Por que o poliéster de PET reciclado não é uma alternativa sustentável?

Júnnia Moreira
Dec 22, 2019 · 4 min read

A possibilidade de ter empresas recolhendo o lixo dos mares e cidades é incrível, mas infelizmente não é uma alternativa sustentável quando esse lixo volta em forma de tecido.

Imagem gráfica. No fundo da imagem há o desenho de uma flor, ela está no galho e tem folhas. Por cima está escrito: [re] viva
Imagem gráfica. No fundo da imagem há o desenho de uma flor, ela está no galho e tem folhas. Por cima está escrito: [re] viva
Reviva seus tecidos

Desde os anos 90, empresas tem a ideia de transformar garrafas PET em tecido, mas só agora essa alternativa ganhou força no mercado da moda. Em tese, retirar esse plástico que estava poluindo os oceanos e transformá-lo em produtos duráveis, como roupas e afins, é algo muito interessante. Mas, se olharmos de longe e analisarmos toda a história em volta desse ciclo de reciclagem vemos que transformar lixo plástico em roupa é um atraso quando o pensamento é a busca por alternativas sustentáveis.

Infelizmente, a ideia sustentável do PET reciclado é mais uma forma de greenwashing, que falamos nesse post, pois a maioria das marcas sabe que essa não é uma boa alternativa, mas fazem as pessoas acreditarem que é a melhor escolha, pois estão “ajudando” o meio ambiente com sua compra.

Mas por que reciclar garrafas PET e transformá-las em tecido é uma má ideia? Bom, aqui voltamos novamente ao assunto: Microplásticos.

“Dentro do universo da sustentabilidade, há duas grandes motivações de discurso para usar plástico reciclado no lugar do poliéster. A primeira, e mais óbvia delas, é o fato de transformar lixo em algo novo. A reciclagem, por si só, já tem um caráter positivo intrínsico a ela. O entendimento comum é que reciclar é sempre a melhor saída. Depois, entendemos que, ao reciclar, nós não estamos mais extraindo matéria-prima virgem, no caso do poliéster, de origem não-renovável, para produzir produtos novos.”

Já no caso de tecidos de plástico reciclado, independente da estrutura do fio e da trama de sua construção, esse tecido soltará micropartículas plásticas em seu processo de lavagem, afinal ele é feito de plástico. Esses microplásticos não são filtrados em nenhuma etapa do tratamento de esgoto e acabam voltando para os oceanos, e aí é aquela história que já contamos aqui, os peixes confundem o microplástico com comida e enchem seu organismo desse lixo.

“Segundo o novo relatório da fundação para economia circular Ellen Macarthur, A New Textile Economy, meio milhão de tonelada de microplásticos oriundas de roupas de plástico acabam nos mares todos os anos. Essa quantidade é equivalente a 50 bilhões de garrafas de plástico. Conforme explica o relatório, “nessa tendência atual, a quantidade de microfibras de plástico entrando nos oceanos entre 2015 e 2050 pode chegar em 22 milhões de toneladas — cerca de dois terços da quantidade de fibras de plástico usadas para produzir roupas anualmente”. (link)

Então, é hora de refletir se há alguma vantagem em retirar esse plástico dos mares ou cidades para transformá-lo em tecidos que liberam microplásticos impossíveis de serem filtrados. Não existe economia circular nesse processo, pois é um ciclo interrompido.

“As marcas usando plástico reciclado em suas coleções gostam de dizer que estão praticando a economia circular. Entretanto, economia circular, como o nome mesmo diz, é um ciclo fechado onde o produto reciclado ou reutilizado ou compostado vira algo de igual valor em um ciclo contínuo e interrupto. Mas tecidos de plástico, reciclado ou não, não são reciclados no fim da sua vida. Eles acabam em aterros sanitários porque não há tecnologia de reciclagem em larga escala para produtos têxteis de pós-consumo.

Portanto, quando uma marca pega uma garrafa PET e a transforma em tecido, ela está interrompendo o ciclo do produto, pois essa garrafa poderia ter sido reciclada e transformada em outra garrafa, por exemplo. Desta forma, podemos dizer que as marcas estão produzindo mais lixo a partir do lixo de uma outra indústria, e quando ela vende isso como uma forma sustentável de consumo, ela está praticando o greenwashing. Infelizmente temos que estar sempre muito atentos a essas campanhas envolvidas em “maquiagem verde”, senão também caímos em suas mentiras.

Mas o que usar então?

Há muito tempo que temos diversas outras opções de materiais para a construção de um tecido, como o algodão orgânico, o linho, o cânhamo, etc. Além de serem fibras naturais, elas proporcionam um conforto sem igual.

Se nós não dermos um basta e começarmos a refletir (de verdade) sobre nossas práticas de consumo, a indústria continuará em sua zona de conforto. Como diz Marina Colerato, “roupas de plástico reciclado não salvarão a moda e nem o planeta. Pessoas e empresas dispostas e abertas para transformação genuína sim.”

Sejamos a mudança que queremos ver no mundo!

Fonte de pesquisa:

Blog Âme

A Âme nasceu com o propósito de criar produtos de forma justa e sustentável. Focamos no consumo consciente, nos processos artesanais e trabalhamos com matérias-primas naturais e de baixo impacto ambiental.

Júnnia Moreira

Written by

Fundadora de uma marca de moda com responsabilidade ambiental @sejaame | Fale comigo em: ame.sustentavel@gmail.com

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