O que é conto?

O mundo está cheio de textos a serem lidos. E é graças aos gêneros que podemos identificar os diferentes textos espalhados por aí. Ao longo das próximas semanas o Book4You vai explorar um pouco dos gêneros literários para que você os conheça melhor e possa, cada vez mais, não julgar um livro apenas pela capa. Neste post, vamos falar sobre o conto.

Acredita-se que 'As Mil e Uma Noites' seja um dos precursores do conto. (Foto: Reprodução)

O conto pode ser considerado um dos primeiros gêneros literários, isso por conta de um motivo simples: as primeiras narrativas, ainda na tradição oral, podem ser consideradas contos. São aquelas histórias sem um único autor conhecido, passadas de boca a boca e transcritas de acordo com as diversas culturas. Um exemplo é 'A Bela e a Fera'.

Já o conto no sentido que conhecemos hoje, o conto moderno, também surgiu no contexto da Revolução Industrial, tal como o romance, mas já para o século 18. Isso porque as novidades trazidas pelas mecanizações transformaram o cotidiano humano (o que também abriria espaço para as crônicas, assunto do próximo post).

É nessa época que os contos deixam de ser uma narrativa contada de geração para geração e passam a ser uma criação autoral. Essa mudança é muito creditada a Edgar Allan Poe, que passou a utilizar bastante esse formato. Segundo ele, os contos têm uma "unidade de efeito": tudo na história converge para essa unidade, que é um único conflito, acontecimento, que precisa ser intenso e deve ficar muito claro para o leitor logo no início ou no final da narrativa.

É por isso que o conto é uma narrativa curta, geralmente muito menor que um romance, afinal, tudo deve estar voltado para um acontecimento único, com um número de personagens reduzidos — apenas aqueles necessários para o desenvolvimento da história. Em um conto, tudo deve estar muito bem amarrado e ser conciso.

Outra característica é que o conto é muito carregado de drama, o que fica evidente no final. Contos devem acabar com um contra-gosto, uma provocação. O escritor Julio Cortázar, um dos maiores nomes da literatura argentina, certa vez comparou o boxe à escrita de contos, pois estes devem provocar um "nocaute" no leitor:

Conto é fotografia. Romance é cinema. O romance vence o leitor por pontos. O conto vence o leitor por nocaute.

Para provocar essa sensação, a intensidade é fundamental:

[…] o único modo de se poder conseguir esse sequestro momentâneo do leitor é mediante um estilo baseado na intensidade e na tensão, um estilo no qual os elementos formais e expressivos se ajustem, sem a menor concessão, à índole do tema, lhe deem a forma visual e auditiva mais penetrante e original, o tornem único, inesquecível, o fixem para sempre no seu tempo, no seu ambiente e no seu sentido primordial. O que chamo intensidade num conto consiste na eliminação de todas as ideias ou situações intermédias, de todos os recheios ou frases de transição que o romance permite e mesmo exige.
Julio Cortázar, no ensaio “Alguns aspectos do conto”, publicado no livro 'Valise de cronópio'

Na próxima semana, falaremos da crônica, gênero de tamanho reduzido como o conto, mas com várias particularidades. Se quiser conhecer alguns livros de contos, veja esta lista do Book4you.