Carta aberta a um amigo PTista

Caro amigo,

Não parece, mas já se passaram 20 anos desde que, ávidos por participar da vida política brasileira, nos filiamos ao Partido dos Trabalhadores. Naquele tempo Lula, os dirigentes e a base do Partido eram vistos pela sociedade como um bando de radicais. Radical, a propósito, era um adjetivo atribuído a nós com frequência, em função de nossas firmes posições acerca de temas que eram, e ainda parecem ser, muito caros à sociedade brasileira como, por exemplo, a reforma agrária, a legalização do aborto, a regulamentação das drogas, a suspensão do pagamento da dívida externa etc. Em função disso passei ao longo do tempo a nutrir uma ojeriza à expressão em função de sua carga pejorativa, em grande medida construída por uma mídia contrária aos interesses da classe trabalhadora, classe que nos alinhavamos e ainda nos alinhamos com facilidade por motivos óbvios: éramos (e ainda somos) proletários.

Voltando aos nossos tempos de militância PTista, as agruras foram muitas e as vitórias poucas, o que não nos impediu de lutar, acreditando numa vitória proletária por meio da figura daquele que nos parecia a própria encarnação da luta: Luiz Inácio Lula da Silva. Nestes 20 anos muita coisa aconteceu. De derrotas seguidas nas urnas, vimos o Partido crescer, ganhar campo e se firmar como uma real alternativa de esquerda. Lula perdeu eleições seguidas, mas a militância não arredou pé, botou fé e o operário chegou lá. Uma vitória construída pela base, que nos rincões do Brasil muitas vezes sacrificou a própria vida dos seus por aquela causa.

Mas o que poucos sabiam é que o naquele momento o PT já não era mais o mesmo partido de outrora, havia se rendido aos interesses da burguesia, o que não tardou ser descoberto. Como uma de suas primeiras ações, Lula aprovou a reforma da previdência, a mesma que o PT havia combatido com vigor nos tempos de oposição. De quebra, expulsou os “radicais” que se opunham às mudanças, o que foi encarado por você, amigo, com um duplo sentimento, de uma lado reconhecendo o golpe que a medida provocaria nos trabalhadores, incluindo você, e de outro entendendo que se tratava de algo necessário aos ajustes econômicos que o país precisava fazer, conforme você se fez convencer pelas palavras de Lula.

Mas o “Lulinha paz e amor”, entre carícias e afagos, estava apenas começando sua guinada para as elites. Sarney, Barbalho, Magalhães e tantas outras raposas da velha política se tornariam os companheiros de desde sempre, deixando revirados em seus túmulos os velhos camaradas de luta, dos tempos em que ele, Lula, representava a esperança de toda a esquerda. A defesa de Sarney, por exemplo, no caso das contratações secretas do Senado em 2009, feita de forma contundente por Lula, te deixou de sobreaviso, amigo, mas você era PT demais para se dar por vencido. Acreditava numa reforma interna, o que não seria possível dada à profundidade dos compromissos espúrios assumidos pelos dirigentes da agremiação, dentre as quais a mais famosa viria à tona tempos depois: o Mensalão. Você fazia a defesa deste governo alegando que “nunca na história deste país” as pessoas tinha tido tanto acesso aos bens de consumo e serviço como andar de avião, comprar celulares e TVs de plasma e freqüentar a universidade.

Entretanto, a pergunta que não quer calar é: a troco de que? Hoje somos uma nação de endividados. Não há um cidadão sequer que não deva a uma financeira ou a um banco ou mesmo ao governo, pelos financiamentos da casa própria ou mesmo da faculdade, por meio do FIES. No interior do Brasil, as lideranças locais do Partido, outrora formadas basicamente por sindicalistas e membros de movimentos sociais, dão agora lugar aos representantes das elites locais, como fazendeiros, latifundiários, ruralistas, empreiteiros e toda sorte de pequenos burgueses, no que Lula e seus asseclas se regozijam, em nome de um pacto pelo Brasil.

Lula saiu, deixou Dilma e a partir daí a coisa parece ter perdido o rumo de vez. A opção pelos mais ricos em detrimentos dos mais pobres se escancarou. Dilma privatizou aeroportos e rodovias, contou direitos dos trabalhadores, enxugou os investimentos na saúde e na educação, entregou a Petrobras nas mãos do capital privado num pacto tenebroso com o PSDB, reprimiu movimentos sociais e trabalhadores, do que te restaram hematomas e escoriações por todo o corpo quando você e seus companheiros, amigo, foram à Brasília reclamar reajustes salariais e outros direitos, mas acabaram por ser recebidos pela polícia.

Sobre o impeachment de Dilma? Não pactuo nem compactuo, mas por motivos diferentes dos seus. Embora não queira tecer julgamento das suas motivações, amigo, não me parece sensato que alguém como você se renda a essa dicotomia propositadamente desenhada, que dissolve as insatisfações políticas em apenas dois lados, em que ser contra o impeachment represente o apoio a Dilma e vice versa.

A leitura do momento político pelo qual passamos requer uma análise muito mais profunda, sobretudo se consideramos as possibilidades sucessórias, em que toda a linha republicana está comprometida até o último fio de cabelo. O que não é possível, com certeza, amigo, é você continuar insistindo na defesa de um Partido que há muito parece ter deixado de nos defender. A ninguém talvez isso seja mais duro de reconhecer do que a nós que demos muito de nossa juventude pela luta em torno do PT e daqueles que consideramos camaradas, mas o fato é que Lula, pecou, assim como pecaram Dilma, Cunha, Renan e todos os seus comparsas e em nome disso devem ser expurgados da política brasileira. O que virá depois? Só o tempo dirá!

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