Censura.

Diário de Escrita #003 —Sobre livros e censura

Um autor desorganizado tentando manter um diário de escrita sobre seu livro novo desde a primeira ideia.

Acabou a Bienal do Livro do Rio de Janeiro, e com ela boa parte da energia de reserva para esse fim de ano. Oportunidades de interagir com leitores antigos e conhecer leitores novos são sempre recompensadoras. Eu não vejo sentido em ficar em uma mesa autografando livro, falando oi e tchau em menos de um minuto. Enquanto me for possível fazer mais do que isso, tô lá eu de pé no estande da editora conversando com os leitores… e tirando fotos de careta para minha coleção.

Isso tem um preço, claro. E nem tô falando da sobrecarga dos sentidos de um introvertido. Está mais para a parte física da coisa: ficar de pé dez horas por dia, se alimentando mal, bebendo pouca água, tomando conta de todas as redes sociais para ver se alguém está te procurando no lugar errado, ir almoçar (?) pensando em quantas pessoas passaram no estande enquanto você não estava… Sem falar na ida e na volta para o Riocentro. Eu não consigo entender por que o evento não disponibiliza ônibus gratuitos nos terminais mais importantes da região, você consegue? Um deles recebe ônibus da cidade inteira e o outro é, agora, ligado ao metrô.

Mas a Bienal do Livro do RJ passou e estou em São Paulo tentando voltar ao ritmo. Entreguei uma tradução de quadrinhos — uma versão dos Flintstones que saiu pela DC e aqui sairá pela Panini que é muito, mas muito, boa. E agora preciso tirar o atraso de The Last Namsara, um young adult com dragões e intrigas palacianas que estou traduzindo para a Editora Seguinte. Como o texto é bem gostoso, bem tranquilo, sei que em 10 dias já recuperei o atraso e bati a meta, por isso não estou preocupado. Mas isso não muda o fato de que o dia tem apenas 24 horas e eu sou um só.

Essa sacudida de agenda prejudica o ritmo de escrita, não há muito o que fazer. É preciso cortar de outros lugares, sacrificar encontro com amigos, uma ida ao cinema, para o livro não ficar parado. Prioridade vs. prioridades, aquele papo.

Acho que é por isso que fico puto quando ouço alguém falar coisas na linha “eu escreveria um livro se tivesse tempo”. Não é como se eu ou algum dos meus amigos autores tivéssemos tempo sobrando. A fada do tempo livre não entra na sua casa à noite e sacode uma varinha para cobrir você com os farelos da eternidade.

put a rainbow on it

Mas além de ser um bom gestor de tempo, um autor também precisa saber a hora do descanso. Não adianta nada cair doente, ou sentar para escrever tão cansado que o texto sairá uma porcaria.

Outra decisão importante foi apagar redes sociais do meu celular. Até o Twitter se foi. Não sei se tanto pela economia de tempo ou mais pelo ambiente tóxico que ele tem sido ao canalizar a quantidade de absurdos acontecendo aqui no Brasil. O fundamentalismo sempre mira no ensino, nas artes e na tecnologia enquanto vai se infiltrando na política de um país. É a nossa maneira de reagir a isso que faz a diferença no jogo.

A minha reação é escrever, conversar com os leitores, amplificar a voz de quem vale a pena e não o contrário. Posso estar sendo meio Chuvisco nisso, eu sei, mas é no que acredito no momento. Uma questão de gestão de tempo, afinal.

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Inspiração do dia:

O Partenon de Livros

O Partenon de Livros é uma obra da artista argentina Marta Minujín. Uma réplica da Acrópole de Atenas feita com milhares de títulos que foram censurados ao redor do mundo e, nessa montagem atual, conseguidos através de doações.

“A censura, a perseguição dos escritores e a proibição de seus textos motivadas por interesses políticos e por tentativas de influenciar nossos pensamentos, nossas ideias e nossos corpos, estão se espalhando mais uma vez. O Partenon de Livros é um símbolo de oposição à proibição de escritos e à perseguição de seus autores”. [Fonte: Documenta].

O Documenta é um dos eventos de arte contemporânea mais importantes do mundo. Desde 1955 ele acontece a cada 5 anos em Kassel, na Alemanha. Em sua 14ª edição — o Documenta 14 — ele aconteceu simultaneamente em Kassel e em Atenas. A exposição nasceu com o objetivo de modernizar o pensamento alemão e varrer de vez o obscurantismo deixado pelo nazismo. Sua chegada a Atenas é, obviamente, simbólica.

El Partenón de libros, da Minujín, ganhou vida pela primeira vez 1983, na Avenida 9 de Julho, em Buenos Aires. Em suas colunas, livros proibidos pela ditadura militar argentina. Na lista dos autores censurados: Sigmund Freud, Karl Marx, Jean-Paul Sartre, Ernesto Sábato, Antonio Gramsci, Hemingway, Jorge Luis Borges e até Antoine de Saint-Exupéry e seu “O Pequeno Príncipe”. [Fonte: TATE].