Diário do Hodgkin — A Descoberta

Desde quando eu comecei a suspeitar da possibilidade do câncer, que eu tinha uma coisa bem clara: eu ia escrever tudo. Já disse por aqui uma vez que a gente deve perder o medo das palavras. E não ia ser diferente agora. Por isso, vou começar uma série quinzenal por aqui (sim, vai ter muito Hodgkin no blog, já que o tema virou recorrente na vida) contando um pouco das minhas descobertas. Mas vamos ao começo de tudo.

Final de 2016, um inchaço surgiu no meu pescoço. Eu estava cansado do ano, ansioso com a estreia da peça, tudo junto e deixei para lá. O que era um inchaço sem dor deu uma diminuída e a certeza de que era algo irrelevante só cresceu.

Mas o corpo é esperto e inchou de novo e, em um domingo, dia 15 de janeiro, eu acordei com dor. Uma dor bem suportável, provavelmente por ter dormido torto. Mas acendeu um alerta de que poderia ser algo mais sério. Avisei o Thi e fui para a emergência do hospital, pronto para voltar ainda na hora do almoço.

Ao chegar lá, tudo começa a mudar. Um exame de sangue e uma tomografia e zero respostas. Disso veio a sugestão da médica que me atendia “vamos te internar para você ter mais opções de exames? ”. Claro que aceitei. Fiquei lá, internado pela primeira vez na vida, até quinta-feira, dia 19. Exames, mais exames e por fim uma biópsia para tirar um pedaço do até então inchaço e descobrir o que era.

Saí do hospital sem essa resposta. Mas ao menos com o exame feito. Ali a resposta iria aparecer. Isso, ao mesmo tempo que me tranquilizava, me deixava ainda mais ansioso. O cenário poderia ser algo bem simples, ou algo sério.

O diagnóstico

Dia 30 de janeiro chegou o resultado da biópsia. Ou melhor, a primeira parte dele, que afirmava ter um crescimento desordenado de células. A preocupação, é claro, cresceu. Reuni minha mãe e o Thi, para já criar o nosso plano de ação, caso realmente fosse um câncer. Mas não havia mais o que fazer a não ser esperar até quinta.

Ou quarta, que foi o dia que minha ansiedade conseguiu se segurar. Liguei no laboratório, o resultado estava pronto. Ele chegou e estava escrito as tão temidas palavras: Linfoma de Hodgkin.

Sim, eu estava descobrindo na minha mesa de trabalho que estava com um câncer. A reação não foi nada do que eu imaginava que seria. Liguei para minha mãe, liguei para o Thiago, avisei ambos, e fui arrumar a casa. Sim, arrumar a casa. Lavei louça, recolhi roupa do varal, arrumei o sofá. Essas coisas.

Nada de um grande surto e gritos, nada disso. Um pouco de choque? Mas é claro. Mas foi nesse exato instante que eu descobri que as reações que eu esperava ter diante de um câncer não iriam acontecer. Um novo mundo estava se abrindo para mim. E eu ainda não fazia a menor ideia de como lidar com ele.