Diário do Hodgkin — A falta de um ombro amigo

Antes de me xingar, de falar que eu sou ingrato ou qualquer outra coisa, peço que todos leiam esse post até o final, ok?

Doenças não são fáceis. Até uma virose, um resfriadinho, é chato, incomoda, tira a gente do sério. Doenças graves — e o câncer, por menor que ele seja é uma delas — incomodam ainda mais. Te desestabilizam física e psicologicamente.

E tem horas, que tudo que a gente quer é um abraço. Quando eu tornei público que estava com câncer, as demonstrações de afeto vieram de lugares bem improváveis.

Elas me fizeram rir e chorar como não acontecia em muito tempo. Muita gente me mandou mensagem de apoio, querendo me visitar e tudo mais. Eu prometi que, assim que as visitas estivessem liberadas, avisaria. E comecei esse diário quinzenal imediatamente, para informar todo mundo de como as coisas andavam.

A fase complicada passou. Assim como aquela lista enorme de futuros visitantes. Parte do tratamento exige uma auto preservação enorme. Seu corpo está extremamente vulnerável, as restrições alimentares são muitas. Então sim, mesmo eu estando bem, não rolavam encontros em café e, muito menos, bares. É visita na casa do doente mesmo.

E agora, caminhando para o final, eu conto nos dedos o número de visitantes que eu recebi. Algumas visitas prometidas (e falhadas) são de pessoas em tese EXTREMAMENTE próximas (e se você estiver lendo isso, não é indireta para você).

E sim, isso magoa. Isso dá uma sensação de solidão e abandono bem grande em alguns momentos.

Isso dá uma angústia de estarmos abusando demais dos suportes de sempre (no meu caso, minha mãe e o Thi). Mas é isso que a gente tem.

Se você leu até aqui, não precisa se desculpar (aí é com você mesmo Hell Dias). Eu mesmo, quando amigos ficam doentes, não sei como agir. Não sei visitar gente doente. A gente não sabe visitar e lidar com gente doente. Mas precisamos (eu inclusive) saber.

Pessoas ficam doentes. E precisam da gente. Assim como nós ficamos e precisaremos delas. Eu aprendi a minha lição.