A loucura que é acreditar numa ideia

Se você trabalha com arte, sabe como funciona. É só terminar um trabalho que a mente começa a procurar a próxima ideia.

Isso me fez voltar a uma questão recorrente nos meus debates: pensar no quanto é incrível (ou seria bizarro?) acreditar numa ideia a ponto de direcionar energia e tempo para colocá-la em prática de verdade. Ou no meu caso e de outros autores, colocá-la no papel.

Railsea, do China Miéville

Escrevendo esse post, meus pensamentos voaram logo para o China Miéville, um autor e ativista político inglês bastante elogiado lá fora e com alguns títulos já publicados no Brasil sem o barulho merecido. Mais especificamente para um romance chamado Railsea, voltado para o público YA / jovem adulto. Nessa distopia, o mundo é coberto por inúmeras linhas férreas, daí o nome “mar de trilhos”, e dominado por criaturas gigantes carnívoras que se parecem com os animais que conhecemos, o mais relevante deles para a história, as toupeiras. A humanidade, claro, não pode mais ficar de bobeira por aí, e mora em fortalezas, digamos assim. O único jeito de ir de um canto para o outro é embarcar em trens que usam essa rede de trilhos. 
 O protagonista trabalha, se não me engano, como médico assistente num desses trens que caçam toupeiras gigantes. E, resumindo, um dia ele descobre uma gravação num trem abandonado, e algumas pessoas acham que ela pode levar a um tesouro.

Agora pensem só comigo. Você é o China Miéville. Tá de bobeira em casa, olhando para a parede, pro seu quadro branco que nem o Rei do Crime na série Demolidor, e vem a ideia: quero fazer a minha versão de Moby Dick. Mas em vez de mar e barcos, trilhos e trens. Em vez de baleias, toupeiras gigantes e monstros asquerosos. Em vez de piratas… não, não, deixa os piratas. 
É uma ideia louca, não? Digo, não só organizar isso na cabeça. Mas decidir que é válido levar isso para o papel de forma organizada, com personagens e uma narrativa. E é mais louco ainda pensar que alguém vai editar essa história, e que pessoas vão ler a história, e parte dessas pessoas vai até gostar e recomendar o livro para outras pessoas, aumentando suas vendas e te permitindo escrever mais histórias loucas como essa. Ou completamente diferentes.

Rei do Crime olhando para seu quadro favorito

Acreditar em si, acreditar nas suas, nas nossas ideias, exige um quê de loucura.

Acho que deve ser um pouco diferente para um grupo bem reduzido de pessoas, que são praticamente criaturas de outro plano de existência vivendo entre nós. Porque essas pessoas vivem numa realidade mágica por natureza, onde a loucura é o único caminho possível. JK Rowling já falou várias vezes sobre todos os perrengues que passou no início de carreira. Mas mesmo assim ela acreditou em si mesma, continuou a escrever e o resto é história. Várias delas, na verdade: Harry Potter, Animais Fantásticos, peças e livros derivados alimentando seu universo potteriano.

Se eu tivesse que chutar, e é só o que posso fazer aqui, diria que ela também para e pensa “Que loucura! Será que alguém vai querer ler isso?” Ou no caso dela “Será que alguém ainda vai se interessar por essas histórias?” Mesmo com a fama, com o dinheiro e com uma das maiores bases de fãs do mundo, ela deve sentir aquele friozinho na barriga, passar pelo instante de incerteza.

Artistas que se apresentam em palco, sejam atores ou cantores, dizem que se um dia esse friozinho some, é hora de parar. E, bem, pra chegar à etapa de encarar o friozinho, essa sensação inigualável, temos que passar pelas etapas anteriores. A começar por esse papo reto com a ideia.
 
Eu poderia dizer que acreditar nas próprias ideias é assustador e libertador ao mesmo tempo, mas pra mim na maior parte do tempo é só assustador mesmo. Principalmente com as contas chegando todo fim de mês. Mas tenho tentado lidar melhor com isso.

Primeiro livro do magoverso, publicado em 2014

E a única maneira de chegar a esse momento é vencer o instante de incerteza. O momento em que só existe você e uma ideia na cabeça. E a parede, o teto, a tela branca do computador gritam de modo ensurdecedor “Isso é loucura!!!”.

Bem… Às vezes não é só a parede gritando. Tem muita gente tentando domar nossa loucura, podar nossas ideias. O tempo inteiro! Pode ser num projeto profissional, numa expressão da própria identidade, na luta por um direito. A turminha da tesoura, do balde de água fria, é incansável.

Passei 4 anos criando o universo do “Exorcismos, Amores e Uma Dose de Blues”. Foram 4 anos me perguntando o tempo inteiro “tem certeza disso, Eric?” Um livro de fantasia com certa representatividade e diversidade, num gênero que pouco existia no Brasil… Quando mandei para algumas pessoas, um dos feedbacks que recebi foi “com esse material você não chega a uma editora grande.” Tem noção? Faz tempo, não lembro se fiquei puto, se xinguei, se nem dei moral. Mas o fato é que melhorei o livro durante as revisões sem jamais alterar a essência dele. E assim fui publicado pela Ed. Gutenberg. Graças a essa publicação, surgiu a oportunidade de ir pra Ed. Seguinte, com um livro ainda mais pessoal e com bastante representatividade, que é o Ninguém Nasce Herói
Se acreditar no Exorcismos foi difícil, acreditar no Ninguém Nasce Herói foi ainda mais desafiador. Mas eu fui honesto comigo mesmo e me concentrei em contar a história que eu queria contar naquele momento. Em outras palavras, creditei na minha ideia e encontrei gente que abraçou a minha loucura. A segunda parte a gente não tem como controlar 100%, mas a primeira…

Alice

Já pensaram no caso do Lewis Carroll? Ele chega em casa, cansado de um dia no parque, toma um banho e… “Ah, até que essa história que eu contei pra Alice no lago foi legal. Uma lebre surtada com a cafeína do chá, um chapeleiro sequelado, uma rainha de copas que curte cortar cabeças, uma lagarta metidona se acabando no narguilé, um gato de fumaça com um sorriso gigante que ninguém em sã consciência confiaria, por que não seria o melhor livro infantil de todos os tempos?” E aí o cara vai e lança Alice no País das Maravilhas.

Tem gente, claro, que filtra suas loucuras pelo mercado. Fala com um agente, com um editor. Tem gente que conversa com um conselho de sábios, aquele grupo eleito de amigos, pra debater suas ideias. Talvez seja mais fácil acreditar na sua loucura quando ela é uma tendência no momento. Ainda assim, com todo o respaldo, com toda a (inexistente) garantia, a decisão está nas nossas mãos. É uma responsabilidade da qual não temos como fugir.

Ou acreditamos na nossa loucura ou não saímos do lugar. E é isso.

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