Diário do Hodgkin — Os Primeiros Passos

No primeiro post dessa série eu falei sobre a descoberta. E descobrir, mesmo quando é esperado, não é fácil. Por isso, os meus primeiros passos não são meus, são dos outros. Mais especificamente da minha mãe e do Thi.

O choque de descobrir um câncer (ou alguma outra doença séria) é estranho e, se eu deixasse apenas nas minhas mãos, talvez ainda estivesse agendando um médico. Mas foram apenas 24h entre a descoberta e a primeira consulta. Longas 24h.

A primeira consulta, para continuar minha saga de descobertas, foi longe do que eu esperava. Na minha mente eu estaria diante de um médico que iria falar horas e horas a fio sobre o tratamento, os riscos, os cuidados que deveria tomar e como a minha vida iria mudar dali por diante. Ledo engano.

O que eu encontrei foram médicas que basicamente me fizeram as perguntas que me levaram até ali e pronto: acabou. A hora era de ação. E que fique claro, aqui não há uma crítica, mas um elogio.

Entre a primeira consulta e a primeira sessão de quimioterapia, se passaram apenas quinze dias. Eu conheci casos que demoraram meses. E em quinze dias eu deveria fazer exames de basicamente T U D O que poderia ser afetado pelo câncer ou pela quimio. E sair recolhendo todos os exames já feitos recentemente em outros hospitais. Mais do que uma espera sofrida, aquilo se tornou uma maratona.

E isso me ajudou muito a não ficar chorando. O tempo era curto e eu precisava fazer muita coisa para estar pronto para a sessão. E eu consegui. Isso significa que deixei as lágrimas de lado? Longe disso. Chorei — e ainda choro — bastante. É a porra de um câncer. É algo grandioso a se cuidar.

Mas eu choro quando paro, quando desligo. No restante do tempo, o que mais me importava era cuidar de tudo. Ao final de quinze dias, sete outras visitas ao hospital, eu tinha feito todos os exames, recolhido tudo que precisava e, a cada procedimento que eu passava, uma nova informação era apreendida. Mais do que uma aula de câncer, as coisas são como um quebra-cabeças que vai se montando aos poucos. Um tremendo exercício para a minha ansiedade que, aparentemente, está até mais sob controle.

Só faltavam duas coisas: o cateter (que eu falo depois com calma) e a tão temida quimioterapia. E eu estava pronto para ela. Ou pelo menos achava que estava.