A tecnologia de Black Mirror

Atenção: Spoilers eventuais. Não leia se não quiser surpresas.

Black Mirror está aí faz uma meia década. Concebida por Charlie Brooker e com seu primeiro capítulo veiculado pela TV britânica em 2011, foi só graças à terceira temporada — a primeira produzida pela Netflix e nos Estados Unidos — que a série alcançou verdadeira proeminência, movendo-se um pouco de seu espaço de cult favorite para a lista de já vistos dos binge watchers.

O primeiro capítulo de Black Mirror foi um dos principais pivôs nessa popularização — contando a história de uma protagonista que vive em uma sociedade meritocrática ao extremo, em que as ações individuais são avaliadas como avaliamos prestadores de serviços no Uber ou posts no Facebook, e em que tais avaliações afetam as possibilidades sociais e financeiras das pessoas — e gerou tremendas discussões. A série é uma sátira sombria da tecnologia moderna, e por vezes é confundida com o futuro — iminente ou um pouco distante — da nossa sociedade.

Seja próxima ou distante, de qualquer forma, essa projeção abre o caminho para discutirmos — o que a tecnologia pode realmente ser?

O papel da ficção científica

Embora o termo “ficção científica” surja com algum tipo de desconfiança, em geral remetendo a convenções de trekkers e space operas desconectadas de nossa realidade imediata, a bem da verdade, qualquer tipo de ficção em que a ciência preste um papel central poderia ser categorizada assim. Assim, trabalhos como Exterminador do Futuro, 2001: Uma Odisséia no Espaço, De Volta para o Futuro, Não Me Abandone Jamais, Vingadores: A Era de Ultron— embora sejam extremamente diferentes em tom, são ficção científica por apresentarem uma ideia pautada em ciência e mostrar suas repercussões na sociedade e no mais íntimo do humano.

Black Mirror não é diferente — embora seu formato Além de Imaginação, de contos isolados em episódios, permita abordagens mais ou menos imediatas, com alguns capítulos sendo inteiramente possíveis no dia de hoje, a série ainda se dedica a mostrar como a tecnologia pode afetar nossas vidas e as pessoas.

Essa visão conjectural é muito importante para forçar o estado da arte em Design e Tecnologia e serviu de pano para manga para muitos livros interessantes. Hamlet on the Holodeck é um deles, e ele foca na discussão do que acontece com as narrativas quando surgem novas tecnologias. Donald Norman pôde escrever em 2007 Design do Futuro, um livro que fala de objetos inteligentes e questões de agência e ética que foram para os grandes jornais e revistas só quase uma década depois. Por fim, Make It So é um excelente livro que analisa as interfaces de diversos filmes de ficção científica, pensando em displays de interface, volumetria e feedback como combustível para ideias mais ousadas no dia a dia da nossa profissão.

Mas o que fez com que Black Mirror se tornasse um sucesso de ficção científica, quando a maior parte das discussões sobre tecnologia parecem tão distantes?

As interfaces de Black Mirror

Em uma entrevista, Joel Collins, responsável pelo design da série — de sets a interfaces — falou sobre como lhe foi importante parecer que o design das interfaces foi pouco pensado. Isso, de certa forma, ajudou com dois pontos argumentativos: o primeiro, de trazer os espectadores para a proximidade dos personagens e de seu mundo, e o segundo, como consequência, um efeito de sentido de verdade. Afinal, usamos tantas interfaces que realmente não apelam aos olhos, mas são funcionais.

É por isso que podemos ver interfaces que, realmente, nos parecem próximas em vários episódios. O famoso Nosedive contempla algumas:

Dashboard com Google Hangouts? Temos.
Social media, com rating, busca e uma estrutura de blog? Sim.

Mesmo que parte das interações não seja real — como transmitir coisas entre devices diferentes com gestos simples, ou interagir com uma NUI sem tap no aparelho — o efeito de verossimilhança é notável.

Do outro lado do espectro, temos, no mesmo capítulo:

Coloque o celular no carro e ele muda o painel central e as informações no vidro frontal.

Ou ainda, no segundo episódio da primeira temporada:

Grande simulação de vending machine que identifica as pessoas sem nenhum tipo de PIN de segurança.

A soma dos pequenos detalhes de interface fala claramente, e até do vínculo e resposta emocional das pessoas com capítulos — o que elas mais comentam e lembram e reverberam é muito conectado à familiaridade que elas têm com aquela interface. É por isso que sempre vemos posts com polêmicas de redesigns de logo ou porque grandes empresas fragmentam seus produtos e fazem pequenas mudanças incrementais, medidas e testadas de design de interface.

Quando alteramos não só conceitos básicos, mas formas de display de interface ou até mesmo integramos demais as interfaces ao ambiente, entramos no cenário que parece mais a conotação mais conhecida de ficção científica.

A melhor parte: as não-interfaces de Black Mirror

O visual aparente das interfaces — até mesmo em capítulos como Shut Up and Dance — ajuda os espectadores a se situarem e se relacionarem com as situações vividas nos episódios. Entretanto, mesmo quando estas destoam — como em capítulos como San Junipero — há uma relação clara da tecnologia com as pessoas, de uma forma tão clara que até mesmo os não iniciados possam entender. E é justamente aí que Black Mirror ganha corpo.

Cada episódio conta com um fragmento de construção de cenário — e aí, a melhor maneira de resumir, é pensar Teoria dos Sistemas. Neste, há um conceito muito bom, chamado Blackbox (Caixa Preta): e este fala basicamente de todo objeto cujas propriedades podem não ser conhecidas, mas que se reconhece pelos estímulos a ele dados e a resposta por ele fornecida. Desenhando:

Em um gráfico simples, a Caixa Preta.

Pense comigo, em termos da série:

  • Andar de bicicleta gera créditos que podem servir para comprar coisas ou comprar bilhete para se apresentar e sair desse esquema (S1E02 — Fifteen Million Merits);
  • O grão grava tudo o que você vê, e pode ser reproduzido de acordo com sua vontade (S1E03 — The Entire History of You);
  • Tudo o que você faz no celular vira informação que pode ser lida para sintetizar uma versão (S2E01 — Be Right Back);
  • Todas as suas ações podem ser medidas por outras pessoas e isso é refletido em benefícios sociais (S3E01 — Nosedive);
  • Todas as suas memórias são lidas e servem para criar uma terapia de imersão baseada em suas experiências pessoais (S3E04 — San Junipero).

O funcionamento de nenhuma dessas tecnologias é explicado em detalhe — aliás, nem superficialmente. O que sabemos é um tratamento das mesmas como Caixas Pretas — o que entra, o que sai. E a partir do que sai, se criam histórias sobre as consequências emocionais e sociais dos resultados. E é essa a parte que contribui para o sucesso da série.

Para pensar em tecnologia e experiência do usuário: mais Caixas Pretas

Se você chegou até aqui pensando, “OK, mas o que diabos um profissional de UX ou de design de serviços pode aprender com Black Mirror?”

Problemas narrativos ou omissões discursivas à parte — por exemplo, sobre como Nosedive e White Christmas parecem dar às pessoas um controle da sociedade pleno sem nenhum tipo de respaldo legal comunitário, baseado plenamente em autotutela — a série pode servir para enquadrarmos os problemas e soluções de tecnologia de forma mais ampla.

A maior parte do pensamento de Caixas Pretas, aplicado ao cotidiano, parece gerar uma listagem de casos de uso e monitoramento de respostas de maneira focada em interfaces. Coloque o formato do e-mail correto, acerte. Errou o CPF, uma mensagem de erro com belo motion. De forma binária — conseguiu ou não alcançar a meta.

A verdade, entretanto, é que a maior parte das experiências acontece ao longo do tempo e acontece para além da interface — da mesma forma que Black Mirror, mas não de uma maneira não distópica (ainda). Isso quer dizer que existe uma camada ampla de interações que fazem parte do que as pessoas fazem com a tecnologia, e que é com frequência ignorado.

Pense nos últimos jobs que você fez e carregou debaixo do braço — eu tenho certeza de que você esmerou todos os dados, os cliques, a quantidade de informação que aparece a cada passo. Mas será que sobrou aquele tempo de olhar bastante as entregas e questionar o quanto as pessoas colocariam naquilo, o que elas receberiam de volta — e o quanto isso faz sentido se a resposta vem no ambiente superpopulado com mais opções ou estímulos?

Se isso parece pressão demais para um simples job, vamos lembrar de umas coisas — as pessoas já pesquisam preços no Buscapé. E já existem marketplaces dentro dos maiores e-commerces do mundo. E tem muita gente que rapidamente faz leilões de atendimento, abrindo Uber, 99 e EasyTaxi ao mesmo tempo para ver quem dá um carro primeiro.

Trabalhar bem essa Caixa Preta é requisito básico — mas compreender o lugar de cada coisa no mundo é ainda mais crucial. É isso que é pensar sobre tecnologia. E é isso que é ficção científica — e não julgar se os controles da armadura do Homem de Ferro estão 100% corretos. Não é à toa que sempre vemos ideias de empresas que eram ótimas mas não deram certo.

E se faltamos com um pé na realidade, voltamos ao mais básico com Donald Norman, em vídeo deste ano. ;)