Diário do Hodgkin — Vamos falar sobre coragem?

Antes de começar esse diário, quero falar de como estou. Bem, obrigado. Depois que as coisas entram em uma rotina de atividades (e você para de se perder dentro do hospital), as novidades ficam como os cabelos: rareando. Sigo indo em quimios, visitas esporádicas aos médicos, alguns exames e o fim desse ciclo se aproximando, quando finalmente algumas novidades surgem. Mas o tema aqui é coragem.

Nunca me enxerguei como uma pessoa exatamente corajosa. Para mim, eu sempre segui um roteiro muito bem estabelecido do que deveria ser a vida. Hoje, fazendo um retrospecto eu enxergo alguns atos de coragem, como os anos de sacrifício do cursinho, mudar sozinho para São Paulo, sair do armário. Mas de um modo geral, eu nunca me classifiquei como corajoso. Era algo adulto demais para mim.

Até vir o câncer. Quando eu descobri, contei para as pessoas mais próximas, fiz junto com minha mãe o trabalho de avisar toda a família e pronto: tornei absolutamente pública a doença e o tratamento. Tenho para mim que passar por isso não é castigo por nada.

Aliás, vamos fazer um parêntese. Câncer é uma doença. Como várias outras. Vamos parar de falar que as pessoas têm por castigo por algo feito de ruim na vida. E se descobrir o câncer e estiver lendo isso, não gaste seu tempo procurando onde no passado errou para ter câncer. O que mais tem são casos de genes que se desenvolveram errado, só isso.

E como eu acredito que falar me ajuda e pode ajudar mais gente, eu falo. Sem o menor pudor. Quem quiser pode me perguntar a coisa mais indiscreta e eu vou responder. E foi por isso que comecei a ouvir aqui e ali que eu era corajoso, de estar enfrentando o câncer, de estar falando disso, de estar levando tudo isso de cabeça erguida.

Agradeço, de verdade, a cada um que me disse isso. No começo, inclusive, eu negava. Tenho outra opção que não tratar? Isso não é coragem, é necessidade mesmo.

Mas com o tempo a resposta foi vindo: mas é claro que eu teria outra opção. Entregar os pontos e seguir a vida, enquanto ela durar é sim uma opção. Levar tudo sem falar é uma opção também. Eu fico muito em casa, era até bem simples de esconder. Levar de cabeça erguida e com otimismo é algo que é feito sim de maneira bem consciente e, principalmente, colocado a prova quase que diariamente.

Aos poucos, o que eu achava que era agir por necessidade, por reflexo, se mostrou uma coragem que eu não enxergava em mim e agora eu enxergo. Coragem de fazer uma escolha que podia soar óbvia, mas não era: coragem de encarar a doença de frente e dar a ela o peso que ela merece. É, eu sou corajoso e não foi o câncer que me ensinou isso. Foram vocês.