Mar

Respirei fundo, bem fundo mesmo. Aquela lufada de ar que enche os pulmões e fazem a gente estufar o peito. Quanto tempo que eu não sentia esse cheiro? Essa maresia que mistura sal, peixes e protetor solar?

Nojento? Não para mim. Nesse momento eu tive um reencontro com um irmão perdido no passado. Com aquele eu que gostava de fazer castelos de areia, de chutar areia nas pessoas, de passar correndo no meio de uma partida de frescobol desviando da bolinha com a agilidade que só a infância permite.

E com os pulmões bem cheios eu corri. A areia grudava úmida entre os dedos e retardava meu movimento. Mas nada disso me impedia de esvaziar o pulmão, encher de novo e seguir correndo em direção ao mar.

A água tocou os pés empanados com uma temperatura fria. Desagradável em outros tempos. Mas ali foi um choque de liberdade tão grande que nem me importei. Continuei correndo, as pernas erguendo alto para desviar do mar que me retinha até não mais conseguir. E me joguei.

O mar calmo me envolvia, me trazia uma serenidade que eu nem lembrava mais ser possível sentir. Como uma toalha macia pós banho, a água gelada do mar me acariciava e me lembrava de quem eu era. De quem eu achei que tivesse esquecido, mas sempre esteve ali, a um mar gelado de distância.