ÚLTIMO SUSPIRO

Júlio Moreira

Sei que o meu fim não tardará a chegar. Quase o desejo.
Pobre Aurora!
No tempo em que nascemos, sujeitos já a grandes limitações e injustiças, os
homens podiam ainda olhar para o céu, respirar a plenos pulmões e sentir a
frescura das manhãs e as brisas da tarde como bens elementares, dos quais
ninguém os poderia privar.
O nome que os teus pais te deram, além de expressão sincera de alegria e
esperança, foi também a passagem simbólica da missão secreta de
preservar a dignidade da espécie.
Agora, nem mesmo o desespero e a revolta serão talvez suficientes para
justificar a continuação da minha vida. Receio estar à beira da desistência
perante o espectáculo da conformação das massas esvaziadas da condição
humana.
Como foi possível que as multidões dos homens que procuravam a
dignidade e o prazer, tenham deixado cair os seus destinos aos pés do
pequeno grupo das elites fechadas nas suas mansões, com total desprezo
por todos os valores éticos e culturais indispensáveis para assegurar a
sobrevivência da espécie?
Quando nasceste, quem poderia imaginar que, apesar da tua alegria de
viver, da tua saúde e da tua beleza virias a dar o ultimo suspiro antes de
cumprires vinte anos?
Foi talvez o sentimento de revolta inseparável da tua natureza e a coragem
perante todas as ameaças que se erguem à nossa volta, que te permitiram
conservar o entusiasmo e a capacidade de prazer, nas estreitas margens em
que vão sendo ainda possíveis.
Nunca esquecerei o dia da tua morte, mas sinto que a minha vez se
aproxima. E só a vontade de dar um significado à minha morte, como sinal
de que a resistência não terminou, me poderá salvar do perigo maior da
desistência.
Mas qualquer que seja o meu breve futuro, a nossa última noite será a única
noite inesquecível da minha vida.
Sabíamos que a nossa vida estava ameaçada, que dificilmente poderíamos
cumprir os encargos que a lei nos impõe. Vivíamos numa estreita margem
de risco por falta de recursos para pagar os impostos, com um passado de
coimas cumpridas no limite, que agravaria por certo as condições da
sobrevivência que nos era permitida.
Não sei em que condições excepcionais, relacionadas com o nosso
encontro, tínhamos conseguido passar a tarde num ócio sereno, como
nunca teria acontecido a nenhum de nós, desde há muito tempo, desde
quando tu eras ainda criança.
Foi nessa tarde que o nosso amor suspenso se libertou, se reconheceu sem
reservas, se realizou no único amor das nossas vidas.
Tínhamos combinado encontramo-nos num cais de embarque como sítio de
referência e talvez como símbolo de uma partida imaginária. O ar estava
tépido, imobilizado numa atmosfera que o poente ia colorindo de tons rosa
e purpura, e seguimos ao longo do passeio marginal, àquela hora muito
frequentado. Ao longo do vagaroso percurso, a nossa atracção ia subindo
serenamente, libertando-se num íntimo espaço espaço de liberdade.
Ao cair da noite chegámos a uma esplanada com vista para o estuário, num
espaço enquadrado por maciços de loendros de flores rosa, onde decidimos
jantar.
A água muito azul ligeiramente encrespada pelas brisas, onde deslizavam
as manchas brancas dos veleiros desportivos, refletia as últimas claridades
do poente. A noite estava amena e cálida quando saímos e nos
encaminhámos para tua casa.
Pelo caminho lembrámo-nos ainda das nossas condições de vida, mas
insensivelmente, sem conhecer exactamente as nossas margens de risco,
fomo-nos convencendo que nos seriam ainda favoráveis.
Desde que a Lei sobre a Qualidade Atmosférica foi promulgada, há dois ou
três anos o nosso “chip” passou a registar a quantidade de ar que
respiramos até ao limite máximo estabelecido, e a deduzir o valor do
respectivo imposto no montante dos nossos salários. No caso de os salários
individuais não cobrirem os encargos, ao fim de uma curta margem de
tempo o “chip” emite um ligeiro jacto mortal, do qual o paciente se
apercebe apenas como de um breve suspiro.
Como poderíamos, naquela altura, travar a força da paixão? Nem sequer
tínhamos passado ainda por uma noite de amor e estávamos ansiosos por
descobrir a intensidade e a infinidade das ofertas que o desejo traz consigo
do mais fundo do nosso ser.
Assim transpusemos, vertiginosamente, todos os limites que pudessem
ainda separar-nos da unidade procurada dos nossos corpos. Dos mais
remotos pudores, às ansiedades da procura, das surpresas iniciais à
invenção liberta de tabus ou hesitações. Conheci o teu corpo para lá de
todas as expectativas, para lá de todas as imagens, de todas as formas e
consistências, de todas as respostas ou momentâneos silêncios, e todo o teu
corpo ficou para sempre gravado em todas as memórias do meu corpo, em
todos os reflexos e impulsos e sensações prontas a despertar ao lembrar-me
de ti.
A claridade da manhã veio através dos vidros da janela colorir de uma
tonalidade rosa os lençóis da nossa cama. A aurora tinha chegado e os
nossos corpos apaziguaram-se juntos no corpo único do nosso amor. Foi
como se o tempo tivesse parado. Apenas uma leve mancha de luz que
entrava pela janela, se deslocava lentamente sobre o teu peito.
Até que uma súbita, leve, inquietação te fez erguer e, já sentada, olhaste
para mim com a súbita angústia do último suspiro.
Júlio Moreira
Rego d’Água, 2 de Agosto de 2016


THE LAST BREATH

I know my end will not be long in coming. I almost desire it.
Poor Aurora!
When we were born, subject to great restrictions and injustice even then, it was still possible to look up at the sky, fill our lungs with air and feel that the morning freshness and the afternoon breeze were elementary rights that no one could ever take away from us.
The name your parents gave you was a sincere expression of joyfulness and hope, a symbolic episode in the secret mission to preserve the dignity of the species. Not even despair and revolt may be enough to justify the continuation of my life. I fear I am on the
verge of giving up before the mass spectacle of people stripped of the essence of humanity. How could the multitudes of men in search of dignity and pleasure allow their fate to fall prey to a tiny group of the elite, behind the walls of their mansions, in total contempt for the basic cultural and ethical values necessary for the survival of the species? 
Who could have imagined when you were born, that despite your joy of living, your health and beauty, you would take your last breath before reaching the age of twenty? Perhaps it was the feeling of revolt, inseparable from your being, and your courage in the face of all the growing threats around us which enabled you to sustain your enthusiasm and capacity for pleasure, within the narrow limits where they are still possible. I shall never forget the day of your death, but I already feel my own time is coming. It is only the wish to give a meaning to my death, to show that resistance is still alive, which can save me from the greater danger of quitting. But whatever my brief future turns out to be, our last night will be the one unforgettable night of my life.
We were already aware our lives were under threat, that it would be hard to comply with the impositions of the law. We lived within the narrow margins of the risk of not being able to pay our taxes, and our past history of last-minute settlement of fines inevitably made the permitted conditions of survival even more severe. I do not know what it was about the exceptional circumstances of our meeting that allowed us to spend the afternoon in that tranquil idleness, something neither of us had experienced for a long
time, since when you were still a child.
It was on that afternoon that our love-in-suspense broke free, recognised itself without reservations, and came to fulfilment as the one love of our lives.
We had arranged to meet on a departure pier, as a point of reference. The air was warm and still, in an atmosphere painted pink and purple by the sunset, as we wandered along the promenade, busy at that hour. Along the way our mutual attraction unfolded serenely, liberating itself in an imaginary
world of freedom. As night fell, we found an esplanade with a view of the estuary, where we decided to eat, in a place surrounded by pink-flowered oleander bushes. The intensely blue waters, slightly agitated by the breeze, with the white flecks of sailing boats gliding by, reflected the dying rays of the setting sun. The evening was mild and warm as we left and walked back to your home.
Along the way we were still thinking of our situation. Unconsciously, we calculated the margins of risk which, though unknown to us exactly, we believed we could still take advantage of. Since the Atmospheric Quality Law was passed two or three years before, our chips began to register the volume of air we breathed, up to the established maximum limit, the respective value of tax being deducted from our salaries. If an individual salary fails to cover the cost, soon afterwards the chip delivers a suave but lethal injection which the patient registers with no more than a short gasp. How could we hold back our passion at a time like this? We had not yet spent a night of love together and we were eager to discover the intensity and infinity of the gifts that desire releases from the very depths of one’s being. And so, vertiginously, we transposed every limit which might still separate us from the oneness of
our bodies we desired. From the most profound modesty to the eagerness of enquiry, from initial surprise to invention, free from taboos or hesitation. I grew to know your body beyond all my expectations, beyond every image, in every form and feeling, from every response or momentary silence, and the whole of your body became engraved for ever in every one of my body’s memories, in every reflex, impulse and sensation, ready to reawaken when I remember you. The clarity of morning shone through the window panes to colour the sheets of our bed in shades of pink. The aurora had arrived and our bodies lay calmly together in the single corpus of our love. Time seemed to have stopped still. A single ray of light came through the window, playing slowly over your breast. Until, startled, you rose, and sitting up, stared at me with the sudden anguish of your final breath.

Translated by David Evans