Minhas leituras sobre Fidel Castro e a Revolução Cubana

Chico de Paula
Nov 26, 2016 · 7 min read

“Vai pra Cuba!”, diz um reacionário todas as vezes que tenta atacar alguém com posições que se identificam mais à esquerda. Há de se notar, entretanto, que a frase (ou outras coisas do tipo) nem sempre são ditas por convicção ou conhecimento de causa. Muitas pessoas se arriscam a dizê-las pelos simples fato que assim lhes foi dito e, portanto, é uma verdade aos seus ouvidos.

O exemplo mais recente talvez seja o da mulher que identificou a bandeira do Japão como sendo um símbolo comunista durante um ato na Câmara dos Deputados (veja o vídeo aqui). Ela estava tão certa de que há no Brasil uma guinada em direção ao comunismo, apontado por ela como uma coisa muito ruim, pessoas que comem criancinhas etc., que o processo de “comunização” do País estava em curso, sendo a bandeira nacional a primeira a sofrer as influências.

Vê-se claramente que a “revoltada” sequer sabia identificar uma bandeira de um país como o Japão, que tem a imagem super difundida pelo mundo, inclusive por aqui, e imagine o que ela sabe sobre um lugar como Cuba e sua história, alvo das mais intensas incursões da grande mídia no sentido de estabelecer uma imagem negativa acerca de sua experiência revolucionária.

Essas e outras questões me vieram à mente hoje tão logo fiquei sabendo da morte de Fidel Castro, líder máximo da Revolução Cubana. Como se sabe, muitas pessoas têm uma opinião sobre este assunto, sendo que poucos se dispuseram minimamente a ler sobre a questão de modo a proferir uma opinião minimamente qualificada. Evidentemente que as opiniões preconcebidas quase sempre servem para desqualificar o processo revolucionário de Cuba, atribuindo a ele os velhos clichês como o que diz que em Cuba não se tem liberdade de imprensa e religiosa, que as pessoas vivem em situações sociais periclitantes etc.

A ideia não é de modo algum fazer uma defesa contundente e intransigente do Regime ou negar estes problemas, mas instigar a problematização sobre questões que estão relacionadas ao tema. Veja, por exemplo, a questão da liberdade de imprensa. No livro “A Ilha”, o jornalista Fernando de Morais destaca um diálogo que se estabeleceu entre ele e um influente jornalista cubano:

Quando perguntei [ao referido jornalista] se lá existe liberdade de imprensa, ele deu uma gargalhada e respondeu: ‘Claro que não’. E completou, com naturalidade: ‘Liberdade de imprensa é apenas um eufemismo burguês. Só um idiota não é capaz de ver que a imprensa está sempre a serviço de quem detém o poder. E aqui em Cuba quem detém o poder é o proletariado. Estamos todos os jornalistas cubanos, portanto, a serviço do proletariado.

Se a imprensa está sempre a serviço de quem detém o poder, resta apenas saber quem detém o poder neste ou naquele momento, neste ou naquele lugar. No caso do Brasil contemporâneo, por exemplo, não é nas mãos dos trabalhadores que estão os instrumentos de comunicação de massa (televisão e rádio, notadamente), mas sim nas mãos da burguesia que limita, por meio do monopólio da fala, o acesso aos canais de mídia, dificultando a propagação de opiniões diversas. Disso se conclui: se em Cuba a liberdade de imprensa, expressão e opinião é limitada, o cenário não se difere nem de longe dos países ditos democráticos.

Diz-se, ainda, que em Cuba as opiniões divergentes são punidas com prisão e outras penas. Também neste quesito o cenário parece não se diferir muito das nações ditas democráticas. Os números da violência contra comunicadores sociais no Brasil, por exemplo, estão ai para comprovar. Em 2015 foram 137 ocorrências, oito a mais do que as 129 registradas no ano anterior, conforme relatório da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ). Foram duas mortes de jornalistas e nove mortes de outros comunicadores (blogueiros, radialistas etc.). A maioria dos atos de violência praticados por agentes estatais.

Nos Estados Unidos, inimigo histórico da Revolução Cubana, a liberdade de expressão continua sendo limitada quase sempre sob o argumento da “segurança nacional”, esta expressão genérica sob a qual pode ser incluído quase tudo. Julian Assange e Edward Snowden são os exemplos mais representativos e atuais desta situação. Mesmo assim ninguém (leia se grande mídia) se arrisca a dizer que este país atenta contra os direitos humanos.

A propósito da questão da liberdade, são bastante recorrentes as acusações genéricas e pouco fundadas sobre a questão religiosa em Cuba. Em “Fidel e a Religião”, numa longa entrevista concedida a Frei Beto, o líder cubano esclarece acerca da famosa frase de Marx na qual ela afirmava ser a religião o “ópio do povo”:

Neste momento [em que Marx proferiu a frase], podem haver circunstâncias em que ela [a frase] ainda seja expressão de uma realidade. Em qualquer país no qual a hierarquia católica ou a de outra Igreja esteja estritamente associada ao imperialismo, ao neocolonialismo, à exploração dos povos e dos homens e à repressão, não nos devemos espantar de que alguém repita que a religião é o ópio do povo. Como também se compreende perfeitamente que os nicaragüenses, a partir de suas experiências e da tomada de posição dos religiosos nicaragüenses, tenham chagado àquela conclusão, a meu ver muito justa, de que, a partir de sua fé, os cristãos possam assumir uma posição revolucionária, sem haver contradição entre a condição de cristão e a de revolucionário. Portanto, de nenhum modo aquela frase tem ou pode ter o caráter de dogma ou de verdade absoluta. É uma verdade ajustada a determinadas condições históricas concretas. Creio que é absolutamente dialético e marxista tirar esta conclusão.

Na minha opinião, a religião, sob a ótica política, não é em si mesma o ópio ou remédio milagroso. Pode ser ópio ou maravilhoso remédio milagroso na medida que sirva para defender os opressos e os exploradores ou os oprimidos e os explorados. Depende da forma que aborde os problemas políticos, sociais e materiais do ser humano que, independentemente de teologias ou de crenças religiosas, nasce e tem que viver neste mundo.

Após a Teologia da Libertação, materializada a partir da Conferência de Medellin em 1968, a participação dos religiosos, especialmente da Igreja Católica, se torna fundamental para o processo revolucionário que se estabelecia na América Latina. No Brasil, por exemplo, os dominicanos tiveram papel marcante no processo de resistência à ditadura civil-militar que por aqui se estabelecera. Neste sentido, quando se fala em manifestação religiosa no contexto revolucionário, é preciso observar que papel estas manifestações estão assumindo.

No que se refere ao emprego da violência no processo revolucionário, faço minhas as palavras de Elizabeth Carvalho, biografa de Fidel, ao dizer que a revolução pressupõe o emprego da violência, vez que o que está em jogo é a supressão de toda uma estrutura — política, jurídica, social, cultural, religiosa etc. — com vistas ao advento de um novo tempo. Isso não é possível sem uma ação violenta.

Importante observar que a violência empregada pelo processo revolucionário é por vezes desqualificado e deslegitimado pelos discursos hegemônicos. Contudo, estes mesmos pólos discursivos pouco ou nada problematizam a violência emprega pelo aparato policial nas “democracias”. Aos olhos destes, prender e fuzilar opositores políticos é uma forma reprovável de violência, mas o mesmo raciocínio não se aplica ao estado policial que fuzila prováveis traficantes num contexto qualquer de periferia. Dois pesos, duas medidas?!

Não se trata, de forma alguma, de defender ou condenar o emprego da violência neste ou naquele contexto. Mas demonstrar que as leituras e opiniões se dão quase sempre sem levar em conta cada situação, sem considerar os fatos em toda sua totalidade.

Enfim, aos reacionários por convicção, não existe apelo: suas posições permanecerão imutáveis independentemente dos conhecimentos que adquirir. Já aos reacionários por desconhecimento, resta a esperança de que um pouco de leitura possa lhes salvar. De modo a auxiliá-los, listo alguns materiais que podem servir de ponto de partida:

Livros:

Fidel e a Religião, de Frei Beto. Editora Brasiliense, 1985.

A Ilha: um reporte brasileiro no país de Fidel Castro, de Fernando Morais. Editora Alfa-Omega, 1980.

A Ilha: um reporte brasileiro no país de Fidel Castro, de Fernando Morais. Editora Alfa-Omega, 1980.

Dossiê Fidel Castro, de Rodolfo Lorenzato. Universo dos Livros Editora, 2009.

Dossiê Fidel Castro, de Rodolfo Lorenzato. Universo dos Livros Editora, 2009.

Che Guevara: uma biografia, Jon Lee Anderson. Editora Objetiva, 2012.

Che Guevara: uma biografia, Jon Lee Anderson. Editora Objetiva, 2012.

Filmes:

Che: o argentino

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Che: a guerrilha

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