Estressado, John Anderton?

No capítulo “Carros cautelosos e cozinhas rabugentas” de seu livro “O design do futuro”, Don Norman faz uma interessante análise sobre o relacionamento simbiótico, de que maneiras esta parceria acontece, e até que ponto esta abordagem pode melhorar nossas vidas.

A evolução da internet das coisas nos últimos anos vem em um crescente indiscutível. Atualmente estamos bem próximos de conviver com coisas impensáveis poucos anos atrás, ou talvez pensadas assistindo algum episódio de “Os Jetsons”.

O autor faz uma análise interessante sobre 4 formas de interação natural:
1) Entre pessoas e Ferramentas, 2) Entre o cavalo e o cavaleiro,
3) Entre o motorista e o automóvel, 4) Sobre automatização sistemas de recomendação. Descrevi-as brevemente.


Pessoas e ferramentas

São os pintores, músicos, e boa parte dos artistas. É uma relação onde a ferramenta é uma extensão da pessoa, e o toque dos materiais dá o retorno a ela. Requer competência da pessoa e boa projeção da ferramenta. Quando acontece é uma interação positiva e eficaz.

Cavalo e cavaleiro

Um lê o outro através da leitura corporal, comunicam-se sobre o que vem pela frente. Ambos são sistemas sencientes, ou seja, são capazes de sentir prazer ou sofrimento, e inteligentes. Ela também é uma interação positiva.

Motorista e automóvel

Aqui já é um caso diferente, pois só uma das partes é senciente: a máquina, por mais sofisticada que seja, é incapaz de sentir prazer ou sofrimento. Ela desempenha bem se estiver em um ambiente controlado e a tarefa for muito bem especificada.

Sistemas de recomendação

Esta é a interação menos intrusiva, mais lenta e intelectual, muito usada hoje para recomendar livros, músicas e produtos em geral. Diferente dos três anteriores, não requer treinamento e habilidade. Somos livres para aceitar ou ignorar estas recomendações e algumas ferramentas até explicam como chegaram naquela recomendação, e convidam à edição voluntária, para tornarem-se mais úteis.

“Simbiose é um conceito de relacionamento cooperativo e benéfico.”
(Don Norman)

Quando pensamos em projetar para a vida das pessoas, precisamos entender muito mais do que o contexto de uso, mas também a forma como irá acontecer uma interação natural entre todo o ecossistema, sua abordagem, e se ela realmente atende a uma necessidade.

Projetamos baseados em observações e suposições através de máquinas que não pensam e não sabem o que as pessoas querem. Defendo o ponto de vista que qualquer oferta de melhoria deve estar aberta à recusa. Norman observa: “Se o sistema não prevê o que você tem em mente, basta ignorá-lo”.

O autor questiona ainda: “É possível ignorar uma casa que pisca constantemente sugestões para você sobre o balcão, paredes e pisos?”. Ele também menciona uma situação onde a tecnologia se perde no contexto: a cena do filme “Minority Report” em que, durante uma fuga em um shopping, o policial John Anderton é reconhecido pela leitura da íris e abordado por cartazes eletrônicos que ofertam roupas, liquidações, carros, joias e sugestões para viagem :

“Estressado, John Anderton?”

A questão é projetarmos interações naturais para toda a experiência.
Estamos atentos ao projetarmos produtos e serviços para que eles também possam ser ignorados de forma que não sejam irritantes e nem caiam no ridículo ao se depararem com situações de exceção?

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