Gênesis
Relampejou, mas não chovia. O peso extravagante do cobertor fazia-se de empecilho enquanto os braços dele encolhiam-se contornando o corpo em posição fetal. Buscava alento no pano, que acabava por aquecê-lo com seu próprio calor.
Fez-se luz, mas era escuridão. Tal como mãe ninando a cria, carinhosamente começou a desova. Desfez com delicadeza o nó de fitas de cetim e colocou as mãos a frente de sua máscara, gentilmente repuxando-a para fora de si. Podre.
Despiu-se, mas já estava nu. Deixou-se levar pelo barulho dos carros e do vento assobiando pela janela. Silenciou os pensamentos. Já sob si, a máscara estava posta. Consciente, reconheceu território como cego. As pontas dos dedos avançavam delicadamente feito labaredas pelo rosto. Três espinhas murchas contornam a barba rala recém feita. Uma cicatriz no lábio conta o passado e sonhos deixados para trás. Próximo ao queixo há outra, ainda da época em que era menino e deixava-se levar pelas estações. Os olhos fundos descansam cerrados sob pálpebras cansadas. A saliva termina por escorrer poeticamente pelo canto da boca.
O timbre da solidão percorria cada dobra de cada membro do seu corpo assim como os carros aceleravam aos seus destinos particulares pela avenida. A alma pedia redenção como motores sedentos por marchas maiores ou passarinhos flanando nos ares tocando a liberdade. Essa última tem o sabor doce. Cessou por um momento para contemplá-la. Entre sirenes, buzinas, gritos e maquinários, ouvia também o som da alegria. Era confortante pois silenciava epopéias mentais épicas. Num suspiro profundo, adoeceu. Combustou-se num tocar dos segundos do relógio como fênix. O arrebate esvaiu-se elegantemente pelas frestas da janela feito vento. Deixou o corpo para trás amadurecendo o que havia passado. Realizou que tinha asas — eram belas asas. Apoiou-se no parapeito e inclinou como nadador idealizando o salto. Pela primeira vez, não sentiu medo. Saltou dando mãos a si. Era todo sorrisos.
Havia feito escuridão e a alma dele disse “faça-se a luz!”. E a luz foi feita.
O autor termina por chorar de forma compulsiva.

