Boas práticas não salvam interfaces da mediocridade

Você já ouviu falar sobre normose?

Normose é um conceito filosófico (calma, não fuja ainda!) usado para se referir a valores sociais preestabelecidos que causam sofrimento, angústia e até morte. Parece complexo? Simplificando: normose é aquilo que nos sentimos obrigados a fazer em prol do encaixe social, mas que no final das contas são apenas regras que tentam controlar e manipular as ações de cada indivíduo.

A essa altura, provavelmente você já consegue notar vários sinais de normose em sua vida cotidiana, mas pode estar se perguntando: que diabos isso tem a ver com interfaces digitais, criatura?

Você já parou para pensar que, em linhas gerais, as interfaces têm estruturas e comportamentos muito semelhantes entre si? Será que tais definições foram criadas após o resultado de uma série de estudos bem conduzidos ou nasceram de uma profunda cultura de achômetro que acaba por enraizar certezas um tanto duvidosas?

Imagine um grupo seleto de profissionais de UX debruçados meses a fio sobre a imagem de um menu hambúrguer. Após morder muitas traseiras de lápis, rabiscar muitas folhas, criar muitos protótipos e testá-los com milhares de usuários, eles trouxeram ao mundo o veredito: este é o melhor menu possível para um site mobile.

Bom… Provavelmente isso não aconteceu, né?

Da mesma forma, muito daquilo que conhecemos como “boas práticas de UX” surgiu de forma aleatória, mas a frequência de uso fez com que se tornasse algo óbvio. É importante separar o óbvio do intuitivo: o menu hambúrguer citado acima se tornou óbvio com o passar do tempo, mas nunca foi um elemento intuitivo. Será que não estamos nos deixando levar por uma série de regras restritivas e que não apontam de fato para o melhor resultado que buscamos para nossas interfaces?

Uau! Quantas perguntas! :-)

Existe um elemento importante em todo o ciclo de definição aleatória de padrões: ter uma enciclopédia de predefinições que podemos consultar sempre é confortável e prático, mas ao mesmo tempo é extremamente limitador. Não existe o desafio da criação, de um entendimento mais profundo e da real quebra de paradigmas. Tedioso, não? Talvez algumas dessas regras e normas tenham sido criadas para controlar ambientes e facilitar replicações. Da mesma forma como a normose rege nosso contexto social. Rá!

O design disruptivo está aí para provar que as cartilhas não devem ser sempre seguidas se quisermos criar experiências de uso ricas e de fato intuitivas. É claro que muitas práticas devem servir como guias, mas isso não significa que todas as verdades de uma boa interface já estejam sacramentadas. Ainda existe muito, muito espaço para descobertas e para mergulhos que vão além da superfície dessa zona de conforto.

Quer alguns exemplos realmente inspiradores de gente que andou chutando o balde em busca de resultados muito mais conectados à verdadeira intuição dos usuários? Vem comigo. :-)

1. A lista de visualização de imóveis do AirBnb

Você provavelmente já usou outros sites de visualização de casas e apartamentos e sabe como as coisas costumam ser estruturadas: thumbs minúsculos, informações entulhadas, cliques para todos os lados, poluição visual… A interface do AirBnb parece óbvia, mas está muito longe disso: você consegue ver uma imagem impactante e que diz muito sobre o imóvel ao mesmo tempo em que outras informações imprescindíveis estão na tela: valor, localização, avaliações — tudo claro, limpo, sem entraves.

2. O like do Instagram

Se você é um heavy user de redes sociais (e eu sei que você é), provavelmente já tentou curtir fotos do Facebook no seu celular dando dois toques rapidamente na tela (e eu sei que você já tentou). Bom, essa microinteração brilhante não existia antes do Instagram. Já pensou quantas lacunas existem para que outras microinterações incríveis ainda sejam criadas? Que tal começar a pensar em algumas?

3. O robô do Slack: slackbot

Se você já usa o Slack e gosta de analisar interfaces, é provável que já tenha se apaixonado pela ferramenta: a linguagem é incrível, a experiência de onboarding é sublime e o produto como um todo nunca tenta empurrar comportamentos desconfortáveis para seus usuários. Mas o slackbot, o robô do planeta Slack, é simplesmente incrível. Ele responde perguntas relativas a todas as funcionalidades disponíveis e também pode ser programado à critério de seus usuários, disponibilizando inúmeras informações pertinentes ao dia a dia da empresa ou de projetos específicos. Uma mão na roda incrível para a comunicação entre equipes de trabalho.

4. Os fluxos caóticos de uso do Snapchat

Arrasta a tela pra cá, puxa pra cima, uma tela de abertura nada óbvia e o sequestro do botão voltar: o Snapchat provavelmente foi, um dia, o terror de qualquer especialista em UX. Mas ele está aí para provar que a ousadia pode criar novos padrões e — se o objetivo final for sedutor — as pessoas podem estar dispostas a entender todo um novo contexto de uso e navegação. Se o seu produto for suficientemente interessante para um nicho, por que não desmontar as regras?

Talvez a gente não possa acabar com a normose que domina nossa vida fora das telas, mas começar este exercício na criação de experiências de navegação realmente incríveis pode ser um bom começo. Bóra?

Não existe nada tão mau, selvagem e cruel, na natureza, quanto os homens normais.” Herman Hesse