O que faço com meus privilégios?

Esses dias um amigo me perguntou, para um trabalho dele, quais as principais agressões que eu sofri por ser gay. E isso deu uma travada enorme na minha cabeça. Eu não lembrava de nada.

Aqui acho que são duas coisas distintas (ou não tão assim): a primeira é a minha auto-defesa. Tenho uma tendência enorme a sufocar memórias ruins, traumas e afins. Eu preciso voltar a fazer terapia e remexer nisso, para com certeza encontrar coisas soterradas.

E a segunda, e não menos importante, é que eu sou privilegiado. Claro que sofri bullying na escola. Claro que me senti rejeitado, excluído, tudo isso. Eu sou de uma geração que se descobriu gay ainda sem internet. Referências? Não tinha! Aliás, fui entender a importância disso já na faculdade, já morando em São Paulo.

Mas ainda assim foi (e é) tranquilo. Em família, eu me assumi de verdade para minha irmã e minha mãe. O resto eu simplesmente tratei com naturalidade e eles trataram igual. Se alguém tinha algum preconceito, eu nem notei. Com os amigos? Ah, me respeita, fiz faculdade pública de comunicação. Cercado de gente de humanas que encarava de boa.

Sou branco, bem padrão, tenho uma situação financeira confortável. Nunca sofri nenhuma agressão violenta nem física e nem psicológica. E aí comecei a pensar: o que eu faço com esse meu privilégio? Pois é, nada.

E não posso ser assim. Ainda não sei o que fazer, mas a pulga já está atrás da orelha. Preciso usar meus interesses, meus talentos, a favor de uma causa. Vamos ver como…

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