Saindo da sua zona de conforto

… e aproveitando a natureza Canadense

“Éramos os únicos a passar a noite nesta área secundária […], no escuro e no silencio da noite a sensação era de que tínhamos sido abandonados pela humanidade.”

Me chamaram pra escrever no novo blog da ABRE, a nova cara da Associação Brasileira em Edmonton. Topei na hora. Mas e agora, sobre o que vou escrever?

Minha experiência de chegada aqui no Canadá foi bem sem-sal, especialmente quando comparada às de outras pessoas que vêm com marido / mulher e filhos, panelas, cachorro e papagaio a tiracolo. Em muitos casos, arrancar as raízes do Brasil não é um processo simples ou sem traumas e como já vi que a maioria optou por escrever sobre as suas chegadas, vou pular essa parte. Pelo menos por enquanto, vou contar apenas que vim de Recife pra Edmonton em 2004, com 27 anos, acompanhado de 2 amigos. Muita coisa aconteceu de lá pra cá, e parte da minha adaptação à vida em Edmonton incluiu o desenvolvimento de um gosto acentuado por aventuras na natureza. Então, vou aproveitar o espaço aqui e escrever um pouco sobre este meu lado, de como eu aprendi a gostar e aproveitar as belezas naturais que caracterizam o oeste canadense.

Logo após chegar em Edmonton eu era apenas um estudante de pós-graduação sem dinheiro, não tinha carta nem podia comprar um carro, então minha vida era de certa forma resumida ao esquema casa-trabalho-casa. Com o tempo as coisas melhoraram um pouco e devido às minha atividades como árbitro de Hockey (depois conto mais sobre isso), resolvi comprar um carro e finalmente começar a dirigir. A partir daí meus horizontes se expandiram e comecei a sair mais da cidade, inicialmente com o objetivo de jogar paintball.

Devido ao trabalho, minha noiva (também Brasileira) conheceu várias pessoas da Europa (mais especificamente da região dos Alpes) e eles têm por lá uma tradição bem forte de curtir as montanhas, trilhas, acampamentos etc. Como ela era sempre convidada a ir, me chamava também mas eu nunca me animava pra sair do conforto do meu lar e dormir numa barraca, no meio do mato. Pra quê? Ela se aventurava nessas trilhas por aí mas eu sempre ficava na cidade.

Depois de muita insistência por parte dela, resolvemos comprar uma barraca e acampar no parque nacional de Elk Island, que fica a apenas 60 km a leste de Edmonton. O parque está localizado em uma região que abrange uma mistura de ecossistemas, tendo um pouco de pradarias e um pouco de floresta boreal, mas bem longe das montanhas. Tem também muitos bichos selvagens, notadamente a maior população de bisões da América do Norte, além de alces, cervos, castores… A escolha deste local não foi à toa: se houvesse qualquer problema sério com o clima, a fauna ou a flora locais, eu poderia optar por voltar e dormir em casa pois estávamos apenas a 30 minutos de distância.

O acampamento foi um sucesso, mas não sem percalços: como não tínhamos feito reservas, não sabíamos que o acampamento estava lotado naquele dia, e por isso fomos direcionados a ficar em uma área separada do camping principal (aqui no Canadá tudo é muito bem planejado, fazer reservas em muitos casos é essencial). Éramos os únicos a passar a noite nesta área secundária, e apesar de estar a uns 500 metros do camping principal, no escuro e no silêncio da noite a sensação era de que tínhamos sido abandonados pela humanidade. Outra surpresa que tivemos foi uma bela de uma tempestade (completa com direito a trovão e relâmpago) que nos manteve acordado por parte da noite (a volatilidade do clima de Edmonton é bem diferente de Recife, onde tem época pra tudo e você sempre sabe quando vai chover). Como se tudo isso não bastasse, podíamos ouvir, entre um trovão e outro, uivos durante a noite inteira. Eu achei que ia morrer atacado por lobos selvagens na minha primeira noite na floresta canadense. Felizmente isso não aconteceu, a barraca aguentou o dilúvio, e o sol nasceu lindo no dia seguinte, quando aproveitamos pra tomar um belo café da manha às margens de um laguinho, um visual bem diferente do que eu estava acostumado. No dia seguinte, caminhamos pelas trilhas, à noite fizemos uma fogueirinha pra nos esquentar, e a dormida foi bem tranquila.

Alguns anos depois deste primeiro acampamento, eu comecei a me aprofundar no meu hobby de fotografia, e atualmente aproveito toda chance que tenho pra ir passar uns dias acampando nas montanhas. Com uma maior experiência, já experimentei mochilar (backpacking), algumas vezes durmo numa barraca ao lado do carro (também chamado por aqui de “car camping”) e também já dormi no carro sozinho no meio do nada. Tudo pela fotografia, hehe.

Acampando eu consigo aproveitar ao máximo uma das melhores características deste país que me acolheu. As paisagens do Canadá são muito famosas, e um atrativo muito grande pra muitos turistas e imigrantes. Se quiser ver um pouco das minhas fotos, procure “More Than Pixels Photography” no Facebook, será um prazer dividir as minhas aventuras com você.

No futuro pretendo escrever mais sobre passeios específicos, abordando as belezas naturais em Alberta. Por enquanto, deixo aqui um abraço e espero que compartilhando minhas aventuras e minhas imagens eu consiga inspirar outros brasileiros a sair de casa e aproveitar uma das melhores coisas que o Canadá tem a oferecer.

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