Alexei Dmitrovich — Parte 9

Para os da minha família que já o viram, é um estudante de intercâmbio. Está colando.

Com 34 anos e o rosto mais enrugado do que a idade indica, ele está visivelmente velho para o álibi, mas... Calhou de se materializar praticamente no colo de um estudante de História e línguas, o que ajuda a dar consistência à história; digo a qualquer um que ele é uma fonte para minha pesquisa acadêmica. Sobre o quê? Sobre a era Putin, claro.

Ele quer sempre fumar cigarros de palha — pobres e débeis substitutos para o assustador “papirossi” fumarento, pegajoso e corrosivo que trouxera consigo e rapidamente consumiu. Como eu não permito nenhum tipo de fumo em casa, saímos para fazer lentas caminhadas no bairro; assim vamos atualizando, digamos assim, os conhecimentos um do outro.

De vez em quando preciso pedir que repita algo para captar o contexto. Da minha parte, quando ele não entende algo, prefiro pular o tópico, pois é cansativo.

Para alguém que diz ter vindo do campo e trabalhado como operário de fábrica, ele me parece notavelmente educado e erudito. É quase de se desconfiar. Diz que leu muito por conta própria. Especialmente teoria política e outras ciências modernas, ocultas e por vezes proibidas. Imagine um hipster de Humanas, só que do tempo em que farmácias vendiam remédios radioativos. É, não é fácil. Devo tentar entender o que o fez destacar-se assim. Fica implícito um desejo que ele tinha de ascender dentro do movimento.

Perguntei se ele tinha saudades da família. Sua resposta foi abrupta: tropas tsaristas mataram seus pais a tiros, e a namorada Polina simplesmente desapareceu durante a guerra, possivelmente capturada, anos antes de ele dar o “salto”.

Olhando as prateleiras do supermercado, ele se admira com as cores vibrantes. De fato, mais que o uso do plástico, mais do que as luzes brancas e brilhantes a qualquer hora do dia ou da noite, nada o fascina mais do que as cores das embalagens e suas perfeitas impressões fotográficas. Só que ele acha horrível a maneira como absolutamente tudo é industrializado e embalado. Pergunta-me: se vocês estão em tal abundância, por que tratam as comidas como se vivessem em permanente regime de guerra? Afinal, essa prática de enlatar e embrulhar tudo é para enviar suprimentos a tropas no front. Não tem nexo algum fazer isso com algo que vai ser usado em casa dali a minutos.

Ainda não consegui dar uma resposta que o satisfizesse. Ele também deduziu que nossas casas têm geladeiras especificamente como medida preventiva em caso de emergência de guerra. Nada muda essa sua opinião, porque explicar de outra maneira não tem lógica para ele.

Ademais, a relativa limpeza das ruas daqui o perturba profundamente. Limpeza e ordem sempre foram marcas dos ambientes criados e mantidos para a nobiliarquia opressora, cínica e exploradora.

E para onde vão tantas mulheres? Elas trabalham, ué. Mas precisam trabalhar? Igual aos homens? Nos mesmos empregos? Para quê isso?


Sabendo que há um longo caminho a percorrer para propriamente entender o que consegue ler na Internet, ele fuça nos livros à noite, pacientemente, com um senso de missão.

Em parte por isso é que fiquei meio desconcertado. Há três semanas ele apareceu e ainda está agindo com uma calma muito grande para alguém que teria caído numa espécie de buraco negro artificial e saído num lugar totalmente aleatório e estranho.

Já perdi o sono tentando conjeturar se ele veio tão acidentalmente assim, afinal.

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