Diário do Hodgkin — Os Mitos e os aprendizados

Câncer, assim como outras doenças graves, é cercado de mitos. Eu, mesmo com casos (assim, no plural) na família, achava que eu estava sabendo de tudo, até descobrir em mim. Na verdade, iria além. Eu achava que sabia tudo, agora vejo que só aprendi uma coisinha ou outra e que, ainda assim, só se aplicam ao meu caso.

Vamos começar pelo básico: os sintomas. Já de cara eu aprendi que ler os sinais do corpo é essencial. Meu linfoma inchou? Sim. Mas isso não queria dizer câncer. Tanto não queria, que os médicos sempre passaram por essa alternativa, mas sem dar certeza só pelo pescoço. Além disso, não é apenas dor e febre que são sintomas. Sabe qual foi o principal sintoma que eu tive? Suor. Isso, eu suava. Mas a gente estava em dezembro e suar era esperado, né? O sintoma só foi identificado depois do diagnóstico.

Depois disso, entram os medos. Assim mesmo, no plural. Câncer é uma doença grave que se trata por quimioterapia e radioterapia. Era isso que eu sabia (e nem isso está exatamente certo). A falta de informação real, verdadeira é gigantesca. Então sinta medo. Muito medo mesmo. Super-herói é o Superman. Você é um ser humano entrando em um terreno desconhecido. O medo me ajudou a ir atrás de informação.

Dor é um outro ponto. Eu nunca senti dor física alguma diretamente ligada ao câncer. Nem antes de descobrir — a dor que me levou ao hospital era mais de uma noite mal dormida mesmo — e nem durante. Só senti na região das cirurgias (fiz uma para biópsia e uma para implantar o cateter). Isso não torna a sua doença menor que a de alguém que não sente, ok? Seu corpo só lida de um jeito diferente.

Quimioterapia é outra coisa que já falei em um post sobre isso exclusivamente, mas não custa nunca reforçar: não é um bicho de sete cabeças. É uma medicação. Agressiva pra caramba, incomoda depois os efeitos colaterais, mas é só uma medicação. Mesmo no meu caso, que os efeitos seguem sendo leves, ainda é chato. Mas não é o apocalipse.

Alimentação é um campo que, se você for ler pela internet, vai ficar completamente perdido. Hoje eu acordei, tomei água com limão, meu chá de todo dia, comi um caqui e pão com requeijão e queijo. Antes do almoço comi bolacha salgada. Almocei filé de frango, batata no forno e vagem na manteiga. Viu? Se você ler isso, vai ignorar a lista de restrições chatinha que eu tenho. E é assim mesmo: as restrições vão sim existir e aprender como lidar com elas e ainda assim comer bem e gostoso é fundamental. Pergunte para o médico exatamente o que pode e o que não pode. E se joga no que pode e é gostoso. Deixa a dieta para depois.

Por fim, para quem chegou até aqui, vou muito bem, obrigado, para uma pessoa com câncer. Até o momento meu corpo está aceitando a quimio muito bem, os efeitos são chatos, mas passam, e as restrições já foram quase que incorporadas na rotina. Tirando a falta que me faz ir ao cinema. Essa eu nunca vou incorporar.

Mas o mais importante disso é: esse é o meu caso. Há casos melhores e a casos piores. Mas a lição maior já veio: câncer dá sim para enfrentar de cabeça erguida.