Diário do Hodgkin | Existe um fim?

Ainda lembro da primeira consulta, naquele momento bem atordoado com a notícia, quando o cronograma básico do tratamento foi apresentado: exames iniciais, faz a quimio, mais exames, radio se preciso e tchau.

Na prática isso seria só aquele resumo de orelha de um livro do George R. R. Martin. Cada etapa tem suas muitas minietapas. E elas tem suas mini. Eu tentei, ao longo dos meses, resumir um pouco do que eu estava passando nesse processo. Mas acho que, esse último mês foi o mais problemático de todos.

Acabei minha quimioterapia dia 26 de maio. Depois dela veio a fase de exames e disso deveria começar a radioterapia que, até o momento que eu escrevo isso, ainda não tinha começado.

O corpo, que foi piorando a cada sessão de quimio, já se recuperou quase que totalmente. Mas é na cabeça que mora o bicho papão desse tratamento. Câncer é foda. Bem foda. Ele agride o seu corpo silenciosamente. E o tratamento agride de maneira pesada. É quase um contrassenso, né? Mas é a cabeça que exige os cuidados mais constantes.

Primeiro, logo de cara, para derrubar seus preconceitos com a doença. Aí depois para manter a sanidade quando você sente a porrada no corpo e palavras como desistir, desanimar, querer esmurrar a humanidade não podem existir. Ok, podem, mas precisam sumir rapidamente.

E agora entrei na fase mais problema para a cabeça. A quimio acabou, a radio atrasou. Desde o dia 1 de fevereiro, mesmo seguindo a vida, eu coloquei muito em stand by. A hora era a de tratar. Meus momentos eram para o tratamento, para descansar. Aí você se pega, por mais de um mês sem tratar nada, sem sentir nada, mas sabendo que o tratamento deveria estar acontecendo. É pedir para a cabeça criar mil teorias erradas. É se incomodar com a vida parada que você não retomou ainda pois está na espera de um tratamento que deve seguir a qualquer instante.

E aí o que a gente faz nesse cenário? Ah, a gente surta um pouco. Sonha um pouco. Chora um pouco. Mas segue o rumo, que falta bem pouco. E sim, existe um fim. Mas, mais do que isso, aprendi que existem vários finais. E a gente deve curtir melhor cada um deles.

E obrigado a cada um de vocês que está me acompanhando nessa jornada.

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