Luísa: Capítulo #1

dia UM

— Planeta Terra chamando Luísa. Planeta Terra chamando Luísa.

Michele estalou os dedos bem diante do meu rosto e minha mente voltou a ocupar o mesmo espaço que meu corpo.

— Esse decote tá chamando muita atenção? — antes que eu pudesse entender a pergunta, ela já tinha enfiado os peitões na minha cara.

— Não. Tá tranquilo — sorri, pacífica.

— Merda — inconformada, minha prima repuxou seu já minúsculo tomara-que-caia, de modo a deixar os seios ainda mais evidentes. — E agora?

— É… Melhorou — respondi, incerta.

— Tá com cara de que um mamilo pode saltar pra fora “sem querer”?

— Acho que existe uma grande possibilidade de isso acontecer.

— Ótimo!

E me deu as costas, satisfeita, balançando a bunda e agitando as tranças de kanekalon que batiam em seu cóccix.

No balcão do bar, eu esperava os drinques que pedira ficarem prontos. Dessa vez, eu ia de margarita, e mamadi, incapaz de conter a empolgação ante a variedade de bebidas disponíveis — afinal, não era sempre que íamos à recepções opulentas — , escolhera uma capirinha de limão com saquê, dose que eu, ferrenha controladora de todos os itens de consumo a passarem por suas mãos, decretara que seria a última. Fazia algum tempo que tínhamos invertido os papeis, e, em alguns aspectos, era eu quem ditava as regras e tomava conta dela.

Mais uma vez, meus olhos percorreram a festa que rolava em frente ao casarão da Vinícola Dionísio. Procurei distinguir rostos em meio à multidão dividida entre as mesas, a pista de dança e o buffet onde era servido um churrasco monumental.

Fazia pouco mais de duas horas que Milena e Davi haviam trocado alianças, e nem mesmo a união dos recém-casados encorajara os Araújo e os Schultz a socializarem entre si. A segregação entre as duas famílias era tão evidente que chegava a ser cômica: de um lado, os parentes do noivo, todos sulistas, muito brancos e de olhos claros. De outro, minha família, originária de Nilópolis, composta por negros dos mais diversos tons de pele. Era algo bem interessante de se ver: nosso time contava com maior número de representantes, e o deles não parecia muito contente com isso.

O barman me serviu os drinques e uma garrafa d’água, e, cuidando para não derramar nada, voltei para a mesa que mamadi e eu ocupávamos junto à tia Helena, tia Lorena, tio Reinaldo e outros de nossos parentes mais próximos.

— Essa é a última, viu? — avisei, tão logo entreguei à mamadi sua bebida.

Ela assentiu, nada confiável.

— Deixa a Serena, Luísa — interveio a tia Helena, mãe da Michele e do Matheus. — Pelo menos é algo que ela faz só de vez em quando — o comentário ácido veio acompanhado de um olhar desgostoso para João, seu marido; homem imenso de gordo, que, com cara de poucos amigos, tentava manter o pescoço ereto, travando em desvantagem uma briga contra o sono e os efeitos do álcool.

— Eu trouxe água — estendi o braço, oferecendo a garrafa.

— Água? — tia Helena riu, com amargura. — E o João lá sabe que isso se bebe, minha filha? Pra ele, água serve apenas pra lavar o corpo e o carro, sendo que o segundo item costuma ganhar banhos mais assíduos e asseados que o primeiro.

Dei de ombros e voltei a atenção à minha sonolenta mãezinha.

— Quer comer mais alguma coisa? — perguntei.

Ela recusou com um gesto, e eu passei a sorver minha bebida em silêncio, novamente perscrutando ao meu redor.

Nenhum sinal do Amauri. Ninguém ia perguntar por ele?

Não poderia ser eu a fazer isso. Seria dar muita bandeira. Eu era péssima em afetar indiferença, então, na maioria das vezes, optava por sofrer calada.

Um burburinho me despertou das minhas indagações. Todos à mesa ergueram suas cabeças para saber o que acontecia — exceto João. Este, aproveitando-se da distração geral, tomou posse da caipirinha esquecida por mamadi, que cochilava à mesa.

Motivo da agitação: Milena e Davi tinham acabado de chegar.

A legião de convidados ficou em pé para aplaudir o reluzente casal.

Ele tinha se livrado do fraque e trajava jeans, camiseta e um terno cinza que moldava seu tronco definido. Já minha tia estava incrível em um tubinho perolado, cortado por uma fenda enorme. Feita sob encomenda especialmente para a recepção, a peça permitia à Milena exibir o resultado de sua dieta de fome sem que isso a impedisse de se acabar de dançar. O toque final era seu novo corte de cabelo à la Cleópatra — estilo realçado por sua maquiagem.

Finda a aclamação, o casal se separou: Davi foi cumprimentar os membros de sua família, e Milena, soltando um gritinho agudo, correu em direção à nossa mesa. Tão logo captei seu intento, fiquei em pé, e, em perfeita sincronia, atiramo-nos uma à outra, abraçando-nos calorosamente.

Triunfante, ela exibiu a todos sua grossa aliança de ouro branco.

— Eu tô casada, porra!

Não era preciso dizer. Todo mundo sabia: Milena era minha tia favorita.

Talvez por ser a caçula. Acabara de completar trinta anos, e isso se devia ao fato de que ela era apenas meia-irmã da minha mãe e das minhas tias, todas bem mais velhas do que ela.

Assim era a família Araújo: cheia de ramificações, em sua maioria, resultante de casos de infidelidade que, geralmente, culminavam em trocas de tapas e acusações entre parentes. O falecido vô Maneco era um dos membros do clã mais conhecidos por não saber guardar o pau dentro das calças, mesmo depois de velho. Sua contribuição fora substancial para que se engrossasse o nosso caldo familiar.

Filha de uma mulher branca que se mandara, tão logo tivera alta da maternidade, Milena, um bebezinho, fora acolhida e adotada pela minha também falecida avó, Maria Rita, mãe de cinco filhos e seis filhas. Vó Rita criou a menina como sua até seu último dia, sem demonstrar — ao menos, não diante da menina — qualquer ressentimento por conta da infidelidade do marido.

Findo o abraço, tornei a me sentar. Displicente, Milena sentou no meu colo e filou um gole da minha margarita.

— Já comeram? Tá todo mundo bem? Todo mundo se divertindo?

Geral assentiu, embora tia Helena e João ostentassem feições amarradas. Milena ainda ensaiou mais algum comentário, mas foi interrompida por Michele, que, materializando-se do nada, abraçou a tia pelas costas com estupidez, quase levando nós três ao chão.

— Me diz que porra de música é essa! — protestou minha eufórica prima.

— Fandango — Milena explicou, livrando-se das garras da sobrinha e recompondo-se do susto. — Música típica da região sul.

— E esse povo ouve só isso?

— Pelo jeito, sim. Mas a gente resolve isso agora.

Milena ia saindo e puxando Michele pela mão, mas João, emergindo de sua oscilação entre sono e vigília, agarrou com firmeza o outro pulso da filha.

— Arruma esse vestido, menina — ele ordenou, já sem grande domínio da língua. — Abaixa essa saia e guarda esses peitos.

— Pai, eu nascer gostosa e esconder seria um desperdício.

Michele tentou se soltar, mas João, apertando-a com mais força, encarou-a, ameaçador. Minha prima pareceu estremecer, mas não desviou o olhar do de seu pai. Pelo contrário: ergueu o queixo em desafio.

— Dá um tempo, né, João? — interveio tia Helena, alarmada com o prenúncio de confusão. — A menina tá numa festa.

Não que brigas fossem raras entre os Araújo, mas compreendi a preocupação da minha tia: não estávamos em nosso território.

— Por que tá numa festa precisa desfilar por aí, quase pelada? — João insistiu, ainda impedindo a filha de sair.

— Ué? Qual o problema? — estar rodeada de muita gente dava à Michele a coragem necessária para peitar o pai. — Cê não costuma achar ruim quando vê mulheres quase peladas andando pela rua. É, aliás, muito legal com elas. Bem mais do que é com as da sua família, que, infelizmente, andam vestidas até demais.

Nessas horas eu sentia orgulho da minha prima, embora fosse difícil entendê-la e acompanhar seu raciocínio: ora ela soava madura e desafiadora diante dos males do patriarcado, ora, reproduzia as piores barbaridades que podem ser imaginadas por um homem de cabeça vazia.

— Tua tia tá casando — João argumentou, ignorando a verdade atirada em seu rosto. — , e você aí, ciscando atrás de macho.

— E eu lá pretendo me casar? Não quero estragar minha vida!

— Ei! — Milena protestou, acertando um tapinha no ombro da sobrinha.

— Não falei de você, Milena. Falei da minha mãe.

Em resposta, João apertou ainda mais o pulso de Michele, antes de soltá-lo de vez, enquanto tia Helena desviava os olhos da cena, entristecida. A coisa parecia ter morrido ali, só que nós conhecíamos o cara: ele não ia esquecer a afronta.

— Pessoal, não vamos brigar, tá legal? — Milena estava leve demais para ser afetada pela animosidade entre pai e filha. — Pelo menos, não hoje.

— Além do mais, sou maior de idade, né? — aquela oportunidade de pisotear o pai sem revide certamente não seria desperdiçada por Michele. — Me visto como me der na telha, e ninguém pode me dizer um “A” a respeito. Vocês podem ter desistido de aproveitar a vida, mas não me tomem por vocês, e nem tentem me forçar a ser como vocês. Meus valores são outros.

— Valores? — tia Helena riu. — Também não força a barra, vai, filha.

— Quanto a me casar — prosseguiu minha prima. — , deixo essa missão pra Luísa. A bênção da família com certeza não vai nos negar essa alegria!

Meu sentimento de apoio à Michele desapareceu tão rápido quanto havia surgido. Era sempre assim: ela e eu tínhamos uma relação volátil.

— Milena é a primeira mulher da geração jovem da família a se casar com a bênção de Deus — tia Lorena babou, toda orgulhosa. — E pelo jeito, vamos ficar só nela — concluiu, lançando um olhar desgostoso a mim e à Michele.

A mais velha e austera das irmãs, tia Lorena sempre fora a mais ligada à Milena, uma garota de apenas quatorze anos quando vó Rita falecera. Não tiveram qualquer dificuldade em assumir o papel de mãe e filha postiças, e, desde sempre, se deram muito bem. Depois de criar três marmanjos — Amauri, inclusive — , tia Lorena teve a oportunidade de se regalar com a cumplicidade que só uma relação entre mãe e filha poderia prover, mesmo que através de vias tão tortas.

Não escondia sua satisfação em ver a irmã/filha casando-se com um dos membros de uma tradicional família católica — embora o fato de Davi não ser nem de longe praticante da doutrina parecesse ser ignorado por ela, não sei se de propósito. Amante dos signos e ícones religiosos, tia Lorena só faltara desmaiar de satisfação quando conhecera a capela da vinícola, pequeno santuário, abrigo de uma réplica da estátua de Santa Rita de Cássia.

Mesmo forte e sábia, minha tia reproduzia algumas ideias um tanto antiquadas da vó Rita em se tratando de amor. Para ela, se uma relação não desse em casamento e filhos — nesta ordem — , alguma coisa tinha de estar muito errada.

— Fico feliz pela Milena — sorri, preparando o revide, e nem um pouco a fim de ver minha vida amorosa tornando-se pauta naquela mesa. — Mesmo porque nunca fiz questão desse posto. Prefiro ser a primeira mulher da família a seguir carreira acadêmica — para finalizar, lancei um olhar certeiro à Michele. — E você, pelo jeito, vai ficar pra trás nessa também, prima.

Ela reagiu com uma careta azeda, a qual retribuí, com todo o prazer.

— Vocês estão impossíveis hoje! — interveio Milena, divertida. — E onde tá o Amauri, que eu não vi? Não veio, né? Vou dar uns croques naquele safado!

Eu poderia beijar minha tia na boca, tamanha minha gratidão.

— Falei com ele ontem — tia Lorena soou desgostosa. Pelo jeito, não teria nenhum dos filhos consigo naquela noite. — Disse pra mim que viria, mas até agora não deu notícia alguma. O celular tá desligado desde cedo.

Recebi a informação como um balde de água fria. Talvez Amauri não tivesse conseguido folga do quartel. Ou, talvez, tivesse preferido aproveitar o final de semana dele lá por Nilópolis mesmo, enfiado na quadra da Beija-Flor. Além do mais, eu era obrigada a reconhecer que, mesmo tendo convivido com a tia por anos, meu primo nunca fora tão ligado à Milena, e mal conhecia Davi.

Prestes a ficar com raiva dele, senti um arrepio percorrer meu corpo: e se tivesse acontecido algum acidente no percurso entre o Rio e o Paraná?

Pior que eu não podia dar bandeira alguma de que, com a proximidade do casamento, Amauri passara a ocupar todos os meus pensamentos. Mal disfarçara a decepção quando, uma semana antes, tia Lorena viera se hospedar na casa de tia Helena sem a companhia do filho. Até mesmo na hora da cerimônia: eu, uma das madrinhas da noiva, passara o tempo todo a comprimir as pálpebras, em um vão esforço para tentar enxergar meu primo em meio à multidão de convidados.

— Vem comigo — ordenou Milena à Michele. — Vamos dar um jeito nessa música agora, que eu também não aguento mais!

As duas se afastaram, abraçadas, e eu olhei para minha mãe, cuja cabeça já tombara para a frente.

— Mamadi. Mamadi, acorda. Quer ir deitar?

— Ainda não — ela murmurou, abrindo os olhos vermelhos e inchados.

Fazia tanto tempo que a pobrezinha não ia à uma festa. Eu deveria deixar de ser chata e largar do seu pé por pelo menos uma noite.

— Gente, cadê o Matheus? — tia Helena olhou ao redor. — Faz duas horas que não vejo essa criatura.

— Deixa ele em paz — João resmungou, mal-humorado.

— Fico preocupada do menino se perder. Esse lugar é enorme!

— Deve ter se enfiado no meio das videiras com alguma menininha.

João soltou uma de suas insuportáveis risadinhas sacanas e eu revirei os olhos, mal contendo meu desprezo. Morria de pena da Michele e da tia Helena. Na casa deles, pai e filho eram reis, e elas, cidadãs de segunda classe.

— Tô com fome — anunciou João. — Vai lá fazer um pratinho pra mim.

— Vai você! — retrucou tia Helena. — Meus pés estão acabando comigo por causa dessas benditas sandálias, e se minha memória não falha, não tem a palavra “garçonete” escrita na minha carteira de trabalho; tampouco, na nossa certidão de casamento.

— Tem dó do seu velho. Vai mesmo me deixar com fome?

João ensaiou um olhar pidão que tia Helena tentou, em vão, resistir. Derrotada e irritada, levantou-se e rumou ao buffet. Sabia que se não fosse, o marido teria desculpa para um final de semana inteiro de reclamações.

— Coloca bastante coração e linguiça no prato! — ele berrou, sem nem ao menos olhar para trás, perdendo, assim, a oportunidade de ver qual dedo a esposa erguera em sua direção.

Ao longe, a música sulista foi bruscamente interrompida. Surpresos, os convidados por parte do noivo voltaram-se ao DJ, que conversava algo com Milena e com Michele. De repente, “Louco Por Fandango”, do Sandro Oliveira, deu lugar à “Beijinho No Ombro”, da Valesca.

Uma horda de pessoas da minha família urrou de felicidade, correu das mesas e invadiu a pista, deixando perplexos os convidados que dançavam o fandango. Irritados, muitos abandonaram o local, com exceção de alguns jovens sulistas que resolveram ficar, e de outros, que, curiosos, embarcaram na novidade. Em meio à multidão, Michele dançava furiosamente, enquanto Milena tentava, não sem alguma insistência, despregar o noivo da cadeira na qual havia se empoleirado.

— Dança um pouco, Luísa — sugeriu mamadi.

— Tô cansada.

— Faz tanto tempo que cê não se diverte. Só trabalha e estuda. Aproveita tua noite, menina. Sabe-se lá quando vai ter outra oportunidade como essa.

Refleti e concluí que mamadi tinha razão. Eu vivia sempre tão tensa e ocupada. Que mal me faria esquecer de tudo por uns breves momentos?

Afinal, eu realmente me achara incrível quando conferi no espelho o resultado da composição do meu figurino para o casamento.

Cabelos: bem volumosos e livres.

Olhos: leve pincelada de sombra escura.

Boca: batom lilás cremoso e brilhante.

Vestido: modelito de seda roxa revestida por renda preta, com um decote que não perdia em nada para o da Michele, além de uma saia rodada que valorizava minhas pernas torneadas e sedosas.

Sapatos: saltos pretos, bem altos e lustrosos, para fechar com glória.

Cara, eu estava linda!

Bem que merecia me curtir um pouco.

Ainda hesitante, fiquei em pé e caminhei rumo à pista, ficando mais relaxada e decidida a cada passo. Logo, me embrenhei em meio à galera e me aproximei da Michele, que dançava consigo mesma, ao lado da Milena e do Davi. O coitado sofria para aprender o rebolado do funk; não conseguia mexer o quadril sem levar o corpo inteiro junto.

Sob os olhares mal-humorados da família do noivo, ensaiei uns passos tímidos, e, aos poucos, fui me soltando. Até mesmo tio Reinaldo entrou na onda, demonstrando que a idade não tomara dele o espírito de diversão e a flexibilidade.

“Agora Eu Tô Solteira”, “My Pussy É O Poder”, “Eu Sou A Diva Que Você Quer Copiar”. Que delícia! Como aquilo era bom! E eu não fazia havia meses! Depois de três músicas, eu já estava suada, com meus cabelos crespos grudados na cara, e sem nem me lembrar da existência do Amauri.

Nos esbaldamos, e mesmo quando, após diversas reclamações, o fandango voltou a tocar, continuamos na pista, tamanha nossa empolgação. Pouco a pouco, os familiares do noivo passaram a interagir mais com os nossos. Aprendemos os passos da dança sulista, e eles se mostraram — um pouco, quase nada — mais abertos a se deixarem levar pelo gingado do nosso funk.

Até que os Schultz não eram assim, tão maus.

Chegou um momento, na alta madrugada, que aquela pista se tornou um local muito bonito de integração cultural. Dois gêneros musicais genuinamente brasileiros, criados com elementos trazidos de fora. Um deles, por pouco não esquecido; o outro, marginalizado desde o início. Ambos, parte de uma mesma história, e que, naquela festa, passaram a ocupar o mesmo espaço.

Me acabei de dançar, até que, suada, cansada, satisfeita e sem noção das horas, fiz uma pausa e saltei rumo ao bar, a fim de me reabastecer de água.

Foi quando, ao longe, avistei uma silhueta masculina surgida da área onde estavam estacionados os carros dos convidados. Lentamente, a figura parecia crescer diante dos meus olhos, e quanto mais próximos de mim ficavam, mais familiares aqueles movimentos corporais me pareciam.

Não foi preciso ter certeza; a mera possibilidade fez com que meu coração começasse a bater mais forte.

Fosse quem fosse o sujeito, parecia ser um cara bem grande.

Esfreguei as mãos e senti o suor em minhas palmas.

Bastaram apenas mais alguns segundos e mais alguns passos para que a mágica estivesse feita: em menos de um segundo, a menina ingênua emergia e mandava a adulta sensata e pragmática passear. Meu coração disparou de vez. Meu estômago se contorceu de expectativa, e um calor subiu por todo o meu corpo, indo explodir bem no meio do meu rosto.

Era o Amauri.

Do alto de seus quase dois metros de altura, parecia ainda mais forte, além de surrealmente lindo, naquele conjunto de terno cinza, sem gravata. A camisa, com uns três botões estrategicamente abertos, revelava parte do seu peitoral imenso e brilhante — aguçando a curiosidade em relação às partes que o tecido ocultava.

Caminhava rumo à festa, a passos lentos, sem muita curiosidade, ostentando a sua inesquecível e apaixonante cara de mau.

E só então compreendi que ele vinha bem na minha direção.

Travei os pés no chão por um instante, sem saber como agir. Meu instinto era de correr até ele e abraçá-lo, com toda minha força.

Mas eu não podia. Aos olhos dos nossos familiares, Amauri e eu éramos apenas um casal de primos, que, embora evidentemente atraídos um pelo outro, nem se davam tão bem assim.

Mas sempre havíamos sido muito mais do que isso. Desde a noite em que, eu com sete anos e ele com dez, fomos colocados por nossas mães para dormir na mesma cama — não sem os devidos protestos de priminhos que viviam implicando um com o outro. E aquela foi a primeira das muitas vezes em que exploramos os nossos corpos, no começo, sem qualquer ideia do significado de tais toques.

Somente ao longo dos anos as coisas foram adquirindo sentido.

Muito do que eu sabia do mundo, desbravara junto com Amauri.

Mesmo que um dia eu não mais o quisesse, meu primo sempre seria uma parte muito importante de mim, e eu sempre teria dificuldades para entender onde eu acabava e onde ele começava. Mesmo morando tão longe, era como se eu conseguisse ver tudo o que se passava em sua mente e coração.

Havia muito eu perdera a conta de quantas tinham sido as idas e vindas; de quantas promessas haviam sido seladas e quebradas; de quantas vezes brigamos e juramos dar fim àquele envolvimento sem propósito e sem futuro, e de quantas vezes, aos beijos salgados pelas lágrimas, voltamos atrás.

Mas, a despeito de tanto sentimento, o fim parecia ser sempre o mesmo: Amauri ia embora e eu ficava para trás, chorando, sozinha. Mesmo quando era eu a mandá-lo cair fora e sumir.

Ele costumava lidar melhor com a ausência e a distância.

Ou, ao menos, assim eu achava.

Fazia quase um ano que não nos víamos.

E, mesmo assim, só de tê-lo ali, cada vez mais próximo a mim, em passos meticulosamente cadenciados, eu sabia que amava aquele cara ainda mais.

Pelo menos, naquele instante, vendo aqueles lábios grossos me sorrirem com discrição, enquanto seus olhos brilhavam de um jeito significativo — um jeito que só eu entendia — , tive a certeza de que, independentemente de qualquer coisa que viesse a acontecer, o amaria para sempre.

Afinal, como é que dizem, mesmo?

Amor entre primos não acaba nunca.