemos territorialização, conhecemos as áreas de risco, fizemos panfletos explicando o que era o posto de saúde, fomos atrás dos responsáveis do Conselho de Saúde da Comunidade (moradores do bairro mesmo), nos reunimos pra discutir as dificuldades do posto em atrair pacientes e evitar uma mudança para outra casa em outro lote. Até chegou a funcionar na época e rolou uma reunião com… 13 pessoas (representando 7 mil do território), mas como nos desvinculamos deste posto, eu não sei dizer se a longo prazo a situação mudou.

As UBSs funcionam mais ou menos assim. Geralmente se montam em uma casa de muitos cômodos (alugada ou comprada pelo município). Eles ambientam uns quartos como consultórios, um quartinho para enfermaria para pequenos procedimentos, e os corredores guardam umas cadeiras e a recepção. Em um lugar especial, ficam guardados os prontuários da família marcados por números, que reúnem as fichas de atendimento de todos os membros de uma família, e são geralmente umas pastinhas feitas a mão. É extramente raro ver um computador em uma UBS, e mais ainda pensar em prontuários digitalizados. Então é tudo muito caseiro, quase artesanal.

Então em meio a dificuldade de estruturar um espaço físico para atender os pacientes, quando eventualmente temos um lugar ideal, não temos adesão da população. Isso é obviamente um resultado da baixa educação da população e de como elas devem usar o Sistema de Saúde.

Depois dessa primeira matéria no primeiro ano, nós voltamos para o posto de saúde durante o 2o ano (Disciplina de Medicina de Família e Comunidade), no 3o temos professores fortíssimos na área de Medicina Comunitária e Epidemiologia, no 4o ano voltamos aos postos na disciplina de Pediatria II, e durante o internato nós voltamos e trabalhamos durante 3 meses em período integral em uma UBS.

Vale ressaltar que é no 2o ano, com a disciplina de Semiologia (Propedêutica Médica) que entramos de verdade no SUS, e assim seguimos atendendo em ambulatórios pelos próximos 4 anos. Os últimos 2 anos de nosso curso são de trabalho integral, de média de 60 horas semanais, que cumprimos 4.048 horas de SUS. Podem conferir aqui. Então, salvo as pequenas diferenças de faculdades pra faculdades, é necessário que o público leigo sabe que a gente já trabalha no SUS durante os 6 anos, e que Medicina de Família e Comunidade é uma das 5 grandes áreas da Medicina (junto com Gineco/Obstetrícia, Cirurgia, Clínica Médica e Pediatria). Merece respeito. Mais respeito do que o governo está fazendo com ela agora.

Enfim, vamos ao que interessa

Medicina não se faz com um estetoscópio no pescoço e uma prateleira de remédios de amostra grátis. Não é pajelança, infelizmente. E não estou falando só da Medicina pomposa e avançada que precisa de ecografia pra fechar diagnóstico, ou tomografia depois de um acidente de carro ou trauma. Estou falando do simples acompanhamento de puericultura na pediatria (que tem que ser feita onde tenha uma rede de vacinação boa, pediatras, leitos infantis, equipamentos de ventilação, acesso pediátrico e até mesmo fraldas!), de uma reanimação cardiopulmonar (que se faz com desfibrilador e medicação), de um infarto agudo do miocárdio (que se faz com medicação, leito intensivo, e se tivermos sorte, uma hemodinâmica), de verminose (que se faz com remédio e exame de sangue), de edema agudo de pulmão (remédio, entubação, ventilação ,leito avançado). Verminose sem exame de sangue você até trata, mas anemia não tão bem já que pode ter causas diferentes. Isso sem contar a equipe multidisciplinar, mas o programa não chama eles. Chama só médicos.

Isso é uma declaração de que o médico brasileiro não está preparado em sua formação para fazer diagnósticos e tratar doenças sem exames complementares e sem remédios? Algo mais ou menos nos padrões da Medicina de guerra, feita em Darfur ou estados de guerra civil da África? Não. Estamos preparados sim, podemos arriscar, podemos ir as cegas e sem confirmação. Mas não precisa ser assim. O governo tem meios de evitar que essa Medicina seja feita assim.

Um profissional que não se sujeita a fazer sua profissão de maneira medíocre é um mau profissional?

Onde está a consciência coletiva de vocês de que não precisamos ser a Zâmbia? Nós somos um país de imensa extensão que realmente seria beneficiado por um programa de Médicos Sem Fronteiras, porque qualquer ajuda é bem vinda, que é justamente o que as pessoas argumentam. Mas somos também um país riquíssimo, dita a 6a economia mundial e a presidenta chamou no peito até uma Copa aqui. Precisamos ter saúde feita nas coxas? Não. Precisamos de uma reforma na saúde.

O médico brasileiro não quer se sujeitar a isso porque a solução para a saúde não é essa. Não adianta focar o ódio da ineficiência em uma classe. Existem maneiras melhores (para os dois lados, nós e população) de resolverem as coisas e nossa maior pergunta é: por que não fazer o certo? Por que se agarrar a medidas emergenciais? Medidas ruins, que vão piorar a situação.

Existem jeitos melhores de propor o que o governo quer fazer, mas isso seria uma grande reforma na saúde do Brasil. Então, como isso é difícil demais, acho que eles optaram por algo preguiçoso e ineficaz.

As UBSs por onde passei estão longe de ser o retrato da maioria das UBSs em áreas críticas, pois eram muito boas. Conheci 4, ainda preciso trabalhar em mais 1, que espero ser tão boa quanto as outras. Algumas tinham até horário de consulta sobrando, tamanha eficiência. Entretanto, sei que fora da região metropolitana de Porto Alegre vamos encontrar situações muito piores. Então existe um jeito de garantir que cada UBS seja bem construída e perfeitamente equipada? Não, não tem, até porque na vida real temos saques, vandalismo, esgotamento de recursos. Mas é obrigação do governo (municipal pelo menos né gente) que o Posto tenha saneamento e condições mínimas de promover saúde, porque afinal, é isso que queremos vender ali.

A saída ideal é injetar dinheiro na saúde. Mas é na saúde e não nos bolsos dos intermediários. Infelizmente também existe corrupção na saúde, e o dinheiro que sai do governo Federal não chega todo no Municipal. Melhores gestores e fiscalização de como estão os postos no interior. Melhorar o transporte de pacientes do interior para os grandes centros (vai precisar!). Desentupir as emergências. Aumentar os leitos do SUS. Educar o público a utilizar o fluxo correto do Sistema e onde procurar atendimento correto. Construir salas chumbadas para equipamentos. Investir no SAMU. E por aí vai… São muitos níveis. Para os médicos, a solução não é inflar o mercado ou aumentar vagas de formação, mas estímulo por carreira de estado, leis trabalhistas e segurança de trabalho.


O que vai acontecer com os médicos no interior é algo previsível.

Frustrado com as condições trabalhistas (sem CLT, sem vínculo empregatício responsável com o município, sem direito de licença-maternidade caso seja uma médica) e de trabalho (sem equipamentos, sem ter como tratar e sendo imerso numa comunidade que não antes conhecia) é possível que um médico, generalista, sem especialização e experiência de trabalho, seja onerado como gestor de saúde e responsável pela comunidade aos seus maus 30 anos de idade. A comunidade tem demandas de saúde que serão personificadas na figura do médico, e cobradas. A comunidade tem seu funcionamento de leis, questões de segurança (já ouvimos muitas vezes —põe o jaleco pra que eles saibam— ou —tira o jaleco porque aqui nao gostam muito de nós—) que vão ser canalizadas para uma só pessoa. São problemas públicos, que deveriam ser consertados por investimento em todos os lados pelo governo. É uma anedota do descaso e da falsa-responsabilidade que pretendem jogar em cima de nós.

Caso consiga se manter atendendo, vão dar conta de situações simples, mas virar máquinas de encaminhar pacientes para algum lugar que tenha condições de tratá-los. Isso significa que um paciente que se consulta lá no interior do Maranhão, vai ser encaminhado para sua secretaria de saúde encontrar um especialista em determinada queixa, e aí ele vai ter que pro hospital num centro mais bem equipado. É claro que esse programa do governo só prevê o aumento de médicos, e não aumento de leitos no SUS, investimento ou etc. Então como o hospital terá o mesmo número de leitos que tem agora, a fila vai aumentar. Hoje em dia, uma ressonância tem espera de 1 ano (e é só um exame). Consultas na ortopedia beiram 1 ano. Já ouvi que a oftalmo tem a lista de espera de 3 anos. Adianta aumentar o número de especialistas? Não, porque não tem leito.

Se for paciente de emergência e precisar ser transferido, reze por uma ambulância no lugar. A cidade também não pode ser muito grande porque caso aquele paciente morra na sua mão (porque faltou recurso para salvá-lo) ser alguém muito importante, acabou sua reputação, respeito e qualquer sombra de relação médico-paciente que você sonharia ter na cidade.

Se a situação do SUS já é complicada próxima de grandes centros, imagina em áreas remotas. Em todo caso, o programa também não se pergunta se o médico tem suas ambições. Dá impressão de que todos querem carreira de generalista e de medicina de família, e por mais que isso seja ideal para o governo, nos fere a liberdade. Como fica a perspectiva de crescimento de carreira de um cirurgião (e áreas cirúrgicas são: cirurgia digestiva, pediátrica, urologia, ortopedia, plástica, etc), um anestesiologista ou qualquer outra especialidade que exija um pouco mais de estrutura, num lugar assim? Estamos, de alguma maneira, superlativando uma área em detrimento de outras?

Enfim, não consigo fazer textos curtos, e é uma pena que ninguém os leia o quanto julgo necessário, hahaha.

Caso esse programa seja levado para frente, espero que seja melhor estudado. Talvez o Ministro Alexandre Padilha, que adora se basear no NHS pra tudo que aplica no Brasil, tenha que desviar o olhar e aglutinar alguns ensinamentos e valores do Médicos sem Fronteiras mesmo. Inseridos nas condições mais difíceis e inimagináveis de se exercer, ao invés de sucatearem a classe médica e atraírem seus profissionais para emboscadas sociais, o programa se ocupa em humanizá-los de maneira correta, enaltecendo e recompensando suas escolhas como profissionais e dando espaço para quem trabalha bem.