A “mídia alternativa” frustrou-se e com ela os seus leitores

Que a internet possibilitou novas práticas de comunicação, ninguém tem dúvida disso. Por algum tempo a esquerda parece ter feito um bom uso destas novas ferramentas, de tal forma que ao longo da primeira década dos anos 2000 sugiram diversos veículos dedicados a uma pauta alternativa à dos grandes veículos.

Esta conquista, no entanto, não demorou a frustrar-se. Os canais surgidos no decorrer dos últimos anos parecem ter assumido uma postura de diário oficial petista, dedicando parte considerável de seu espaço a fazer uma defesa despudorada e oportunista do partido de Lula e Dilma.

Que Fórum, Brasil 247, Conversa Afiada, Viomundo, Diário do Centro do Mundo e tantos outros nasceram com um propósito claramente alternativo e de esquerda, isso é muito claro. O problema, no entanto, reside no fato de que para os profissionais destes canais a esquerda se resume ao PT, frustrando a possibilidade de exploração mais extensa e mais intensa destes espaços por todo o espectro que foge ao modus operandi da política tradicional.

Que a grande imprensa também tem uma posição clara em relação as suas preferências políticas conservadoras, isso também não é segredo para ninguém. Só que ao se valer do mesmo expediente destes veículos, a mídia alternativa acaba por igualar-se a eles. É claro e evidente que não falo de parcialidade, esse mito criado pela imprensa hegemônica, mas de uma posição de diálogo mais franco e menos ideológico e muito menos ainda partidarizado.

O que também fica muito claro hoje é que os governos petistas se recusaram a discutir a fundo a questão da comunicação, tornando os veículos alternativos reféns de um modelo de aporte publicitário que acabaria por frustrar-se, como de fato ocorreu, o que não justifica nem de longe, em função deste aporte, a postura “diarioficialista” assumida por estes canais.

O que está muito claro hoje (em que pese à decadência econômica pela qual todos os canais alternativos têm passado) é que a qualidade destes veículos caiu e caiu muito. Definitivamente não dá para considerar seus conteúdos como confiáveis, o que os coloca em pé de igualdade de qualidade jornalística (as quais estes tanto criticavam) da Veja, IstoÉ, Época, Globo, Folha, Band, Record etc.

De minha parte, poucos canais alternativos ainda são dignos de leitura. Destaco aqui o belo trabalho realizado pelo Nexo Jornal, The Intercept, Ponte Jornalismo, Outras Palavras, Congresso em Foco etc. El País Brasil, embora não possa ser necessariamente chamado de mídia alternativa, pois faz parte de um grande grupo espanhol de comunicação, tem abordagens profundas e interessantes sobre diversos temas, as quais, de um modo em geral, agradam a um público posicionado politicamente mais à esquerda.

Para quem deseja se informar sobre questões internacionais, o Opera Mundi é uma ótima alternativa, embora um de seus colaboradores seja Breno Altimam, conhecida figura ligada ao PT e a Lula. Igualmente recomendável é o Blog do Sakamoto, com a ressalva de aqui e acolá ele penda para a predileção política Lula-Petista, o mesmo pecado que tem decretado a desconfiança dos canais objetos desta crítica.

Em resumo, a chamada mídia alternativa precisa fazer a autocrítica e reinventar-se sob o risco de cair no mesmo lamaçal na qual a mídia hegemônica já chafurda há um bom tempo. Quem pode ganhar ou perder, a depender do caminho que estes canais decidirem tomar, é o leitor, o mesmo que durante décadas esperou uma possibilidade menos enviesada de se informar, promessa assumida pelos veículos alternativos, mas ainda não plenamente realizada.