O ET do Abismo

Mih Lestrange
Nov 3 · 6 min read

Já tem umas duas publicações que eu cito essa história sem realmente dizer nada do que aconteceu pra que esse icônico personagem surgisse em minha então recém começada vida no mundo do RPG, tantos anos atrás.

Antes que você prossiga a leitura, cabe um aviso importante: não é segredo para ninguém que, quando se está jogando uma campanha, indiferente de qual ela seja, algumas situações e eventualidades acontecem, levando todos os jogadores a crises de risos histéricos. Ocorre, no entando, que nem todas essas situações são passíveis de serem reproduzidas, o que basicamente quer dizer que elas só tem graça na hora e para quem estava presente durante o evento. O que é uma pena, mas acontece.

A história do ET do Absimo é exatamente desse tipo, ainda mais levando-se em conta que veio a surgir de uma aventura feita por adolescentes de 12–13 anos que ainda davam risadinhas quando a palavra “peitos” — ou algum equivalente de cunho fisiológico pouco explocado por crianças — era dita em uma conversa. Então peço desculpas adiantadas para o caso de essa história não parecer divertida pra você, mas eu escolhi contar porque foi a primeira vez que me senti à vontade pra falar besteiras a torto e a direito em um grupo sem ser julgada como esquisita.

Então aqui vai.

Um tópico recorrente nas minhas publicações é a nostalgia de se utilizar Orkut, MSN, internet discada e afins. Por evidente não era a maneira mais prática de comunicação e estava muito longe de se tornar a insanidade digital em que vivemos hoje, mas é inegável que para nós, à época, era fantástico. Ligar o computador e ver o mundo se abrindo ao nosso redor era uma sensação muito boa, e quando fazíamos nossos primeiros amigos virtuais em outras cidades — apesar de mamãe nos alertar e não conversar com estranhos — era ainda melhor.

Foi em uma das comunidades fakes de Orkut das quais eu participava — tópico que já abordei em outra publicação — que acabei me envolvendo com um grupo de pessoas que jogava RPG via MSN. Vou ser muito sincera e dizer que realmente não me lembro se o menino que mestrava as sessões se embasava em algum sistema oficial de RPG, não tenho a mais vaga memória dessa informação. Mas o nosso sistema funcionava da seguinte forma: cada participante elaborava o seu personagem e enviava a descrição como mensagem pro resto do grupo poder saber de quem se tratava, a elaboração era um misto de descrições físicas/psicológicas com um pequeno resumo da raça e habilidades/armas que o dito personagem possuía.

Não acho que preciso descrever a zona de personagens que era aquela aventura, mas vou me prestar ao trabalho mesmo assim: tinhamos um bárbaro, uma mulher gato (literamente falando, era uma raça humanóide mesclada com felinos), um anjo e uma chuva de elfos — O Senhor dos Anéis estava no auge, não preciso explicar a influência de Legolas sobre nossas mentes jovens e influenciáveis.

De qualquer forma, a maneira como conduzíamos as sessões se resumia ao mestre nos colocando em uma situação de início e nos deixando à vontade para fazer todo o tipo de loucuras que quisessemos, interferindo apenas quando achava relevante pro curso da história. Não tinhamos roladores de dados virtuais na época, por evidente, e rolar individualmente em casa seria no mínimo pouco eficaz, então todas as batalhas transcorriam com muita empolgação e golpes mirabolantes, até que o mestre eventualmente dizia que os monstros estavam derrotados.

As ações eram declaradas à forma clássica, entre asteriscos (*pisca para o leitor*) e qualquer conversa fora do personagem era deixada em itálico e entre parênteses. Até que a gente era organizado, não é mesmo?

Foi durante uma aventura particularmente animada, onde, se não me engano, estavamos perseguindo bandidos, que nos deparamos com um precipício. Os bandidos estavam encurralados, não havia para onde correr e estavam cercados. O combate era iminente. Ou assim pensamos.

Qual não foi a nossa surpresa quando, todos ao mesmo tempo, os bandidos não cessaram a corrida em direção ao penhasco. Era de se esperar que, ao constatarem o final do caminho, diminuíssem o ritmo ou ao menos considerassem uma estratégia de combate. Mas não, eles aceleraram. E pularam.

O choque da mesa foi geral. Ninguém sabia o que fazer ou como reagir. Quer dizer, até não termos o combate esperado tudo bem, menos trabalho em nossas mãos. Mas o problema consistia no fato de que os bandidos em questão haviam acabado de saltar de um penhasco com todo o dinheiro e os itens de que precisavamos pra continuar a nossa aventura.

Para a nossa sorte, tinhamos um anjo na equipe, e após alguma deliberação, decidimos que o mais seguro seria enviar o dito cujo abismo abaixo para saber qual tinha sido o fim do nosso loot. Não, ninguém se preocupou com os bandidos. O anjo desceu e o resto de nós o observou desaparecer, não me lembro se existia uma névoa ou nuvens no caminho, mas o que importa é que era impossível para nós enxergar a partir de um certo ponto, então o perdemos de vista.

Houve mais do que um breve suspense por parte do mestre, que seguramente não tinha a menor ideia do que fazer conosco ou com aquela situação, e que seguramente havia se precipitado em dizer que os bandidos haviam saltado do penhasco com todas as nossas coisas. O desfecho foi que, após alguma espera, nosso anjo não retornou, todos ficamos tensos, e o mestre declarou que começamos a escutar um ruído leve, ninguém conseguia identificar qual era o tipo do ruído, mas sabíamos que vinha do abismo, e estava subindo.

Todos nos preparamos para o combate, sacamos armas e nos posicionamos, afinal não tínhamos a menor ideia do que sairia de lá. O que apareceu foi um disco voador, ao melhor estilo Arquivo X, prateado e com luzes brilhantes, que apareceu girando lentamente. Em cima dele, verde com dois grandes olhos esbugalhados estava um extraterrestre. Contemplamos a cena esperando que ele nos dissesse algo, nos ameaçasse, pedisse ajuda, qualquer coisa.

Foi quando alguém notou a figura sentada atrás do ET. Tratava-se do nosso anjo, que não somente não estava em situação de perigo, capturado nem morto, como estava pleno e concentrado em comer um pedaço de bolo.

E a frase que saiu do ET do abismo para nossa party foi:

— Tem chocolate e morango, qual vocês preferem?

A histeria foi geral. Ninguém conseguiu manter o personagem. Todos nós riamos com vontade. Eu ria tão alto que minha avó, na época, foi até a sala do computador pra saber se estava tudo bem comigo. Eu tentei explicar a ela que havia acabado de conhecer o ET do abismo e que ele tinha me oferecido bolo, mas por algum motivo que não consigo compreender aquilo não fez muito sentido pra ela.

Aquela aventura acabou ali, por evidente, uma vez que ninguém tinha mais condições de levar nada sobre aquela história em frente. Mas encerramos a situação convidando o ET para um chá. Ele parecia confiável, afinal de contas.

Eu gosto de histórias assim por uma razão simples: elas me lembram o porque eu gosto de jogar RPG. Porque indiferente de quem mestre ou do sistema ou do que quer que seja, a melhor coisa sempre são as pessoas com quem nos envolvemos pra jogar. Como cada um contribui de uma forma pra que cada aventura seja diferente da anterior. E a melhor parte, ao menos na minha opinião, é sempre a loucura alheia.

Adoro não saber exatamente o que esperar dos personagens que os malucos dos meus amigos colocam pra jogar. Adoro observar o personagem da ficha e posteriormente comparar com o comportamento do mesmo personagem durante a aventura. Como um certo anão que nos convenceu que tinha origens nobres e requintadas, mas esfregou um sapo morto na própria barba eletrocutada.

Mas isso é uma história pra outra vez.

Biblioteca das Ancestrais

grupo de RPG focado em trazer mulheres para as mesas

Mih Lestrange

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📚 Cheiradora de livros •🖋 Histórias bizarras e contos estranhos • 🌙 Barda na Noite • Bibliotecária com as Ancestrais •

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