Matteo Pugliese "ZEITGEIST"

Mundo Ideal x Liberdade

Do autoritarismo ao respeito

Todos temos uma idéia de mundo. Aliás, temos várias. E vamos além, temos uma idéia de como é família, relações de amizades, casamento, religião, criação de filhos. Temos uma visão de mundo interior, sabemos com certeza como faz para ter um mundo melhor. Com CERTEZA!

E daí vem o outro. Aquele chato que tem também COM CERTEZA outra visão. Um é de esquerda, outro de direita. Um lê Marx e Gramsci, o outro lê Scruton, Keynes. Ainda outros preferem ler Rousseau, Kant, Nietzsche, Sartre, Foucault, Chomsky, Bíblia, Alcorão, enfim, o que lhes servem. A maioria não lê nada, talvez um livro e meio a vida inteira, mas ainda assim tem fortes argumentos para suas idéias. E claro, todos vivem um vida e tem suas próprias experiências, o que é fundamental para formar uma opinião, criar valores, ter uma idéia de ideal. O ponto é que o outro, o que está fora do seu alcance (ou seria domínio?) e é contrário às suas idéias, causa um enorme mal-estar em você.

Daí pensamos em nós, seres humanos, e a coisa do ideal começa azedar de vez. Nunca haverá um mundo ideal, especialmente porquê esse mundo ideal é individual, único, exclusivo da cabeça de cada um. Por mais que eu ache que tudo que eu penso, ou pelo menos das coisas que “tenho certeza”, seja o melhor para mundo, certamente haverá de aparecer rapidamente alguém que discorde frontalmente sobre tudo, absolutamente tudo que eu penso. Haverá de ter argumentos fortes que arraste multidão, haverá ainda te me taxar de várias coisas. E esse ganhando encontrará, tão rápido quanto ele próprio surgiu, outro que acabará com suas verdades, e que essas novas verdades ainda serão diferentes daquelas minhas. É um ciclo sem fim.

Mesmo num texto como esse, eu já tenho dificuldades para não querer impor minha idéia de mundo, embora qualquer idéia de existência já é uma idéia de mundo. Vou procurar me ater apenas em fundamentar esse ponto: somos seres únicos, variáveis, mutáveis em parte, imutáveis em outras, formados por uma teia complexa que envolve biologia (genética, sobretudo), psicologia, experiências, primeira infância, traumas, frustrações, amores, decepções, conquistas, conquistas hiper valorizadas, autoestima, autoconfiança, negação, formação religiosa, medos, ego, egoísmo, egocentrismo, altruísmo, raiva, paixões, projeções, entre tantas, tantas outras coisas que certamente nos constituem. Somos seres biológicos, sociais, espirituais, econômicos, racionais, animais, dinâmicos em constante formação e mutação (pelo menos em parte). 
 
 O que somos, ou como existimos, é uma relação entre nós (o ser) e o outro (o objeto). Essa relação do indivíduo com o objeto é um relação de submissão do objeto para com esse indivíduo. Ou seja, não é o que o objeto é, mas é o que ele é para esse indivíduo (o ser). Ainda mais resumido: tudo que é só é para quem sente e vê. É uma interpretação individual, portanto. Somos somente aquilo que somos capazes de entender, ou melhor, que nosso intelecto é capaz de representar. E “representar” já significa individualizar um sinal, um código.

Ainda com tudo isso, há dois pontos, dois imensos pontos que mudam absolutamente tudo: o tempo e o espaço. Toda representação humana, toda relação do indivíduo com o objeto, seja para querer, seja para entender, seja para sentir, estarão sempre sujeitos ao tempo e ao espaço, que precedem todo o resto (intui).

De tudo, ainda temos como fonte determinante, a natureza, nossos próprios instintos. São eles que acabam muitas vezes vencendo, prevalecendo sobre nossa própria razão. Podemos chamar isso de “vontade”, que muitas vezes nada tem a ver com a razão pura, ou é uma soma da razão com a natureza humana. A vontade é imaginativa, por vezes inatingível, uma ficção, mas que nos move. 
 
 Dentro de toda essa complexidade encontramos nós -o um- indivíduos, formando uma sociedade. Nossa natureza não é exatamente gregária, mas nossa razão é; dependemos da vida em sociedade para sobreviver. Nosso desejo de mundo, nosso ideal, corresponde apenas a algo individualizado, fechado. Quando isso ganha poder (poder mesmo, aquele de decidir de fato), o perigo se apresenta. Um ser de natureza autoritária, que tem sua “verdade” como a única, extremamente egocêntrico, traz para todos os outros um grande risco. Não há nem necessidade de contrariar uma pessoa assim, ela certamente irá perseguir tudo que se opor à sua idéia de mundo. O ser tirano nada mais é do que um ser idealista com poder absoluto.

Matteo Pugliesi

Nesse cenário tivemos muitos exemplos catastróficos, de direita, de esquerda, autocrático, aristocrático, teocrático, tanto faz. Basta um ser com poder acreditar que seu mundo ideal é o único que deve existir. De reis à papas, de ditadores à presidentes, de pagãos à religiosos, sempre tivemos exemplos de indivíduos que ignoraram a pluralidade da humanidade e dizimaram milhares de vidas, perseguiram outras milhares, e se impuseram sobre todos que ameaçassem seus mundos. Não há exclusividade de ideologias para terem provocado muito derramamento de sangue.

Todos temos uma certa potencialidade para sermos, ou nos tornarmos esses seres autoritários. Todos nós manifestamos nosso ideal de mundo, recusamos o ideal do outro. Damos ainda uma pequena demonstração do que poderia ser se tivéssemos de fato como escolher para todos como seria o mundo, quando deletamos alguém de nossas redes sociais. Às vezes, nós verdadeiramente dizimamos centenas de “vidas digitais” que têm opinião contrária à nossa. Claro, todos temos nossos limites e tolerância sobre o que queremos enfrentar. Às vezes deletar alguém significa também apenas respeitar nosso próprio espaço ou evitar conflitos maiores e desnecessários. E sabemos que isso também significará manter o espaço do outro. Mas muitas vezes o desejo em deletar é o de sumir com aquilo do seu mundo, com o contraditório, com diferente, com o que você repulsa, mesmo que essa pessoa não tenha lhe incomodado com frases diretas nem nada.

Outro ponto é que buscamos sempre alguém que represente esse nosso "mundo ideal". Mais até, que monte esse mundo tal qual sonhamos. Como se fosse possível que o outro, seja quem for, montasse esse nosso mundo imaginário à perfeição do nosso ideal. Essa busca por esse tipo de "homem ideal" ajuda a potencializar as diferenças muito mais do que trazer equilíbrio. Por exemplo, o que vemos no Brasil nos últimos anos confirma esse pensamento. A busca do representante herói, seja um homem, seja um sistema representado por um partido, ou uma instituição, como religião ou justiça, acaba por nos dragar para esse campo dicotômico e utópico. 
 
 Escrevo toda essa reflexão para apenas que cada um de nós (eu também, claro) possamos entender que jamais devemos ter a certeza de que o que pensamos como mundo é o mundo melhor para todos. Nunca será, jamais será. Por isso, defender a liberdade é um valor importante para mim. A liberdade que, segundo Friedrich Schiller (1759–1805), é traduzida apenas na capacidade de não nos deixarmos escravizar. Nisso, entenderemos que toda lógica é uma razão excludente, por ser algo que conclui a partir da eliminação de várias possibilidades e ainda sob um ponto de análise dentro da razão limitada pela experiência. Não há sentido em acharmos que a nossa verdade sempre é boa para o outro. A própria linguagem é uma redução, ela limita, encaixota, declara não só o que é, mas principalmente o que não é. A grande política da linguagem, tão bem elaborada por Nietzsche (1844–1900) e tão fascinantemente organizada por Viviane Mosé (1964 -), demonstra que o que transmitimos em uma linguagem é uma enorme redução individualizada do mundo.

Parece complicado — e é certamente — mas é apenas para dizer quando acusamos o outro e tentamos impor nossa própria ideologia, estamos sendo tão brutalmente autoritários quanto a própria idéia do outro. Eu faço isso, e todos fazemos. Logo, procurar compreender que tudo que nós lemos, vivemos, vemos, sentimos, ou mesmo desejamos, é apenas uma interpretação individualizada e exclusiva do outro (que é o objeto, o mundo, o outro indivíduo, etc). Sempre será impossível ter a exata perspectiva do outro, é impossível ser o outro. As mensagens de acusação que vejo o tempo todo nas redes sociais sobre o outro tem quase sempre um caráter autoritário querendo impor seu mundo ao outro. Tanto faz se você bateu panela ou se você apitou vestido de vermelho na Paulista. Tanto faz se quem você defendeu lhe decepcionou ou correspondeu às suas expectativas. Cobrar o outro sobre as decisões dele, é autoritário.

Evidente que há uma diferença entre um debate de idéias onde se confronta as mesmas mas que se respeita o espaço do outro, e aquele que pretende aniquilar a idéia do outro. Estabelecer que há diferença entre Valor e Ideal, sabendo que o primeiro é constituição e ação de vida, aliás só validado pela presença real dele na vida vivida e passada; e o segundo é o que não se viveu, mas o que se quer viver, quase sempre utópico. Um é a prática, o outro é o ilusão. Um ideal pode vir a se realizar, claro. Já um "mundo ideal", jamais.

O que apenas precisamos é de respeito, empatia e liberdade. Buscar a paz desejando que o outro também a tenha. Sei que queremos um mundo melhor, mas talvez seja hora de entender que esse mundo jamais irá existir sem que ele seja pior para muitas outras pessoas. Talvez seja hora de apenas vivermos nesse mundo mesmo, achando nosso espaço nele, respeitando o espaço do outro, e desejando que o outro tenha esse espaço também. Liberdade e segurança jamais estarão do mesmo lado na balança. Saber encontrar o equilíbrio talvez seja um dos maiores desafios da humanidade. A segurança é aquilo que nos põem em um lugar ideal, sem medos e ameaças daqueles que o modificam. Mas romper a barreira do outro é transgredir a liberdade. Talvez o equilíbrio esteja em saber se estabelecer sem que invada o espaço do outro e sem que tenha seu próprio espaço invadido. Assim, todo ideal deve ser individual e não pode ultrapassar os limites do outro. E se você discorda dessa minha mensagem, você está certo também, apenas não me mate por isso.

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