Diário do Hodgkin — O exercício da paciência

Tratar um câncer, do tipo que for, é um eterno desafio de paciência. Você tem que abdicar de muita coisa, os processos são lentos e, a cada etapa, surgem novas subetapas a serem vencidas. Quer ver só?

Primeiro você faz exames mil para ver se está tudo bem (ok, você tem câncer, bem não está, mas vocês entenderam). Aí você começa a quimioterapia e precisa esperar algumas sessões até saber se aquilo está funcionando. No meu caso, algumas sessões foram dois meses de pura angústia. Aí tive mais quimio. Aí mais exames. Tudo lindo nos exames. Acabou? Que nada.

Tem a radioterapia ainda. Lá no começo, me falaram que a radio seria coisa rápida. No meu conceito de coisa rápida, eu ia sair da quimio e, uns dias depois tomava um banho de radiação, virava o Dr. Manhattan, e pronto: tava livre. Bobinho eu.

A coisa rápida significa começar tudo de novo. Autorização, exames para saber se está tudo ok (não vou repetir a piada) e aí sim sair fazendo o procedimento e torcer para o resultado aparecer.

Mas como estou aqui, na vibe otimista, decidi olhar esse exercício como algo bom. Meu tratamento ao todo vai durar uns seis meses. Vou pegar cada vitória (e o fim da quimio com resultado negativo é uma vitória) e comemorar como se fosse o fim da coisa toda. Quem sabe eu não tenha achado a fórmula para eu ser mais paciente com a vida?