Biblioteconomia em tempos de robotização

capítulo 3: Moreno Barros

moreno
· 8 min read

Eu gostaria de propor uma síntese da substituição dos bibliotecários por inteligência artificial da seguinte forma: considerando que já contamos com uma base de organização e classificação estabelecida ao longo de anos, em grande parte graças aos próprios bibliotecários, e do constante acúmulo de dados nascidos digitais ou convertidos em digitais, robôs já fazem o trabalho de recuperação e contextualização de modo semelhante e farão melhor do que nós no futuro.

Antes de ficarem consternados ao descobrir que grande parte de nossas funções supostamente indispensáveis pode ser terceirizada ou substituída por robôs é preciso ter clareza sobre o que um bibliotecário realmente faz e aquilo que um robô é capaz de fazer. Estou partindo de um direcionamento bastante específico sobre as funções executadas por bibliotecários, mas é eminente o declínio de uma profissão que se justifica perante a sociedade e demais profissões majoritariamente como responsável pela organização dos registros do conhecimento para fins de recuperação.

Definindo a atividade técnica do bibliotecário

Que problema fez a biblioteconomia surgir? O que ela pretendia resolver? Qual problema os bibliotecários resolvem nos dias de hoje? A organização de tabletes de argila que representavam transações comerciais evoluiu para a garantia de acesso à informação e promoção da cultura e inteligência como uma ação generalizada. Mas a premissa da biblioteconomia clássica é organização dos registros do conhecimento para fins de recuperação. Este é o problema elementar que resolvemos no mundo e o que nos difere de todos os demais profissionais.

Demais funções impostas aos bibliotecários são conciliações com as sociedades civilizadas. Atividades secundárias são boas e úteis, e concedem às bibliotecas um papel mais amplo na sociedade, mas tornam difícil, senão impossível, para os bibliotecários trabalhar como bibliotecários: compilar catálogos, dominar área do conhecimento e da cultura, verificar que as coleções permaneçam coerentes, ajudar os leitores a encontrar as leituras que desejam e necessitam. Uma nova definição do papel dos bibliotecários poderia ser elaborada por meio da diversificação das suas linhas de atuação, mas tal reestruturação deverá também garantir que o objetivo principal dos bibliotecários não seja esquecido: orientar leitores a seus livros.

A técnica biblioteconômica, stricto sensu, não trata de gestão de inteligências, de conectar pessoas a pessoas, leitores a autores, mas conectar pessoas a livros, simplesmente. Trata-se de um conjunto de técnicas que serve ao implemento de áreas da inteligência humana. Nossa expectativa é obviamente a da sublimação da leitura, mas o ferramental aplicado é apenas parte elementar do processo. Os bibliotecários não podem responder pela cadeia cognitiva, de intenções individuais, de bagagem cultural, em sua totalidade, para cada um dos usuários das bibliotecas.

Bibliotecários coletam livros e outros materiais com a intenção de ajudar as pessoas a encontrá-los, normalmente em um único lugar, a biblioteca. Nós preservamos conteúdos para que sejam recuperáveis de maneira rápida e organizada, até mesmo mui- tos anos depois. A maneira mais simples de explicar a um leigo o trabalho do bibliotecário é fazê-lo entender que cada um de nós possui um sistema de categorização para nossas roupas no armário (por tipo, cor, tamanho, etc., similar a um catálogo da biblioteca tradicional categorizado por autor, título, assunto). Este sistema pode ser simples e rudimentar, exceto quando o número de roupas é grande o bastante para que apenas um nível de categorização não seja suficiente para encontrar determinada peça: pode ser penoso encontrar uma blusa amarela específica se você possui centenas de blusas amarelas. Além disso, como objetos no mundo físico não podem ocupar dois espaços simultaneamente, permanecemos presos à categorização única. A não ser, claro, quando utilizamos remissivas ou possuímos cópias idênticas do mesmo objeto. Ou seja, o bibliotecário é o profissional que possui o ferramental necessário para organizar itens de modo que possam ser encontrados, atribuindo o objeto adequado a cada tipo de busca específica.

A nova desordem digital

Esse modelo perde funcionalidade a partir do momento em que os registros do conhecimento são convertidos para formato digital. A mesma analogia das roupas no armário pode ser inteira- mente reconfigurada quando o valor e o esforço de replicação de objetos digitais tendem a zero, e dessa forma o organizador pode atribuir quantas categorias ou remissivas forem necessárias. Na verdade, se qualquer tipo de categorização é possível e desejável, porque amplia o potencial de recuperação, então ter somente um único categorizador (seja ele o bibliotecário propriamente ou uma determinada representação temática) não faz mais sentido.

A biblioteconomia moderna se preocupou em resolver o problema da recuperação de informação em nível avançado, através de metadados, taxonomias e vocabulários controlados. Mas no mundo digital os registros do conhecimento podem ser recuperados de outras formas que independem de uma organização prévia ou convencional. A transição de um modelo de organização centrado em registros físicos para um modelo baseado em registros digitais, junto da consolidação do Google, nos levou a acreditar que o problema da recuperação estava finalmente resolvido. Obviamente este problema não está resolvido, mas a ideia de um pequeno grupo de autoridades em representações descritivas e temáticas competindo com um algoritmo incrementável é desoladora.

Impacto da inteligência artificial na atividade bibliotecária

Uma boa maneira de compreender a inteligência incrementável ou cumulativa é percebendo que um humano não precisa portar um crachá para que outra pessoa seja capaz de identificá-lo em um segundo ou terceiro encontro. Requer acúmulo de informações e treinamento, mas o algoritmo vai gradualmente se aprimorando até atingir o grau de inteligência que não exige mais classificações explícitas. Um exemplo seria a atividade elementar de atribuição de descritores e classificação realizada por bibliotecários sendo substituída por um sistema de inteligência artificial que realiza a varredura completa de caracteres em um novo livro, e em sequência, atribui descrição e tema usando como parâmetro todos os livros previamente indexados (por humanos ou não) que possuem sequências de caracteres semelhantes. Além disso, a inteligência artificial (IA) agrega informações de uso do item (user experience) e categorias designadas pelos usuários (e não necessariamente por bibliotecários), como os sistemas de folksonomia e crowdsourcing.

Para chegarmos ao nível de recuperação da informação plenamente artificial serão necessários anos de investimento em metadados e mais outros tantos de adequação de algoritmos para oferecer melhores resultados de busca. Hoje os robôs estão propensos a resolver alguns problemas sozinhos, com base no acúmulo de informações coletadas a priori, junto de outro volume de informação identificável a posteriori. Isso ocorre a partir de buscas/atividades/intervenções realizadas pelos usuários do sistema.

Esta dinâmica se aplica aos algoritmos mais comumente utilizados que cumprem funções de recuperação e contextualização, usando como base o volume de informações oferecido pelos próprios usuários do sistema (input), recombinando e acumulando caracteres e descritores, até que sejam capazes de tomar decisões e gerar respostas (output). Tal como funciona a busca do Google, o feed de notícias do Facebook, recomendações de compra no Amazon, sugestões de pares no Tinder, e que torna obsoleta a maioria das transações de referência (simplificadas, porém majoritárias) entre usuário e bibliotecário.

Robotização elimina necessidade de bibliotecários

O que os bibliotecários fazem hoje, tecnicamente? Em essência descrevem (catalogam) e categorizam (classificam). É preciso ter em mente que esta é a função técnica que difere o profissional diplomado de outros tipos de profissionais. Funções técnicas que envolvem noções de administração, computação, marketing, gestão de pessoas, psicologia, recreação, terapia ocupacional, entre outras, são desejáveis para os bibliotecários, mas não são habilitações exclusivas de nossa classe nem respondem diretamente ao problema elementar que a biblioteconomia resolve para o mundo (organização dos registros do conhecimento para fins de recuperação. Em suma, catalogar e classificar).

Mas a descrição em um documento nascido digital já é evidente, todas as informações estão implícitas em seus metadados, e qual- quer processo de varredura de caracteres é capaz de reconhecer o conteúdo. Os sistemas de classificação decimal e a consequente posição de um determinado livro na estante podem ser emu- lados por um sistema artificial, reduzindo a zero a necessidade de organização e presença física. Projetos avançados de bibliotecas virtuais oferecem um tipo de navegação visual que exibe imagens em alta resolução dos livros como eles apareceriam nas prateleiras da biblioteca real. É o caso do Stack Life, sistema de navegação visual das bibliotecas de Harvard, e da estante virtual da universidade de Virgínia, que exibe imagens dos livros como eles teriam aparecido nas prateleiras em 1828 e usa informação bibliográfica do catálogo original da biblioteca de direito, para permitir pesquisa sobre a coleção dos livros históricos.

A função de recuperação, executada por algoritmos incrementáveis, é acompanhada de sistemas robóticos que operam no mundo físico, auxiliando os procedimentos de guarda e reposição de livros nas estantes. Bibliotecas de grande porte ao redor do mundo já fazem uso extensivo de máquinas que separam livros para serem transportados de um ponto a outro através de esteiras ou empilhadeiras. Os sistemas de logística robótica Kiva, adotados pela Amazon, bem como suas entregas domiciliares por meio de drones, servem de inspiração para serviços oferecidos pelas bibliotecas no futuro, sem a necessidade de força humana.

Outro exemplo de robotização substituindo o trabalho do bibliotecário é a possibilidade de descobrir informações sobre uma determinada imagem digital sem dispor de outra informação além da própria imagem. Digamos que eu tenha visitado um museu e gostei de um quadro, ou tenha visto uma imagem na internet, mas não tenha quaisquer informações sobre ela. Como descobrir o título da pintura, o autor, a data, o tema retratado? É possível descobrir utilizando o Google Images. Todo o procedimento é realizado artificialmente, sem qualquer necessidade de interpretação semântica ou de indexação, apenas aplicando técnicas matemáticas como distância euclidiana e detecção de pontos salientes no objeto, comparando no vasto banco de dados imagens entre si.

Entre muitos outros, este exemplos oferecem um mapa das aplicações de inteligência artificial em bibliotecas. Alguns em uso, outros em vias de implantação. A evolução permanente da robótica e da inteligência artificial leva a crer que continuará a melhorar e se sofisticar no futuro, causando impacto significativo nas nossas atividades de trabalho.

Em termos de inteligência artificial substituindo a função técnica do bibliotecário, o único problema seria a classificação de conteúdo em um estágio inicial. Um novo livro, sobre um novo tema precisa ser interpretado corretamente pela inteligência artificial a fim de que possa ser categorizado. Mas a partir de uma base mínima de conhecimento cumulativo, e creio já termos superado esse estágio justamente em função do acúmulo de materiais em bibliotecas ao longo dos anos, o sistema de ia pode reconhecer do que trata o material fazendo a varredura dos caracteres e associando o conteúdo com materiais similares e padrões de uso. Exatamente como o Google faz com o reconhecimento de imagens.

Ou seja, uma vez que todos os novos materiais se tornem digitais, ou simplesmente sejam born-digital, o bibliotecário se torna dispensável. Enquanto toda a área computacional está preocupa- da apenas em modelos organizacionais a posteriori, com base no input de usuários, a biblioteconomia permaneceu trancada nos modelo a priori, com base na inteligência dos bibliotecários. Ainda é importante para pequenas coisas, mas está na contramão da realidade pragmática do mundo moderno.
Eu continuo achando que a nossa maior contribuição ao mundo é cada vez mais converter as coleções físicas para o digital e deixar que os profissionais da computação façam o restante do trabalho. Nós somos os melhores profissionais em armazenar e salvaguardar a herança cultural humana, e eles vêm fazendo melhor trabalho do que nós em termos de recuperação, disseminação e contextualização, do que nós fomos capazes de fazer sozinhos em anos recentes. Ainda teremos algumas boas décadas para coletar, organizar, definir os metadados elementares, de todos os materiais textuais, visuais e outras mídias que ainda existem fisicamente, e jogá-las na internet para que todos os de- mais profissionais façam melhor sentido desses objetos. Essa é uma excelente responsabilidade bibliotecária adequada ao mundo atual.

Fazer exercício de futurologia é necessário, porque do contrário estaremos sempre correndo atrás do tempo perdido.

Este livro foi publicado em 2016, exclusivamente em formato eletrônico pdf. Edição, projeto gráfico e revisão: Briquet de Lemos Livros.

isbn 978–85–85637–61–3

O futuro da biblioteconomia — livro

Seis ensaios sobre o futuro das bibliotecas, bibliotecários e sua profissão. Originalmente publicado por Briquet de Lemos.

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O futuro da biblioteconomia — livro

Seis ensaios sobre o futuro das bibliotecas, bibliotecários e sua profissão. Originalmente publicado por Briquet de Lemos.

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