Como ser gay na ficção

Eu esperei saírem os dois primeiros episódios de Looking para falar algo. Primeiro por que não sou blogueiro de séries, não tenho obrigação com prazos. E segundo por que não acho que conseguiria avaliar corretamente com base em um episódio apenas. Mas antes, vamos às explicações rasas. Looking é uma série da HBO que retrata a vida de três gays em San Francisco: Patrick, Dom e Agustín. Mas o trailer da série fala bastante por si.
E por que eu demorei pra falar disso? Por que eu quero falar de gays, não apenas de Looking. É inevitável: se você é parte de um grupo, uma tribo, uma classe profissional, o que quer que seja, quando a ficção te representar, sempre ficará faltando algo.
E por que com gays seria diferente? E não é. Vamos começar com o gay de maior destaque no país hoje, o Felix, do Mateus Solano. Inovou por ser vilão sem valor nenhum e, no meio de um roteiro confuso, acabou caindo nas graças do povo e se tornou o mocinho da novela na reta final. Mérito pra comunidade? Sim, sem dúvidas. Mas ainda assim Félix é carregado, caricato, exagerado. Nada que seja muito diferente de um outro gay recente da teledramaturgia, Crô, com a diferença que agora temos um bom ator no comando, o que ajuda muito a ganhar nossa simpatia.
Mas e Looking? Eu gosto de Looking por que ela foge, até certo ponto, de alguns estereótipos. E nem acho que deva fugir totalmente. Estereótipos estão aí para nos identificarmos. Eles funcionam, se bem usados.
Mas Looking não é uma série de bichas normal. Eles não andam falando de Wicked, ou se vestindo de Lirous, ou tendo sexo e mais sexo a cada cinco minutos. É sobre gays e suas vidas. Do modo mais medíocre que isso pode acontecer. Como é quando um gay vai morar junto? E quando marca um date frustrado? Ou quando quer sexo apenas? Algumas respostas são: iguais as de todo mundo. Antes de serem gays, são homens. E antes disso, humanos. E nossas respostas não são assim tão diferentes.
O que algumas pessoas chamaram de pasteurização do gay, eu chamo muito mais de realidade. A gente não vive numa suruba com Colby Keller e Colby Jansen o dia todo (e HTs, não dêem Google nesses nomes!). A gente vive entre contas e obrigações chatas e dates que dão certo e dates que dão errados e inseguranças de relacionamentos e rompimentos que demoram a sarar. A diferença é que é com alguém do mesmo sexo.
E nesse ponto, acho que Looking acerta muito bem. Tem Patrick, todo travado e romântico, tem Dom e seu relacionamento não superado e tem Agustín e os medos de morar junto (e de novidades na relação). Até hoje acabamos por nos identificar com uma das Sex And The City (sou Samantha até a morte!) e acho que Looking nos oferece um pouco disso.
Isso quer dizer que sou IGUAL a Samantha? Não! O mesmo acontecerá com Looking. Nem tudo está ali. E algumas coisas estarão bem de leve. Mas ainda assim, gays como pessoas e não como espetáculo ou como máquinas sexuais estrelando uma série é algo sim a se comemorar. Dá até pra mostrar em casa.



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