Diário do Hodgkin | Acabou!

Se você está lendo isso, saiba que eu estou chorando. Sim, acabou! Pouco mais de seis meses atrás, quando alguém me falava “Ah, fulano tevê câncer e venceu! ” eu pensava “caralho, essa pessoa é mutante demais! Tem que ser muito maduro e forte para passar por isso tudo e sair bem”. Hoje, das duas uma: ou eu sou essa pessoa madura e forte, ou então é preciso que a gente desmistifique mais e mais o tratamento do câncer.

Ao longo desses seis meses, foram muitas as jornadas enfrentadas. A primeira, que é assimilar tudo que está acontecendo. Depois vem a fase de ajustar a vida: o que vai seguir, o que vai pausar, como será tudo durante o tratamento. Passados isso, começa o tratamento em si. Aí surgem novos medos, vários estereótipos caem por terra, assim como outros se mostram até mais aterrorizantes do que eu pensava.

A espera se mostrou algo a se vencer. Espera por respostas, espera por burocracias, espera por entender que tudo tem etapas, espera em hospitais. Aprendi que não estou sozinho, que tenho pessoas fundamentais ao meu lado, com destaque óbvio para o Thi e minha mãe, mas também descobri que é um tratamento muito solitário: as pessoas fogem de doenças (eu inclusive) e não só isso, muita coisa acontece dentro da sua cabeça apenas. E aí, por mais que existam pessoas ao seu redor, depende só de você mesmo.

Aprendi muito em seis meses. Aprendi a me acalmar. Aprendi a controlar a ansiedade. A não ter medo de câncer. Aprendi que xingar é bom de vez em quando, não precisa fingir que está tudo mágico. Aprendi que as minhas forças têm um limite muito mais elástico do que eu imaginava.

E assim eu chego ao fim. Estou curado? Não, ainda tenho dois longos anos de acompanhamento constante até afirmar isso. Mas tenho a fé (sim, é fé mesmo, é uma crença inexplicável) que tudo seguirá bem.

Agradeço a cada um, de perto ou de longe, conhecido ou desconhecido, que dedicou um segundo que seja a pensar no meu bem. Cada pequeno relato era a construção de uma muralha, que me serviu como apoio tantas vezes.

Agora é hora de voltar. Voltar a antigas batalhas. Voltar a criar novas batalhas. E deixar esse ciclo para trás. Não esquecer, longe disso. Até por isso tenho um histórico aqui. Mas deixar ele na gaveta das memórias e aprendizados. De mais uma etapa vencida.

E voltando ao começo: não, a doença não é esse horror que pintam. Mas sim, é horrorosa. Não, eu não sou essa força que vocês me disseram. Mas sim, eu sou forte pra caralho. As coisas são bem mais das nuances do que eu comecei pensando.

Ah, e aqui se encerra o Diário do Hodgkin também. Mas se você veio parar aqui por alguma razão, saiba que eu estou e estarei para sempre aberto a ajudar quem for que passar por essa situação. Só me chamar. =)