As bibliotecas são na França, mas os problemas parecem ser brasileiros

Uma notícia do site Archimag dá conta de que em seu 61º Congresso, realizado entre os dias 11 e 13 deste mês em Estrasburgo, a Associação de Bibliotecários da França (ABF) não hesitou em apontar os problemas pelos quais as bibliotecas daquele país têm passado: a ausência de público, as tensões na relação com os usuários e as dificuldades em se operar com pouco orçamento.

Cortes na cultura, em geral, e nas bibliotecas, em particular, a propósito, não são problemas exclusivos dos franceses. No Brasil, os dados da associação Auditoria Cidadã da Dívida mostram que enquanto os gastos com juros e amortização da dívida pública ultrapassam os 45% de todo o orçamento efetivamente executado no ano de 2014 (em torno de R$ 978 bilhões), apenas 0,04% foram destinados à cultura, quadro que vem se agravando ano após anos.

No estado do Rio, as Bibliotecas-Parque reduziram dias e horários de atendimento, o que motivou, inclusive, a criação do Movimento Abre Bibliotecas Rio. Até o final do mês passado, o governo do estado devia pelo menos duas parcelas de 5 milhões de reais ao Instituto de Desenvolvimento e Gestão (IDG), instituição que gerencia as quatro bibliotecas da rede.

Bibliotecas públicas fechadas, sucateadas e depredadas é uma realidade Brasil afora.

Voltando ao Congresso dos bibliotecários franceses, lá, assim como aqui, os políticos também parecem ignorar a questão das bibliotecas, conforme a notícia do Archimag. Em entrevista ao site, Carol Knoll, autora do livro “Fonctionnaires, et alors ?” (sem edição em português), disse que nas últimas eleições municipais daquele país, realizadas em 2014, viu-se a chegada de novos políticos que ignoram o mundo das bibliotecas e dos seus profissionais.

Ainda conforme o site, Marie-Paule Lehmann, vice-presidente territorial no Conselho distrital do Baixo Reno, o futuro não é muito agradável, pois as comunidades estão enfrentando uma crise muito grave em suas finanças em função da diminuição nos subsídios estatais, obrigando os bibliotecários a fazerem escolhas difíceis. “O setor cultural vai pagar o preço”, disse Lehmann.

O título da matéria do site Archimag, a propósito, é baste sugestivo sobre a situação das bibliotecas naquele país. Algo como “Serão as bibliotecas os ‘fusíveis’ da crise econômica?”.

Entre as tensões verificadas pelos bibliotecários no ambiente de trabalho, a matéria destaca a situação dos imigrantes. Em Calais, cidade localizada no norte da França, por exemplo, dezenas de imigrantes teriam “invadido” a biblioteca municipal para usar o banheiro e recarregar as baterias de seus telefones. O resultado foi a tensão entre os usuários tradicionais, os profissionais, e os próprios imigrantes que brigam entre eles, resultando no fechamento da biblioteca por vários dias.

E no Brasil?

No Brasil, como todos sabem, aumenta a cada dia o número de imigrantes, a maioria deles vindos do Haiti. Esse fenômeno migratório pode e deve ter como um dos seus grandes aliados as bibliotecas públicas, oferecendo estas uma série de serviços que se tornariam muito custosos para quem não tem quase nada, como acesso a internet, por exemplo.

Com essa notícia vinda da França, talvez as bibliotecas brasileiras possam se preparar muito melhor do que as de lá.

Sobre a ausência de usuários e a falta de investimentos nas bibliotecas, resta aos bibliotecários o engajamento político e cultural para que este quadro possa ser revestido, sob o risco de vermos as bibliotecas físicas serem superadas por aqui, sem que sequer tenham sido realizadas, por sinal tema de uma próxima postagem minha.