Rembrandt, ritual, aura e algoritmo

O texto abaixo foi motivado pelo querido colega Felippe Thomaz em uma breve discussão no Facebook, que pode ser resgatada aqui. Agradeço intensamente pela provocação, é bom lembrar que é possível ainda encontrar vida inteligente no infinito das redes.


Antes de mais nada, cabe colocar que não é minha intenção esgotar toda a discussão acerca do projeto The Next Rembrandt com esse texto. Aqui consta uma leitura/reflexão minha da obra, a partir de uma observação baseada nos postulados de Walter Benjamin. Proceed with caution.


Todo pesquisador tem apego a determinados textos. Muitas vezes estes são tão impactantes em dado momento que, quase sempre, sua presença acaba acompanhando o leitor deslumbrado nos anos que seguem. Eu poderia citar, com certa facilidade, alguns textos/autores que, de tão relevantes para meu projeto de vida/pesquisa, colocam-me em causa constantemente. Nesse breve relato, o autor que me vem em mente é Walter Benjamin.

Meu primeiro contato com Benjamin aconteceu enquanto estudante universitário, durante o 3º semestre do curso de Design, na ocasião da disciplina “Processos da Linguagem Gráfico-Visual”. Esta se propunha a discutir a linguagem audiovisual dentro do campo de Design. Na época, o componente curricular era ministrado pelo Prof. Dr. Cid Ávila, do qual orgulhosamente sou colega hoje, tanto na UNIFACS/Laureate quanto na UNEB.

Embora na época eu tenha considerado essa aproximação enquanto precoce, tendo em vista a erudição do pensamento do autor em relação ao resto dos teóricos estudados até então, hoje percebo de forma diferente. Benjamin, bem como diversos outros pensadores com os quais tivemos contato mais a frente no curso, contribui de forma contundente para a discussão do status quo da técnica, da arte e da produção de objetos de design (mesmo que indiretamente).

“A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, texto com o qual estabeleci o contato inicial com o autor — e sobre o qual discutirei abaixo – foi, sem dúvidas, um divisor de águas no meu processo formativo. Lembro, vividamente, da discussão estabelecida em sala sobre o texto, bem como da minha ansiedade pelo tão aguardado momento da discussão. Embora, naquele momento, a discussão tenha se polarizado entre o professor e eu (assunto para outro texto), ainda tenho esse momento como marcante em minha formação enquanto designer.

Voltando ao texto. Minha primeira impressão, que perdura até hoje, diz respeito à relevância e atualidade do texto. Walter Benjamin iniciou sua escrita em 1936 e concluiu o trabalho em 1955. Tratando-se de um texto que discute, tangencialmente, sobre mídia e novas tecnologias, o vanguardismo do discurso de Benjamin é notável.

“ (…) a reprodução técnica da obra de arte representa um processo novo, que se vem desenvolvendo na história intermitentemente, através de saltos separados por longos intervalos, mas com intensidade crescente”.

O pensamento de Benjamin sobre a técnica, aura e ritual, expostos no texto, tem me acompanhado de forma recorrente nos anos que decorreram desde a minha primeira leitura do texto. Em primeira instância, na minha prática profissional/intelectual enquanto designer, ou seja, enquanto projetista de sistemas sóciotécnicos. Não consigo deixar de problemarizar a dialética presente entre a dimensão pragmática dos projetos que desenvolvo com seu caráter de artefato reprodutível, bem como as consequências disso.

Bom, mais recentemente a obra de Benjamin me veio em mente a partir do contato com o projeto The Next Rembrandt:

Trata-se de um ousado e inovador projeto, desenvolvido através de uma parceria entre o banco ING e a Microsoft, com o intuito de gerar, através da análise de dados (150gb de imagens renderizadas) e da produção de algoritmos, um revival de Rembrandt, quase quatro séculos após a sua morte. A proposta partiu da agência JWT de Amsterdam. Para um maior detalhamento sobre o processo metodológico do projeto, recomendo a leitura deste artigo, no B9, bem como a própria página nextrembrandt.com.

Rembrandt produzido pelo algoritmo

Particularmente, fico assustado com a audácia. Rembrandt, pra mim, é como Goya e Caravaggio, aquele artista cujo estilo pressupõe uma sutileza que torna sua reprodução altamente improvável. Os três são mestres na utilização da luz e sombra, mesmo que com propósitos diferentes. Algo no meu subconsciente é atraído para a estética que esses artistas propõem.

Goya | Caravaggio | Rembrandt

Por outro lado, fico maravilhado com a proposta, tendo em vista a aplicabilidade de questões que tenho discutido nos últimos anos em minhas pesquisas e publicações sobre novas mídias, big data e outros temas da cibercultura. A autoria, por exemplo, é um terreno fértil para discutir o fenômeno, levando em consideração aqui que percebemos aqui uma autoria coletiva entre humanos (o próprio Rembrandt, bem como os programadores e outros envolvidos) e não-humanos (os próprios dados, os algoritmos, os equipamentos técnicos utilizados etc.)


Retornamos, protanto, a discussão para Walter Benjamin. Como citei acima, alguns conceitos do pensador são particularmente relevantes pra análise desse objeto. Aqui vou me ater ao conceito de aura e ritual.

“O aqui e agora do original constitui o conteúdo da sua autenticidade, e nela se enraíza uma tradição que identifica esse objeto, até os nossos dias, como sendo aquele objeto, sempre igual e idêntico a si mesmo. A esfera da autenticidade, como um todo, escapa a reprodutibilidade técnica, e naturalmente não apenas à técnica”

Para Benjamin, a definição de aura está conectada diretamente com a questão da autenticidade. A reprodução técnica da obra de arte permite o seu descolamento do tempo/espaço originais de fruição, destituindo o objeto do seu “aqui e agora”. Nesse sentido, a reprodução técnica permite uma maior autonomia na edição, deslocamento e leitura do conteúdo artístico. Essa autonomia, contudo, desvalorizaria a aura da obra, seu aqui e agora.

A aparição da aura seria, portanto, um evento único, o estado de contemplação máxima do objeto no qual, graças ao recorte específico de tempo e espaço em que se manifesta, este projeta sobre nós significados peculiares. O argumento de Benjamin, nesse sentido, é que a aura é destruída quando o objeto é retirado do seu “invólucro”, ou seja, da sua conformação específica no tempo/espaço. Há, portanto, um fim da unicidade da obra de arte.

A perspectiva da aura nos leva a outro conceito, igualmente relevante a discussão: a questão do ritual. Benjamin aponta, de forma extremamente lúcida, o papel tradicional que a obra de arte ocupa enquanto objeto mediado — e mediador do – pelo culto.

“As mais antigas obras de arte (…) surgiram a serviço de um ritual, inicialmente mágico, e depois religioso. (…) esse modo de ser aurático da obra de arte nunca se destaca completamente de sua função ritual. Em outras palavras: o valor único da obra de arte “autêntica” tem sempre um fundamento teológico, por mais remoto que seja”

Há, portanto, um caráter mágico na aura da imagem e, de forma subsequente, da obra de arte. Muitas vezes a existência da imagem, por si só, é o que importa. Como coloca Benjamin, o valor das obras enquanto objetos de culto possibilitou, em determinados períodos históricos, que certos artefatos possuíssem uma exposição limitada. A emancipação da obra de arte, através da possibilidade da reprodução técnica, aumenta o valor de exposição da arte, “emancipando do seu uso enquanto ritual”. Nesse sentido, a obra passa a ocupar a esfera política, e não somente teológica.


Aspectos da obra de Rembrandt analisados pelo algoritmo

E no que tange nosso Rembrandt algorítmico? Comecemos pela observação de como o conceito de aura manifesta-se na obra. Inicialmente, é possível perceber a diluição da aura bem como Benjamin já havia postulado em 1955. Contudo, o método de (re)produção da obra é radicalmente diferente, levando em consideração o protagonismo dos dados e do algoritmo no processo. Nesse caso, o objetivo não é simplesmente reproduzir o trabalho do artista, mas revivê-lo a partir do que permite o paradigma do big data e software.

Tratando-se, portanto, de um “original” — conceito complicado de aplicar nesse caso –, o que configura-se enquanto o aqui/agora no The Next Rembrandt? Minha análise aponta, principalmente, para a fruição do código. A obra, para além da sua materialidade visual, ganha validade no processo de construção. Ou seja, a procedimentalidade do processo, possível através do paradigma software/representação númerica do ambiente computacional, é o que caracteriza sua unicidade.

Embora o software desenvolvido possa, sem sombras de dúvida, gerar inúmeros Rembrandts diferentes, o código produzido pelos desenvolvedores permitiram a emergência de uma representação visual específica do que o algoritmo compreendeu enquanto a “essência Rembrandt”. Respirar a aura da obra, nesse caso, exigira do fruidor um olhar minucioso ao código e aos dados que alimentam o algoritmo.

Nesse sentido, surge uma problemática. Se transferimos a fruição da obra para o processo (código e procedimentalidade), criamos também uma barreira. Assim como nos rituais da tradição artística, citamos do Benjamin, o contato com a obra “de fato” exigiria um contato com uma estrutura críptica ao fruidor médio de Rembrandt. Requer, portanto, além de um conhecimento estético do estilo do artista, um conhecimento técnico do processo de produção algorítmica da obra.

Esse ritual, portanto, ficaria delegado àqueles familiares com uma gramática bastante peculiar, se comparada à gramática visual e poética com que a arte tradicionalmente trabalha. A linguagem computacional, nesse caso, é o código para acessar a aura e o compreender o ritual que criam o relevo em que levanta-se a obra.

O ritual aqui manifesta-se enquanto uma exaltação das características formais/estéticas do artista, bem como do próprio software. É paradoxal, inclusive, um antiritual. O processo exalta o artista, bem como a genialidade e relevância de sua produção, enquanto ao mesmo tempo expõe o domínio que o algoritmo possui sobre o sistema de representação de Rembrandt. Um duplo ritual, portanto.


Parâmetros do software para (re)produção

Fica claro, portanto, que além de apresentar-se enquanto um fenômeno capaz de fomentar discussões de caráter diverso, The Next Rembrandt também mostra a potencialidade e relevância de textos clássicos dos estudos de arte, comunicação e técnica. Autores como Walter Benjamin não só possuem uma relevância histórica para o estudo dos fenômenos culturais, como merecem ser sempre revisitados, expandidos e referenciados enquanto fonte de conhecimento crítico para os acontecimentos da contemporaneidade.

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