Eu ando com medo

Eu nunca fui de sentir medo na rua. Medo de assalto sim. Mas de homofobia, não. Sou branco, cis, até grandinho, coisas que me ajudam a ser bem mais privilegiado que a média. Mas, por bloqueios pessoais, ainda não sei andar de mãos dadas com meu marido.

Por muito tempo eu dizia que é por falar muito usando as mãos. Balela. É o medo irracional de apanhar e ser agredido mesmo. Mas, de uns tempos para cá (e a gente sabe exatamente desde quando), eu passei a ter medo.

Esses dias fui ao cinema e, voltando pra casa, pouco mais de dez da noite, eu me peguei com medo na rua. Duas quadras de distância da minha casa e eu andando assustado.

Ratos (e fascistas) sempre existiram. Mas agora eles saíram do bueiro. E não é que estão saindo. Eles já saíram, independente da eleição do fascista (e quando você ler isso, ele pode já estar eleito).

O preconceito sempre existiu, não é uma criação dele. Mas existia uma coisa, especialmente no cidadão médio, que os reprimia de falar abertamente que são preconceituosas. Faltava um aval. E esse aval veio. Por que raios a pessoa iria se podar de ser preconceituosa de um candidato a presidente é e tem muitos votos?

E a gente sente medo. Eu sinto. Meus amigos sentem. Sair na rua tem ficado cada vez mais assustador. A gente vai desistir? Não, não vai. Já lutamos para nos aceitar e para sermos aceitos. Não vamos regredir. Com medo, mas vamos em frente.