Diário do Hodgkin — Vamos falar de cabelo?

No meu plano original, essa semana eu falaria sobre as sessões de quimioterapia e as descobertas que elas trouxeram, afinal, parei bem nesse ponto no post sobre Os Primeiros Passos. Mas um fato aconteceu nesse meio tempo e eu achei mais interessante falar dele agora e depois eu volto para as quimios, que ainda seguirão na vida por alguns meses.

Sim, vamos falar de cabelo. Quando a gente fala de câncer, ele figura no Top 3 pensamentos de muita gente. No meu, inclusive. Câncer faz cair cabelo. Câncer faz a gente escutar a música da Lara Fabian na nossa mente sem parar.

Mas comigo a coisa começou um pouco diferente. Ainda na primeira consulta médica, quando os efeitos colaterais da quimio foram tratados, a médica disse que eu não deveria perder cabelo e, se perdesse, seria pouco. Nem hesitei e disse: ah, mas isso não é um problema para mim. Mas era.

Saí de lá contando para todo mundo os efeitos colaterais e como as chances de perder o cabelo eram baixas (para a decepção dos meus amigos e seu senso de humor peculiar). Estava até certo ponto tranquilo com a possibilidade — mesmo que remota — de perder o cabelo. Ou eu achava isso.

No fundo, fui perceber depois, o medo esteve sempre ali. Meu cabelo, quando comecei o tratamento, já estava na altura para cortar. Mas eu postergava, afinal, “vai que cai, né? Deixa ele aí”. E assim, sem notar, fui deixando ele por medo de perder.

Até que, pouco depois de uma sessão, comecei a notar uma ou outra queda. Mas nada demais. Eram fios a mais que caiam quando eu ia lavar, só isso. Uma noite (9 de março, para ser exato), estudando na minha cama, comecei a mexer no cabelo como sempre fiz e caiu alguns fios. Limpei. Caíram mais alguns. Limpei. Mais outros. Foi ali que eu notei que eles de fato estavam caindo.

E aquela hora o medo bateu. E eu chorei. Chorei desesperadamente, como ainda não tinha chorado desde então. Chorei com um medo real que me assustava, me tirava o ar, me fazia ficar completamente transtornado. Arrisco dizer, que foi o maior medo que eu senti desde que tudo começou.

Cada caso é um caso e, no meu, a perda de cabelo nunca esteve diretamente ligada à vaidade. Não ligo de ficar com o cabelo baixo, inclusive eu gosto. A perda do cabelo ali era algo maior, era (e é) um sinal visível de que eu estou com câncer. Era (e é) um sinal visível da fragilidade do meu corpo que eu tanto me orgulhava até então. Era um sinal visível de que somos fracos, temos sim prazo de validade. Um sinal claro e indiscutível que meu corpo estava falhando (e sim, ele está! A medicação ataca ele todo e as coisas falham, faz parte do processo).

Demorei ainda dois dias para raspar, bem baixinho. Não coloquei Love By Grace para tocar. Não chorei nenhuma lágrima dessa vez. O medo que eu sentia, ao me olhar no espelho, mudou. Não é só um cabelo que cresce. Segue sendo um sinal indiscutível de que estou com câncer. Mas é um sinal ainda maior que eu sou forte. Que eu sou capaz de lutar e vencer. Coisa que eu não acreditava até então (mas explico em outro post sobre isso). E estou conseguindo.