Só um louco numa caixa azul

Ficção científica e política — Quem fala por você anda falando o quê?

Embora seja um fã relapso e ainda não tenha assistido às últimas duas temporadas, não saiba de cabeça o nome de todos os personagens nem perceba todos os easter eggs, eu me considero um whovian — um nome simpático para designar os fãs de Doctor Who.

Um dos meus episódios favoritos de todos os tempos se chama “Midnight” e faz parte da quarta temporada, com David Tennant no papel do Doctor. Para mim, ele é um exemplo do quanto a ficção científica é importante para ajudar a pensar o mundo ao nosso redor, às vezes de maneira bem direta.

Vou falar mais ou menos sobre o episódio:
Doctor e sua companion Donna (por que as melhores companions sempre duram menos e vice-versa?) visitam um planeta resort chamado Midnight. Enquanto Donna Noble desfruta das mordomias do SPA oferecido pelo hotel, o Doctor resolve fazer um passeio numa espécie de monotrilho turístico pelo planeta, com um grupo de desconhecidos. Essas pessoas parecem pouco interessadas em interagir e prestar atenção umas nas outras, o que irrita o Doctor de início. Mas logo um incidente muda a situação.

O monotrilho para de repente. Algo desconhecido do lado de fora começa a bater na carcaça do vagão imitando os sons produzidos do lado de dentro. Há alguma discussão sobre o que possa ser o barulho, se é um pedido de socorro, e se você não quiser saber a resposta, a hora de parar é agora, mas… Não é o tipo de spoiler que estragaria a apreciação do episódio.

Tomou sua decisão? Então vamos em frente.

O barulho é produzido por algum tipo de criatura que não chega a ser explicada (manter parte dos mistérios também é legal em uma história), já que o importante não é O QUE ela é, mas o que ela é CAPAZ DE FAZER. A criatura consegue entrar no vagão e “possuir” uma das pessoas. Quando o Doctor vai falar com essa pessoa-criatura, percebe que ela está repetindo tudo que ele fala, e começa a entender o seu método de possessão.

Vamos nos colocar no lugar do Doctor por um momento e entender cada etapa do ataque da criatura. Primeiro, ela começa a repetir o que você está falando com ela. Você fala, um tempo depois ela repete. Um modo de dizer “ei, veja só, nós somos parecidos e eu estou aprendendo com você”. Mas a situação de possessão avança rapidamente. O intervalo entre a sua fala e a repetição pela criatura vai ficando cada vez menor… cada vez menor… cada vez menor. Você fala e, logo em seguida, ela repete. O olhar dela não é nada amistoso, embora a mensagem seja “ei, estamos ficando muito mais parecidos”, mas você não consegue parar, não consegue escapar desse falso diálogo.

A próxima etapa do ataque é crucial. Você e a criatura agora estão falando ao mesmo tempo. Ela já conhece você tão bem que consegue antecipar seu raciocínio e falar as frases junto com você. E esse ponto é crucial porque nele começa a se apagar uma linha tênue e muito, mas muito, importante. “Quem está imitando quem”? É uma diferença sutil, mas que vai determinar quem está no controle da situação e também o próximo ataque desse passageiro perigoso.

Se você não fica esperto, não retoma o controle do seu discurso, a criatura começa a falar antes de você. Não dá mais para saber se ela está falando o que você está pensando ou se você acha que está pensando enquanto, na verdade, apenas repete o que escuta. E de um segundo para o outro não existe mais a linha tênue: Agora é você que está imitando a criatura e não o contrário. O processo de aprendizado da criatura está completo e, assim, ela assume o controle da sua mente.

Mas o Doctor vence a criatura no final, não vence?

Boa pergunta! Com uma resposta mais complexa do que “sim” e “não”. Sem estragar o final, o que posso dizer é que as pessoas que fazem a diferença são aquelas que estavam prestando atenção de verdade umas nas outras (sim, havia algumas), e não se deixaram distrair.

Eu acho esse episódio assustador por vários motivos. O principal deles é a constatação de que o discurso é uma arma poderosa. E quem controla o discurso, controla o jogo. Só que ninguém precisa ser um alien desconhecido do planeta Midnight para fazer isso. Basta um político ou movimento ter acesso à internet, construir uma base de seguidores (inventando inimigos novos todo ano, geralmente), contratar algumas celebridades decadentes para concordar com ele fazendo graça no Twitter, contratar um serviço de bots e perfis falsos para repetir aquilo que ele está falando nas redes sociais e pronto: ele se torna candidato a dono do discurso.

Se você não é whovian, essa é a Donna.

E sabe o que acontece quando alguém assim se torna dono do discurso? Bem, um dos pontos o Doctor já nos explicou. Nós começamos a papagaiar tudo que está sendo dito, como se aquele discurso fosse nosso. Outro: o dono do discurso consegue decidir quais assuntos serão discutidos e quando eles serão discutidos. Geralmente políticos e movimentos usam isso para desviar a atenção de tópicos realmente importantes, influenciar campanhas ou disfarçar sua falta de projetos para o país. Um pior: ele consegue espalhar informações falsas/fake news pela sua rede de seguidores, bots e celebridades decadentes e ainda tenta reescrever a realidade conforme o próprio interesse. Exemplos: Não existiu ditadura no Brasil. Professores estão doutrinando nossos filhos a serem comunistas. Cientistas são parasitas que desperdiçam o dinheiro do governo. E os artistas, ah, os artistas…

Seria coisa de ficção científica, não estivesse acontecendo de verdade. Algo parecido aconteceu nas eleições americanas envolvendo até a foto de um brasileiro em um dos perfis falsos. [Fonte: New York Times] Recentemente, por conta de um episódio de protesto na execução do hino nacional em um jogo de futebol americano, o Twitter identificou 600 contas que provavelmente existem com o único propósito de induzir a opinião alheia, definir o assunto do dia e, bem, causar conflito entre os americanos [Fonte: New York Times].

É como uma reação em cadeia. Um jogo de dominó no qual uma peça derruba duas, duas derrubam quatro, quatro derrubam oito e logo temos aquela histeria nas redes sociais que todos nós já conhecemos. Sem perceber, começamos a falar só do que a criatura-pessoa quer que nós falemos. Parece que estamos sendo super participativos, combatentes, dando a nossa opinião. Mas estamos ecoando a criatura e dando mais força para ela.

Como fazer uma coisa sem fazer a outra é algo a se pensar. O fato é que não dá para vencer a criatura e fazer o jogo dela ao mesmo tempo. Como o Doctor ensinou, é preciso ser mais rápido. E mais esperto. Principalmente com as eleições se aproximando no Brasil.

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