crônica de um amor perdido.

Era uma noite quente, atípica se considerarmos que o inverno que vinha assolando aquela cidade havia alguns meses. 
Vesti uma camiseta branca, jeans e bota. Tudo dentro da simplicidade que o momento requeria.
Encontrei alguns amigos e parti. Parti pra noite que mudaria tudo. Eu só não sabia disso ainda.
O lugar estava vazio, silencioso, como se esperasse por um acontecimento específico onde eu finalmente liberaria toda minha expectativa, toda minha angústia. 
O tempo passava devagar, os minutos se arrastavam, contribuindo para o aumento da apreensão que já explodia dentro de mim.
E depois de muito relutar, o mundo parou e eu não era mais capaz de nada. Extasiado. É isso que descreve meu estado naquela hora. No meu fone, Lana Del Rey entoava Video Games que dava o tom exato da situação. Tudo que conseguia fazer era observar detalhe por detalhe, linha por linha daquela garota. Os cabelos escuros levemente ondulados caiam pelas costas, a expressão de suavidade, os olhos escuros e os óculos perfeitamente escolhidos completavam aquela que seria meu novo elo de ligação com a terra. Gravidade já não importava mais. Enquanto ela estivesse ali, eu estaria.
O contato visual foi rapidamente seguido por um abraço, que me permitiu sentir ainda mais preenchido por um calor que poucas vezes havia sentido, aquele que vem da alma, que vem de dentro.
Mas, as coisas nunca acontecem como desejamos.
Descobri, de uma forma amarga, que a não-reciprocidade de um ato nobre, fere tanto quanto qualquer outra manifestação de vilipêndio. Descobri, que a entrega excessiva, quando não mensurada, arranca pedaço. 
Minha visita ao paraíso durou pouco. Os segundos extasiados ao contatar os olhos escuros da garota foram os melhores dos últimos tempos. Depois dele? Somente dor.
Não sei se te quero. Não dessa forma. 
Não sei se sou capaz de abrandar a chama que me queima. 
Não sei o que me sobra. Mas sei o que me falta. Me falta a garota. Me falta a plenitude daquele olhar, me falta a integridade e a insanidade, simultâneas, daquela mente, me falta a loucura daquela vida. Me falta a primeira pessoa do plural. Me falta nós. 
O eu é banal, o eu é triste. Pra que continuar? Pra onde ir sozinho? Sozinho não tem graça, não tem alma. 
Qual o sentido de não estarmos aqui, juntos, colados, quando na verdade funcionamos um para o outro, quando na verdade, somos um só ser, separados pela coincidência da vida e por dois amigos de infância? 
Tantos diálogos, tantas confissões, tanta simbiose. Não pode ter sido tudo jogado pela janela. Não, o universo não funciona assim. Onde está meu paraíso, questiono, porque afinal de contas, o paraíso é um lugar na terra com você. Encontrá-lo é tudo que desejo, é o que clamo na madrugada fria que redijo esse desabafo. E novamente Lana Del Rey é a protagonista. Mas dessa vez, de alguém incompleto, de alguém que não consegue aceitar que as coisas saíram de controle. De alguém inconsolável. 
Um dia, reviveremos isso tudo — como memórias de tempos obscuros — após estarmos finalmente juntos.

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