Alexei Dmitrovich — Parte 1

Eu acolhi um viajante do tempo. Esse cara veio direto do ano de 1921, de São Petersburgo, Rússia.

Está na foto anexa, que trouxe consigo em seu casaco. É o sujeito magro de bigode preto no terço direito da imagem.

Bolchevique de primeira hora, conheceu Lenin e Trotsky em pessoa e até participou do assalto ao Palácio, que diz ter sido bem mais tranquilo do que os historiadores nos fizeram crer. Depois combateu os anarquistas mano a mano, na Ucrânia. É aquilo que seria chamado de herói do povo, caso tivesse ficado em seu tempo original.

Ele entrou numa “máquina do tempo” — acidentalmente, diz — e teleportou-se para um lugar e uma época totalmente desconhecidos: uma trilha no meio dos bosques na serra, em janeiro de 2016. Achei-o quando andava de mountain bike solitário nas proximidades da estrada. Ele tinha acabado de dar uns tiros em dois ladrões locais e assim, de certa forma, me salvou. Tão assustado quanto eu, foi difícil convencê-lo a se acalmar e vir comigo para um lugar seguro, onde o hospedei em meu próprio apartamento na falta de saber como agir melhor.

Mas ele é curioso e um tanto ingênuo, e surprendentemente paciente na conversa. Meu russo é tosco e o dele parece ser de camponês, então já viu. Muitos mal-entendidos engraçados. Aliás, por conta disso tambem é que pudemos travar um relacionamento amigável, com certa confiança. O bom humor é uma ponte através das línguas e das eras.

Ver uma cidade tão grande foi para ele um choque, mas o que o espantou de verdade foram os carros e o trânsito, que ele considera absolutamente ilógicos. Não o deixei dirigir, claro. Sim, ele pediu. Não é um cara passivo ou contemplativo.

Adora batata cozida. Só come isso. Pediu um ensopado de carne, que tive de fazer. Ainda não sei bem como lidar com a falta de vodka em casa. Felizmente, o calor incomum para seu costume o desestimulou a manter todos seus costumes intactos em uma terra tão estranha.

Por enquanto, ele já está muito fascinado com os livros e revistas que achou em casa — “Cadê os jornais? Nao se faz mais isso?” — para ocupar de compreender conceitos da vida tecnológica cotidiana, como celulares e PCs. Muita informação ao mesmo tempo. Mas isso deve mudar logo.

Não sei se conto logo para ele o nível de como as coisas no mundo deram errado — ou meio certo — nesses anos todos que se interpuseram entre sua juventude idealista e nossa decrepitude cínica. Por uma coincidência absurda, existe em nosso tempo um descendente dos Romanov com o mesmo nome dele, mas… será que conto isso também?

Menti que a Revolução deu certo ao redor do mundo, como preconizavam seus heróis, e também menti que a estranha desigualdade patente nas ruas da minha cidade se deve a um contingente de antigos inimigos capturados, escravizados e assimilados após uma hipotética guerra que teria havido com o “Brasil do Norte”, seja lá o que isso for. Por enquanto, está colando. Ele acha que nosso país é uma potência, porque na superfície parece-lhe muito rico com todos esses edifícios encapados em vidro.

Espero que ele não me mate quando realmente puder compreender o que de fato houve. Em troca, ele precisa me explicar o que exatamente seria essa “máquina do tempo”. Do jeito como fala, parece que ele acha que essas máquinas são comuns a ponto de, se eu souber dos detalhes sobre sua partida para cá, conseguir prendê-lo nesta época para sempre — e obviamente ele quer voltar. O cara é realmente devotado ao que fazia no Exército Vermelho.

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