Labirinto da própria cabeça

Diário de Escrita #002 — Organização demais atrapalha

Um autor desorganizado tentando manter um diário de escrita sobre seu livro novo desde a primeira ideia.

Tinha começando a escrever o novo texto aqui para o #Descrita sobre improdutividade quando recebi um e-mail do Trello que parecia ler meus pensamentos. O tema dele era: menos ansiedade e mais foco.

Trello é a ferramenta que eu uso atualmente para organizar as escaletas dos meus livros, fazer fichas de personagens e coisas que tais, e uma das poucas que eu faço questão de assinar a newsletter.

Achei curioso porque um dos tópicos — Será que os aplicativos de produtividade deixam as pessoas realmente mais produtivas? — tem bastante a ver com algo que notei enquanto escrevia “Exorcismos, Amores e Uma Dose de Blues”: ansiedade disfarçada de surto de organização.

Comentei no Descrita #001 que às vezes criamos alguns dilemas na nossa cabeça que parecem importantíssimos na hora, mas depois, com algum distanciamento, percebemos que só serviram para nos afastar do objetivo principal: começar a escrever. É como se o cérebro soubesse que precisa de um descanso e, ao mesmo tempo, não se permitisse esse descanso, então inventasse uma desculpa que atenda aos dois lados da questão.

Nesse ponto, oficinas de escrita e dicas de autores sobre nossa suposta disciplina (e digo suposta porque é algo que funciona melhor na teoria do que na prática) podem ser de grande ajuda, mas se prender demais a métodos de sistematização também pode acabar atrapalhando. Planejamento e escrita precisam encontrar um equilíbrio saudável, oras.

No caso do Exorcismos, o que aconteceu comigo foi o seguinte: eu decidi, do nada, que precisava listar em um caderno tudo que existia no meu universo de magos. Escrever que seres vinham de que mundos paralelos, qual era o tipo de governo desses lugares, se existia mais de uma raça em cada um deles, catalogar todo tipo de magia… Elevado a enésima potência. E lá fui eu para o caderninho fazer mil anotações.

Spoiler: isso não serviu para nada. Minha literatura gira em torno dos personagens. Inclusive em tramas de fantasia, é deles que nasce o entorno e não o contrário. Sei disso melhor do que ninguém e, ainda assim, não me dei a devida atenção.

Depois de passar uns três dias nessa neura, percebi que estava era exausto. Marquei de tomar um café com um amigo e passei a tarde fora. Foi uma tarde sem pensar em livro, sem pensar em prazo, no dia seguinte só li, não escrevi. E então a sensação de inoperância foi passando, o caderno ficou de lado e a história voltou a andar.

Eu sei, cada um tem o seu método. Só tome cuidado para não passar mais tempo listando seus futuros projetos do que transformando esses projetos em realidade. Ou imaginando o mapa do seu mundo fantástico, com países e continentes que só serão usados no quinto livro daquela série que você não começou a escrever nem o primeiro parágrafo. Ou montando fichas de personagem que incluam 100 anos de background em vez de ver como eles se saem num diálogo simples, ou mesmo… Acho que deu para entender.

Diz a lenda que é bom ser organizado. O problema é que às vezes a ansiedade se fantasia com nossas listas, cadernos e post-its e fica sentada no nosso ombro dizendo: Confie em mim, só estou aqui para ajudar.

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Inspiração do dia:

“A escrita não é para fazer dinheiro, ficar famoso, transar ou fazer amigos. No fim das contas, a escrita é para enriquecer a vida daqueles que leem seu trabalho, e também para enriquecer a sua vida. A escrita serve para despertar, melhorar e superar. Para ficar feliz, ok? Ficar feliz. Parte desse livro (…) é uma carta de autorização: você pode, você deve e, se tomar coragem para começar, você vai” — Stephen King.

Sobre a Escrita”, publicado pela Editora Suma, é uma mistura de memórias com manual de escrita… teoricamente. Para mim, as maiores dicas vêm justamente da parte de memórias. A vida é inspiração constante, nossa matéria bruta. O resto é sentar e lapidar.