Tatiana era jovem

Em conversa recente, eu repensei os meus motivos para querer ser comunicador. E nesse papo, voltou um pouco dos antigos sonhos de escrever ficção, publicar livros e coisas assim. E a Tatiana nasceu disso. Um pouco dessa vontade de extravasar, de exercitar esse lado. Um texto, a abertura para muitos outros. E para um projeto maior que está por vir. Espero que gostem.

Tatiana era jovem. Não dessas jovens baladeiras que saem e voltam com o dia amanhecer. Era dessas jovens tranqüilas, que gostam de andar pela movimentada Avenida Paulista aos domingos sentindo o vento no rosto e o sol queimar a pele de leve.

Gostava de chegar ao seu destino, buscar sempre um bom livro e ali se perder naquela fantasia que não era sua, mas que, por algumas horas, se tornava. Uma jovem donzela em busca do amor. Um pequeno ser que tem como missão se livrar de um anel. Uma menina de cabelos ruivos. Uma diva do cinema com final trágico. Não importava a vida que era vivida, Tatiana apenas as vivia.

E em uma dessas viagens ela viveu a pior das vidas. Aquela que ela jamais esperava viver. Ela viveu a sua própria vida. Alguém que vivia para seu trabalho, para suas obrigações. Uma enfermeira extremamente competente no que fazia. Até demais. Uma enfermeira que saia do trabalho e ia até a casa dos seus pais, onde morava. E que jantava e via um pouco de TV e dormia. O ritmo do plantão foi puxado.

Uma enfermeira cujos amigos ela pouco mais sabia do que seus nomes. Mas ela sabia o turno de cada um deles, afinal era nesses momentos que se viam. Sua diversão, aos domingos imersa em livros de repente se tornou chata, menor. A livraria se revelou um lugar barulhento, cheio de gente apenas pelo passeio e pouco pela literatura. A avenida, um lugar cheio de sujeira de animais que donos sem educação alguma deixam pelas calçadas. E o sol, revelou um calor e um suor incômodo.

Mas Tatiana não se importou e seguiu. Andava cada vez mais apressadamente, cada vez mais acalorada, mais suada, mais angustiada, mais desesperada. E nesse estado ela caiu. Não apenas a queda física, que lhe causou as duas palmas das mãos raladas, mas a queda de sua alma, a queda de si.

Amparada por um jovem que passava, Tatiana fez a única coisa que conseguiria fazer naquele instante. Se levantou e correu. Para longe da Avenida movimentada, para longe da livraria. Na segunda seguinte, ela trabalhou.


Originally published at andresobreiro.com.br.

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