Alexei Dmitrovich — Parte 4

Hoje é um dia de folga e isso foi favorável para eu vigiar Alexei de perto e persuadi-lo a não sair sozinho.

Já se vão alguns dias de confinamento e ele, tão afável, finalmente está se impacientando. Vai que fica exaltado, revoltado etc. e escapa ao controle, criando um incidente… Consciente disso, ele promete que irá se manter discreto, para sua própria segurança.

Minhas roupas ficaram muito folgadas nele. Mesmo assim, achou tudo apertado. E achou bizarro todo mundo andar na rua de roupa de baixo (camiseta…). “As mulheres são todas indecentes! Não sou obrigado a ver suas exatas formas a todo momento!”

Insiste em usar boné de qualquer maneira, mesmo embaixo de um teto. E não quer aparar o bigode — se bem que na rua Augusta isso passaria batido.

Pela manhã eu achei que íamos sair para um passeio de reconhecimento, mas ele parou para olhar fotos num site de notícias, na tela touch do meu PC. Pelo menos no primeiro momento, é um deslumbre para ele. “Como vocês guardam tantos filmes dentro de uma caixinha?”, referindo-se aos vídeos. Ainda não liguei a TV. Pode explodir sua cabeça. A minha já sofre com todos aqueles canais de igrejas e noticiários mentirosos.


Ele viu algumas fotos e vídeos do recente confronto de rua. Sem entender o contexto, admirou muito a armadura dos policiais e seu aspecto material de promessa de violência.

Depois, porém, de ver quem era a vítima da violência estatal no caso em pauta, levantou-se irado e disse que aparentemente nada mudara em um século: aquelas cenas o lembravam claramente do massacre do Domingo Sangrento em São Petersburgo, em janeiro de 1905, do qual fora testemunha e escapara por sorte.

“Se é verdade que se passou tanto tempo como você diz, e aparentemente as pessoas hoje vivem num conforto enorme, cheias de comida enlatada, cercadas de objetos coloridos, carros que andam depressa e essas coisas elétricas todas, como é que uma questão dessas não encontrou resposta pacífica?”

Ele quase babava, indignado.

“Pelo Padre Gapon!”, continuou. “No Ensaio Geral eu ainda era novo demais para entender direito, mas qualquer criatura entenderia que aquilo era um absurdo inaceitável. O governo agredindo e matando abertamente os mesmos servos que o sustentam, ao longo de séculos. Eu era um aprendiz, mas entrei na Greve Geral convicto de que o mundo precisava mudar. Por que esse povo todo de agora não está mobilizado em bloco numa greve?”

Respondi: “A população em geral não apoia esses movimentos. Uma parte se abstém de participar porque se acovarda. Tem medo de perder o pouco que tem numa convulsão. A outra parte — talvez a maioria — tem um matiz autoritário e apoia abertamente as repressões violentas.”

“Absurdo”, proclamou. “Só se a sua classe burguesa for tão numerosa que… Como consegue contrapor completamente o anseio do povo? Você não tinha dito que aqui é uma república com representantes eleitos?”

“Sim, é uma república e tem eleições livres, mas provavelmente você não vai concluir, depois de análise mais detida, que se trate de um regime democrático. Os eleitos só servem a si mesmos. O sistema não faz nada do que o povo precisa. Atende-o, mas na propaganda. Não temos aristocracia de nobres, mas temos sim os aristocratas, que coincidem serem os burgueses, boa parte deles enfiada na política por meios diretos e indiretos.”

“E esse pessoal inerte que acha que está tudo bem?”

“São gente de estrato mais baixo; não diria proletários, mas assalariados na maioria, que se identifica por adesão ideológica com seus próprios exploradores. Eles sustentam voluntariamente os privilégios de quem está por cima.”

“Isso não está certo. O certo seria fundar um movimento popular e arrancar o poder desses palhaços. Como nós conseguimos em 1917, duas vezes seguidas: os burgueses tentaram nos governar, mas evidentemente foi um desastre. Simplesmente não dá para deixar na mão deles.”

“Bom, aqui está tudo na mão deles. Para ter uma ideia, nós os chamamos de ‘Clube do Um Por Cento’. São o 1% que detém mais ou menos metade da riqueza do país inteiro.”

Ele fazia gestos abruptos e arregalava seus olhos vermelhos que fuzilavam de raiva. Ele queria se engajar, acreditava ter nascido para isso. Eu temia que um mal-entendido o deixasse mais furioso. Ele já ficara ressabiado ao saber que saltara um século inteiro no tempo para cair num lugar ainda mais brutamente capitalista e injusto que aquele de onde viera — e também se irritara quando deixei saber que eu havia inicialmente evitado que ele soubesse a triste realidade de cara.

“É, você me disse antes que não tiveram a Revolução por estas partes, que o capitalismo tinha vencido. Mas isso é ainda muito pior do que eu poderia imaginar. Diga-me, os princípios da Revolução se mantiveram, afinal, em algum lugar do mundo? Ainda temos isso na Rússia, pelo menos? Europa? América?”

Fiquei parado em silêncio, pensando longa e cuidadosamente no que responderia a seguir e de que forma. Mentir não iria adiantar. Talvez omitir temporariamente…

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