A trivialização da morte e um breve ensaio sobre suas implicações

Certas questões inerentes ao ser humano são culturalmente tratadas como tabu. A morte é, sem dúvidas, uma delas. A grande maioria de nós não gosta de pensar ou falar sobre. E não refletir ou discorrer a respeito, naturalmente, não adia esse acontecimento, muito menos as suas consequências. Na verdade, num certo sentido, trivializar a morte é trivializar a vida.

Se ligarmos a TV, em um horário coincidente com o ocupado por noticiários ou simplesmente acessarmos as nossas redes sociais, não será necessário desprender muito esforço para notar como boa parte de nós vem perdendo a sua sensibilidade com relação a crueldade. Comemos enquanto ouvimos sobre mais alguém que perdeu a vida em meio a motivos considerados justos pelo agressor. E soa comum ou quem sabe até confortável para alguns, afinal, “antes ele do que eu”.

É claro que há inúmeras nuances quanto a questão da vulgarização da crueldade e eu não seria capaz de expressar todas elas aqui. Porém, é inegável que muitos só se sensibilizam quando eles ou pessoas a quem estimam são as vítimas. Do contrário, toda violência tende a ser ignorada.

A brutalidade, obviamente, não é algo novo. Presenciamos ao longo da história da humanidade milhares de conflitos e com os avanços tecnocientíficos a guerra e a própria história da guerra tornaram se meros dados. Atualmente drones (aviões não tripulados) são usados como investida nos conflitos. O inimigo não é mais encarado no campo de batalha.

O dado é a base dos novos aparatos tecno informacionais, tudo que nele habita são algorítimos, sendo assim, a morte não foge desse meio. Banalizar de forma acrítica a morte, afasta dela todo o caráter humano daquele que morre, priorizando de forma hierárquica informações “básicas” massivamente. É notório que temos progredido tecnológica e cientificamente, mas, e como indivíduos?

É possível que de alguma forma nos sintamos atraídos pelo conceito de banalização da morte, ainda que inconscientemente, como uma espécie de mecanismo de salvaguarda psicológico. Numa, quem sabe, sutil tentativa de nos tornarmos tão frios quanto o mundo pede que sejamos. Que futuro esperamos encontrar agindo de tal forma? Ou que futuro os nossos filhos e filhas encontrarão? Questionamentos que certamente poderão ser tidos como recorrentes, embora, permaneçam relevantes.

A trivialização da morte pode implicar em uma objetificação da vida. Pacientes aos montes são tratados como objetos todos os dias dentro de grandes e pequenos hospitais. Põe-se de lado o ouvir, o oferecer, o confortar e tantos outros aspectos de uma possível relação humana e interpessoal em detrimento do mecanismo e de uma postura sistemática. Alguns, decerto passarão os seus últimos momentos em completo desespero e solidão, por talvez não contar com familiares vivos ou por não significar tanto assim para aqueles ainda vivem. Seja qual for o motivo, o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis é feliz, em sua perspectiva, quando afirma que:

“Quando cada um de nós morre, uma história única da humanidade se perde (…)”

Nesse cenário é seguro inferir que a objetificação da vida também traz implicações na percepção da vida como um todo, sendo assim, para o design contemporâneo não poderia ser diferente. Certo de que não podemos correr o risco de passar a enxergar o público como criaturas desprovidas de sentimentos e desejos. Isso tornaria o ofício inviável, além de nos isentar da responsabilidade de agirmos como possíveis agentes capazes de gerar um impacto significativo no comportamento da sociedade.

Podemos tardar em nos preocuparmos com isso, como vez ou outra costumamos fazer com nossos planejamentos ou objetivos pessoais. Ou quem sabe seja o momento de encararmos a realidade de que poderemos não estar aqui amanhã para nos importarmos com isso. Comecemos a considerar a necessidade de olhar para tal problemática com outros olhos e a fazer aquilo que se encontra ao nosso alcance para que não continuemos em descaminho.