Diário do Hodgkin — Vivendo (bem) no escuro

Vamos começar esse post fazendo aquele tradicional resumão, né? No momento que escrevo isso, estou bem, obrigado (e é bom continuar, ou vira aqueles posts premonição mórbidos e eu só sou organizado e escrevo as coisas antes). As quimioterapias seguem acontecendo, com os efeitos de sempre, sob controle. Eu disse que era um mundo bem sem novidades quando se entra no ritmo.

E é justamente sobre isso que eu queria falar hoje. Quando tudo começou, eu fiz aquela maratona de exames, uma correria enorme para começar a quimioterapia bem. E aí ela começou. Não me lembro se disse, se já serei redundante, mas a cada sessão de quimioterapia eu faço exame de sangue antes, para saber se está tudo bem e começar a receber a medicação quinzenal.

Mas são exames de sangue. Eles avaliam se as contagens estão boas (e sempre estão!). Mas e o câncer em si? Bom, esse a gente fica um bom tempo no escuro. No meu caso, dois longos meses. Foi esse o intervalo de tempo entre um exame que verifica como ele está e o segundo. Dois meses. Ou dois ciclos de quimio. Ou quatro sessões.

Bastante tempo para alguém em tratamento de uma doença séria, não é? Sim, eu acho. Mas a medicina discorda e eu sou bem obediente em meu tratamento. Mas e aí, como seguir com o tratamento no escuro, sem uma resposta se as escolhas são as certas?

Eu encontrei as respostas em mim mesmo. O primeiro item, claro, foi a confiança. Não em mim, mas na medicina, nos médicos, no hospital. Sem isso, a vida seria um eterno questionar as coisas para si mesmo e não encontrar respostas. Então, questione os médicos. Pergunte tudo, cada detalhe, cada dúvida por mais idiota que possa parecer.

Inclusive, se for idiota, tudo bem também. É a sua saúde, a sua vida que está em jogo, você tem todo o direito de ter as dúvidas que quiser.

O segundo passo é o tal do otimismo. Sim, ele é importante mesmo e todo profissional que eu passei me falou isso. Seja otimista que está andando, brinque de contagem regressiva com suas sessões — mesmo que depois mude — enxergue o lado positivo até em algo bem ruim. Eu sempre digo para mim mesmo, em semana de quimio, que vai ser uma semana mais curta. Algo bom no meio daquilo tudo.

O terceiro passo são os pequenos sinais. Sai da fase de agendamento com a meta de anotar tudo que eu sentisse dia a dia. Falhei miseravelmente e anotei um total de zero dias. Mas eu passei a reparar em cada coisinha do meu corpo. Reparei que o inchaço do pescoço sumiu entre a primeira e a segunda sessão. Reparo como os efeitos colaterais se dão a cada sessão. Reparo que alimentos me ajudam a reduzir esses efeitos. E, o mais importante, reparo na estabilidade. Meu corpo se manter estável nesse processo tão agressivo já é um bom sinal.

E tudo isso vai alimentando a cabeça de pequenas respostas até os exames reais. E que, no meu caso, foram bem otimistas. Então, vamos seguir na contagem!